segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

poema no bilhete


Não danço, amor
Não sei dançar
Se o soubesse
Então o faria contigo
Meu único par

Não danço, amor
Não sei dançar
Mas amo
Alegre e profundamente
Amo e sei amar
Se meu coração arrisca um compasso
É somente por ti
Meu único par

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

barcos de papel

Em vão, como os poemas e as promessas. Em vão como sonhos, surpresas, silêncio e solidão. Como as agruras e as pelejas, em vão como os santos de bronze e o filho pregado na cruz.

Em vão como o seu mural sem retratos, de estrelas vazadas a iluminar o nosso vazio.  Como o seu nome gravado na minha mão. Como os nossos destinos todos espremidos na mala que não desfiz. 

Em vão como o sim e o não. Como o dó e a dor. A eternidade, afinal, é um delírio fugaz. E a verdade? A maior das mentiras.

Simplesmente em vão, como vêm e vão os homens e seus amores...

Feito barcos de papel. 

murphy e a tormenta

- Aqui. Meus últimos cruzados no melhor guarda-chuva da loja.
- Já era tempo, amigo, finalmente vai se proteger desse pé d'água...
- A chuva é que vai parar.


domingo, 15 de janeiro de 2012

todo passo

Seu rosto debaixo de cada véu, seu corpo escondido detrás da cidade velha. Sete sem ti. Dois olhos passeiam por uma casa que não é minha, confusos e vagarosos. Errantes, melancólicos. 

Surpreende-me reviver sozinho o nosso beijo às escondidas. Somente o mar em comum, mas águas distintas, distantes. Sete sem ti. A muralha e os labirintos, a chuva que não vem do céu. Sua poesia marginal num verso apenas, numa palavra que não se repete porque já passou. Pretérito. Perfeito.

Sete sem ti. E mesmo sem estar à vista, és dona de todo passo meu. 

E todo beijo. 


segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

brasileiro

Justo em dia de festa, levaram-no embora. Justo. Em dia de festa, partilhamos no rosto as lágrimas de tristeza e as lágrimas de alegria.

Por que não? Todas elas assim, antagônicas e complementares. Em paradoxo que o futebol não explica e harmonia que só a bola nos faz entender.

Levaram-no embora de modo a eternizar sua morte como eternizada foi sua vida. Levaram-no porque o destino é sujeito oculto, matreiro, não raro apronta dessas que ninguém ousa saber como e por quê.

Entre a fraqueza na cama de um hospital e a leveza de partir para a tribuna de honra, Magrão não titubeou.

Seu coração parou de bater quando o coração de seu povo batia mais forte. Dessas coisas que fazem do Corinthians, como dizia ele próprio, não apenas um time ou uma torcida, mas um estado de espírito.

No campo, de punhos fechados em riste, todos foram Sócrates por um minuto. No céu, balões alvinegros carregaram o seu nome e o seu rosto como a carregar sua história sobre a multidão em êxtase no Pacaembu.

No dia de sua morte, Sócrates pela primeira vez foi campeão brasileiro.

sábado, 12 de novembro de 2011

novo rio

O saguão desse terminal para sempre vai me lembrar aquele dia. Quando estive de passagem querendo voltar. Quando precisei ser apenas eu mesmo para ser outra pessoa.

A cidade se desenhou à janela do carro amarelo, o contorno das maravilhas sublinhou a inquietude e o desejo de se sentir um homem de lugar nenhum. Os olhos se voltaram ao livro de bolso, a loucura sorriu. Busquei intensamente vivê-la, tal qual Erasmo de Rotterdam ou o bom amigo Pataca.

Tão cego quanto sempre desejei, parti.

Voltei. 

Passamos, o tempo e eu. Tão pouco depois, caminho de novo pelo saguão à espera do meu lugar no mundo.

Somente o próximo, jamais o definitivo.









quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Rock in Rio: Eu vi [parte 2]

Sexta-feira, 23 de setembro de 2011. Cidade do Rock, 20h30.



Hora de aliviar a tensão, esquecer – por enquanto – o desconforto a que o público brasileiro é submetido em grandes eventos. Imaginem a Copa, murmuram os transeuntes. As Olimpíadas. Dane-se tudo isso, só quero tomar uma cerveja e encontrar meus amigos.

A estrutura realmente impressiona, mas não demoro a notar que a roda, apesar de gigante, não roda. O fluxo de pessoas é intenso, mas bastante tranqüilo longe do palco. Não tenho dificuldade em chegar ao local combinado, mas, qual não é minha surpresa, a tenda da cerveja que patrocina o festival não vende cerveja. Atônitos e frustrados, percebem meus botões que se trata apenas de um estande cercado de promoters boazudas e convidados vipes.

Partimos para a praça de alimentação a fim de matar a sede e de esquecer que a Cláudia Leitte vai cantar muito em breve. O copo de cerveja custa sete reais. O sanduíche de microondas, doze e cinquenta. Uma hora e meia na fila do fast food. Parte dos clientes pede explicações, clama pela gerência que não aparece. Outra parte, aquela para a qual atitude é apenas uma estampa de camiseta, não se move e não se importa em ser mal tratada.

Os funcionários do pelotão de frente não se constrangem diante da câmera amadora que registra o descaso. Ao contrário, distribuem cinismo, poses, sorrisos e perguntam se “vai para o Facebook” (a única chance de alguém, afinal, curtir sua performance). Longe dali, os ambulantes “oficiais” extrapolam a extorsão: a cerveja sai por nove reais.

- Mas não é sete? Tá escrito no seu macacão!
- Tá bom, pode ser. Sete.

A cerveja está quente. O sanduíche de microondas, congelado por dentro. Mais uma fila para trocá-lo. E quem poderá nos defender? Cláudia Leitte, no palco, aponta o caminho em ritmo de micareta: “segura a pata do caranguejo”. Faz sentido. Ainda dá para regredir.

A “cidade” é um circo publicitário camuflado onde o rock não passa de um produto de mercado tão lucrativo quanto Che Guevara. Subversão é uma etiqueta de grife na vitrine das melhores butiques. A tenda da cerveja não vende cerveja. E os funcionários da operadora de celular, claro, desconhecem informações sobre o chip pré-pago, seu produto mais banal. A multidão, no entanto, se esparrama pelo chão sujo quando os patrocinadores oficiais da contracultura distribuem souvenirs vagabundos de graça. Nossa mesquinhez terceiro-mundista é assustadora e deprimente.

Alguma coisa está errada quando o melhor do festival até aqui é o banheiro masculino. O imenso mictório ao ar livre permite que os pênis não se espremam desesperados, mas a verdade é que ainda estamos de saco cheio ao sair de lá.

A Cláudia Leitte, pelo menos, já foi embora. 

Mas cadê a Rita Lee? Ela não veio?

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Rock in Rio: Eu vi [parte 1]


Sexta-feira, 23 de setembro de 2011. Jardim Botânico, 16h.

Uma hora esperando o ônibus. Os dois primeiros passaram lotados, sem parar. O terceiro, tão cheio quanto os outros, parou para que duas ou três pessoas descessem - e fechou a porta da frente para que ninguém mais entrasse. Entrei pela porta de trás, esmagado e clandestino. Quem ia ao Rock in Rio já estava cansado. Quem não ia, amaldiçoava o tumulto causado pelo festival.

A cidade parada. Zona Sul e Barra da Tijuca se difundiam num inferno inesgotável de carros, ônibus e gente sem paciência. O Rio de Janeiro perdeu suas paisagens pelo caminho e foi atingido por ondas de caos na tarde cinza que em nada parecia maravilhosa.

O motorista errou o caminho do terminal. Os passageiros gritaram. Ele parou. Cometeu infração gravíssima e voltou de marcha-ré na avenida de maior movimento da região. Os passageiros, em risco, acenaram da janela para que não viesse o pior.

No terminal não havia luz. Blecaute e multidão de todos os cantos em busca de um ônibus que chegasse, enfim, ao pressuposto paraíso. À Cidade do Rock, linda e mítica pela televisão. Na vida real, pequenas barbies maquiadas e intocáveis se espremiam com nojo e debutavam nos corredores estreitos e sujos do transporte público carioca. Novidade que elas decerto não querem provar jamais.

Quatro horas e meia depois, sem qualquer esperança em um mundo melhor, cheguei ao destino que poderia aliviar meu desgosto. Perdi a abertura, os fogos e o emblemático show dos ídolos que nasceram comigo na metade dos anos 80. Eu, no interior de São Paulo. Eles, no palco do primeiro Rock in Rio. Resignei-me, Paralamas eu vejo em casa. Num outro dia.

Camiseta. Latão. Ingressos, ingressos! Cachaça com mel. Vai chover, capa de chuva. Lá dentro é vinte, aqui é dez. Ingressos, ingressos! Latão, dois por cinco. Olha a água, o chaveiro, amendoim torrado. Ingressos?

Os ambulantes, atordoados e cínicos, revelam no grito de sobrevivência que os arredores da cidade artificial são pobres e fedem esgoto. A multidão corre às margens da realidade e atravessa os cordões de segurança sem revista qualquer.

Estão todos cansados demais e o show não pode parar.