sábado, 23 de setembro de 2017

SOBRANCELHAS

É uma sexta-feira incomum. 

Deixamos o trabalho, estamos de folga no fim de semana, ambos cheios de vigor, hipnotizados pela miragem da vida pessoal. O mundo, enfim, se descortina diante de nós. 

Quase sempre trabalhamos até mais tarde, quase sempre trabalhamos aos sábados e domingos, quase nunca temos uma noite de sexta-feira assim, a sós, em que se derramam raras e infinitas possibilidades .

Podemos ir ao cinema. Podemos sair pra jantar. Tem aquele rodízio japonês que a gente adora. Aquele italiano novo perto de casa. O bistrô, hmmm, aquela mezzaluna incomparável. Cinema e depois jantar. Jantar e depois cinema.  

De repente, podemos pegar a estrada e encontrar os amigos no interior. Curtir uma praia naquela pousadinha à beira-mar, por que não? Reservar uma cabana nas montanhas... 

Podemos encher a cara de vinho, de poesia, de virtude. Aproveitar a ausência das crianças e acender aquele restinho de baseado escondido há meses na gaveta do criado-mudo. Fazer amor na varanda enquanto o prédio novo ali na frente não fica pronto.  

Podemos tudo. Qualquer coisa. Temos um casamento no dia seguinte, mas e daí? Podemos mudar os planos à mercê dessa liberdade explícita, vadia e generosa.
  
Deixo que ela decida nosso destino desta sexta-feira incomum -- menos por cavalheirismo e mais porque não tenho maturidade pra tomar decisões em momentos assim, de expectativa quase infantil. 

Ela entra no carro. Bate a porta, eufórica, e anuncia a sexta-feira que desenhou pra nós. Que mulher. Depois de tantos anos, ainda é capaz de me surpreender:

- Marquei salão, amor. 
- Oi?
- É aqui pertinho, precisamos correr.
- Qu... Que salão?
- Salão, ué. De beleza. 
- Mas você não foi ao salão anteontem?!
- Pra fazer pé e mão.
- Então!
- Hoje é sombrancelha, amor.  
- Eu não acred..
- PRE-CI-SO fazer minha sombrancelha
- C..
- Não posso ir assim horrorosa ao casamento do seu primo!


Passo o crachá na portaria do estacionamento. Deixamos a empresa. Já penso no trabalho com saudades. 

Não.
Não. Não.
Tudo tem limites.

Salão de beleza? Numa sexta à noite? 
Não foi isso que eu escolhi pra minha vida.

É o momento de me impor, de mostrar que eu não aceito essa ideia em hipótese alguma. Não existe a menor chance de perdermos a noite por causa de uma vaidade egoísta. 

Respiro fundo e escolho as palavras que digam tudo isso de uma forma pacífica. 

- Tá bom. Tudo bem. Vamos.
- Melhor homem do mundo!, ela me beija. 
- Mas olha... tem uma coisa.
- Hum?
- Até meio chato dizer, mas...
- Pode falar.
- É SO-brancelha. SÔ!
- Como assim? O que eu falei?
- SOM-brancelha. Sempre fala.
- Tá. Entendi. 
- SO-brancelha. De sobrolhos. Sobre os olhos. Faz sentido?
- Sim!


Ela me beija, dane-se o português.

- Melhor homem do mundo!
- Hm. Qual é o endereço do salão? 

É um ato de bravura, resiliência, companheirismo. 
Uma prova irrefutável de amor. 
Uma atitude que vai estabelecer um novo patamar na relação.

Dirijo em silêncio, mas inconformado. Ameaço resmungar, me contenho. 

Mas por que as pessoas fazem sobrancelhas? Quem é que repara nesse tipo de coisa? Nunca, nunca olhei pras minhas. Nem pras dela. Nem pras de ninguém. À exceção das sobrancelhas da Frida Kahlo, famosas no carnaval, todas as outras são iguais -- ou, vá lá, quase iguais. 

Quem é que percebe qualquer mudança entre umas e outras? Aliás, como se faz uma sobrancelha? Corta? Passa tinta? Produto químico? Delineador? Como vivem, o que pensam os seres humanos que fazem sobrancelhas?

Não verbalizo, claro. Seria inútil. Provocaria estragos. E, em última instância, qualquer dúvida legítima seria taxada como rabugice e rebatida com outra pergunta: "Você não quer uma mulher bonita ao seu lado?". 

Chegamos ao salão. O maquiador nos recebe com sorriso, abraço, oferece um cappuccino. Logo é a vez da minha mulher. Ela se acomoda numa cadeira de modo que o rosto fique inclinado para este serviço que, se não vai mudar a cotação do dólar, vai decerto causar prejuízos ao nosso orçamento familiar no final do mês. Fico sentado ali perto, feito o melhor homem do mundo, dando um tchauzinho e uma piscadela pelo espelho de vez em quando. 

Abro um livro pra que o tempo passe mais rápido. Leio duas, três páginas. Desisto quando ouço o papo do maquiador. Ele não consegue prestar atenção no jornal "quando aquela moça bonita apresenta". 

- DI-VA. Que sobrancelhas são aquelas?! MA-RA-VI-LHO-SAS!

Peraí. Como assim? 
Estiagem. Atentado. Propina. Míssil. Furacão. Massacre. Terremoto. PMDB. O mundo assim, vítima de tantas tragédias, e ele só consegue prestar atenção naqueles fiozinhos inofensivos e indefesos? 

Bebo o último gole de cappuccino enquanto ele desfila conhecimento sobre as variações de formato, espessura e artificialidade das sobrancelhas. Dizem que elas são a moldura dos olhos, mas acho que são apenas a fronteira da testa. Percebo minha ignorância, encolho-me na poltrona de espera e finjo que estou entretido no livro. Homem feliz, aquele maquiador. "Quando aquela moça bonita apresenta o jornal", ele nem percebe que o Temer ainda é o presidente.   

Depois de, sei lá, uns seis meses, minha mulher se levanta.

- Tá pronto, amor! Foi rapidinho, não?
- Foi. Rapidinho.
- E aí? O que achou?
- Do quê?
- Das sombrancelhas, amor!
- Lindas. Lindas.

Voltamos pra casa. Descasco uma banana, me jogo no sofá e ligo a televisão. Vai começar a mesa-redonda, hora de saber tudo sobre a rodada da Série B. 

Minha noite, outrora promissora, de repente é prosaica e melancólica. Espicho o olho pelo corredor e vejo minha mulher se olhando no espelho do lavabo. 

- Não ficou lindo, amor?

Olhei. Olhei. Olhei.

Não vi diferença alguma, embora eu tenha dito, mais uma vez, lindas, lindas. 

Impossível não perceber, contudo, os olhos que brilhavam logo abaixo das molduras. Foi assim que finalmente encontrei a magia daquela sexta-feira: minha mulher estava feliz com as sombrancelhas novas. E dane-se o português. 









sábado, 16 de setembro de 2017

O SONHO PERSISTE, MALACO

Devia ser o primeiro ano da faculdade, não me lembro com tantos detalhes.
Me lembro, sim, que podíamos escrever qualquer coisa a partir de um verso específico de Carlos Drummond. 

"Já não há mãos dadas no mundo". 

Escrevi sobre um homem sozinho à beira da estrada, à margem da humanidade e sem final feliz. O nome desse homem, escolhi por acaso, era Malaquias -- e apesar da pouca sorte do meu personagem, ele divertiu meus amigos por muito tempo. Malaquias?! Por que não se chamava José? Por que não Jorge, Carlos, Rafael, Antônio, Paulo, Edílson, Guilherme, Alexandre? 

Escolhi Malaquias. 

"Ô, bicho, e o Malagueta?! Você precisa escrever mais sobre ele!!!!", diziam os amigos.

Anos depois, na redação, conheci um Malaquias de verdade. 

O convívio, porém, abreviou nossos nomes. Virou Malaca pra uns, Malaco pra outros -- e dele ganhei apelido em inglês com sotaque caipira: "The Dreamer!". 

Em português, "O Sonhador". Uma piada sobre o meu hábito de invariavelmente voltar da rua entusiasmado com as reportagens que tinha debaixo do braço. Sobre a minha insistência em pedir mais tempo de matéria pro editor; meus argumentos desesperados de que a  gente não podia contar uma história tão bacana em apenas um minuto e meio. 

E sempre que eu abri a porta da ilha em que ele estava trabalhando, foi assim, na redundância de artigos, que o Malaco me recebeu:

- Olha aí o The Dreamer chegando!

Nunca entendi muito bem se ele estava rindo da minha ingenuidade ou se estava exaltando o meu inconformismo, mas qualquer uma das hipóteses me satisfazia. Rir de mim mesmo ou me sentir um romântico eram bons pretextos pra viver em paz. 

Acontece que a vida real se encarregou de cumprir o destino daquele meu anti-herói de mentira.  

O Malaquias de verdade foi enterrado hoje. Morreu à beira da estrada. 

Na madrugada da última sexta, ele saiu do trabalho e engatou a primeira marcha do Fiat 147. Aquela caranga antiga era uma das paixões das quais ele se orgulhava. O "fiatola" tava sendo todo reformado, mas, naquele dia, uma pane seca interrompeu a viagem. O Malaco parou no acostamento e, quando abriu a porta, um caminhão passou. O motorista foi embora sem prestar socorro.  

Já não há mãos dadas no mundo.

Homem de pouca reza, escolhi um banco onde eu me permitisse sentir as dores da morte. Na última vez que falamos, semanas atrás, tentei não demonstrar que os sonhos talvez já não fossem os mesmos. Mas ele riu, deu um tapinha nas minhas costas e se despediu, sempre repetindo os artigos. "Imagina, cara, você é o The Dreamer! Sempre será!!".

Hoje quedamos sós. 
Em toda parte, somos muitos e sós. 

Absorto em todos os clichês que a finitude nos proporciona, li as mensagens de pesar e lágrimas dos amigos. As declarações de amor que ele fez à mulher nos últimos dias da linha do tempo. Vi as fotos da filha pequena, "princesa linda do pai". O "fiatola" brilhando na garagem.

Antes que alguém pudesse me encontrar por ali, olhos marejados e palavra alguma pra dizer em voz alta, me levantei do banco, suspirei em memória do nosso companheiro e voltei a sonhar. 


segunda-feira, 4 de setembro de 2017

ALBORNOZ

10 de junho de 2017


Rodrigo Albornoz.
Pronunciar o teu nome, só percebi agora, é naturalmente conjugar a vida na primeira pessoa do plural.

Nós.
Nada é tão você quanto nós.

Tantos que tivemos o privilégio de te vivermos.
De nos acolhermos no teu coração infinito,
no teu sorriso bonito
no teu codinome "Albormito".

Nós.
Coadjuvantes da tua história.
Contadores de toda memória.
Aflitos e impotentes,
espectadores da tua batalha inglória.

Só que, diante da guerra, você foi paz.
Da finitude, recomeço.
E diante dos dissabores, você foi nossa fé.

Todo amor é saudade, menino-santo.

Rogai, Rodrigo.
Rogai por nós, Rodrigo Albornoz.


quinta-feira, 30 de março de 2017

CASO REAL



A primeira fila foi no xerox.
Quinze minutos.

A segunda fila foi no Detran. Fila da triagem.
Mais quinze.

- Boa tarde. PID, por favor.
- Quê?
- Permissão Internacional para Dirigir.
- Documentos.
- Tudo aqui!
- CNH e CPF, por favor.
- Os dois aqui.
- Comprovante de residência?
- Mas eu liguei no Disque-Detran e..
- A moça disse que o senhor só precisava de CNH e CPF.
- Exatamente.
- Normal. Acontece muito.
- Mas...
- Aquela fila ali, ó.
- Que tem?
- Entra na internet, senhor, e pega uma cópia de qualquer conta que comprove sua residência, .

A terceira fila, então, foi a do acesso à internet.
Trinta minutos.

- Conta de luz, senhor?
- Não. Não tá no meu nome.
- Telefone?
- Telefone. Pode ser.
- Qual operadora?
- TIM.
- TIM sem sistema, senhor.
- Sério?
- Próximo!
- Peraí! Eu PRECISO desse documento!!
- Cartão de crédito?
- Não sei se é seguro usar minha senha do banco aqui.
- Há outra opção, senhor?
- Acho que n...
- Próximo!
- Moça, peraí! Eu PRECISO de uma solução!!
- Qual o banco, senhor?
- It....
- Itaú sem sistema, senhor.
- Como assim?!
- Sinto muito, senhor.
- Mas acho que o problema é a internet de vocês.
- Próximo!

A quarta fila, então, foi pelo telefone. Ligação urgente pro banco.
Mais vinte minutos.

- Gerente, boa tarde. Preciso de um favor.
- Pois não.
- Uma cópia da fatura do cartão de crédito. Preciso comprovar meu endereço.
- Claro!
- Consegue mandar por e-mail?
- Hm. Sistema fora do ar. Não tem previsão, mas assim que voltar eu te mando!

Mais trinta minutos.
Mandou.

A quinta fila foi, de novo, a do acesso à internet.
Mais quinze minutos.

- Voltei.
- Deu certo, senhor?
- Recebi por e-mail. Só imprimir.
- Impressora tá fora de sistema, senhor.
- Hã?!
- Manda imprimir nessa outra.
- Ok.
- Próximo!

A sexta fila foi, de novo, da triagem.
Mais dez minutos.

- Voltei.
- Qual é o seu documento, senhor?
- PID.
- Pitty?
- PID. Permissão Internac...
- Não é aqui, não, senhor.
- Mas a m...
- A moça disse que era essa fila.
- Exatamente.
- Normal. Acontece muito.
- E agora?
- Ali, ó!
- Mas...
- Próóximo!

A sétima fila. Mais dez minutos.

- Boa tarde, moça. Tudo bem?
- Oi.
- PID, por favor.
- Documentos.
- Tudo aqui!
- CNH?
- Na mão.
- Só preciso dela.
- Mas e o CPF?
- Não precisa.
- Mas... Mas... Mas e o comprovante de residência?!
- Não precisa.
- Mas a m...
- A moça ali do outro balcão falou que precisava.
- Exatamente.
- Normal. Acontece muito.
- Moça, eu perdi mais de uma h...

[carimbo]
PUF. PUF, PUF.

- 260 reais. Paga ali naquele setor e volta.
- Dá pra pagar no cartão?
- Costuma dar, mas hoje é só dinheiro.
- Por quê?
- Sistema fora do ar.
- É sério?
- Tem um caixa eletrônico ali no shopping.
- Mas...
- Pró-xi-mô!

Fila no elevador pra descer.
Fila na escada.
Fila no corredor do shopping.

Fila na faixa de pedestre.
Fila no caixa eletrônico.

Fila pra voltar ao Detran.
Fila no elevador pra subir.
Fila na escada.
Fila nos caixas de pagamento.

O segurança me breca diante da porta.

- Pagamento? Hmm. Banco tá fora de sistema.
- Mas vou pagar com dinheiro.
- Sem sistema.
- Mas não era o sistema do cartão?
- Era. Mas agora caiu geral.

Fila de pagamentos.
Fila de funcionários confusos.

Fila. Fila. Fila.
Depois de muitas filas, documento em mãos.
O que poderia demorar poucos minutos demorou muitas horas. Um dia inteiro.

Ao voltar pra casa, a caminho da fila do pão, peguei a fila de carros do engarrafamento.  Pessoas com filas de problemas na cabeça. Ouvi a buzina e o estranhamento entre dois motoristas, um homem e uma mulher que disputavam um pedaço de rua. O bate-boca seguiu até que o sujeito macho pôs fim à briga -- e a última fila do dia me mostrou que o sistema tá realmente fora do ar:

- Ô, sua fila da puta! Vai pilotá fugão! 

segunda-feira, 6 de março de 2017

CATARINA

O sol de janeiro ardia em Belo Horizonte.

As crianças se divertiam no parque -- embrenhadas no verde e distantes do centro da capital mineira. No colo dos pais ou no chão, elas apontavam, queriam, despertavam. Era um momento raro em que todas as opções do mundo não cabiam na palma das mãos.

Pocotó. Tirolesa. Ararinha azul. Tucano. Marreco. Batata frita. Pedalinho. Esquilo. Picolé.

Desejei voltar à infância, menos pelo encantamento com as atrações e mais pelo sincero desejo de não enfrentar filas ou não sofrer com o calor. Crianças não pegam filas e não se importam com o calor. Desejei voltar à infância e, num sorriso largo e repentino, voltei. Avistamos uma tartaruga – e foi esse bicho sem cores e pouco vistoso que me encheu de alegria. “Catarina”, falei só pra mim, enquanto me aproximei das minhas primeiras memórias de vida.

Em seus passos diminutos e solitários, a tartaruga do parque passou indiferente por nós e pela ternura dos meus pensamentos distantes. Catarina foi nosso primeiro animal de estimação, presente da Tia Graça quando meu irmão nasceu e eu ainda tinha só dois anos. Crescemos habituados, portanto, com aquilo que era exótico pra quase todos -- mas pra gente era só a parte mais cascuda da família. Apesar do silêncio permanente, da mudez inata, Catarina sempre esteve conosco: o papo pulsando e os olhinhos lustrosos atentos àquele mundo bem mais rápido que ela.  

A gente fazia churrasco, jogava bola, brincava no tanque de areia, nadava na piscininha-feijão, mas a Catarina era a verdadeira dona do nosso quintal. O pratinho com almeirão, o mamão fatiado, a água sempre reposta. Às vezes a gente ouvia alguém dizer que era proibido – e eu passava noites em claro mirabolando planos pra fugirmos juntos caso o Ibama batesse à porta.

Catarina era a nossa promessa de eternidade. Mamãe, quanto vive uma tartaruga? Ficávamos encantados com a ideia de que todos morreríamos e ela continuaria ali. Não era uma possibilidade; era uma certeza.  Mais de cem anos, mamãe? Mais de duzentos?

Um dia, Catarina aprendeu a correr. Verdade. Não podia ver um dedão descalço que disparava -- às vezes ensaiando uma mordida amistosa, às vezes observando com agitação o que parecia ser um parente perdido.  Um dia, Catarina aprendeu a subir degraus. Passou a romper o muro que separava o espaço dela da sala de casa. Passamos a colocar obstáculos – mas um dia a Catarina também aprendeu a empurrar caixas e cadeiras. Era óbvio: ela já não queria ser apenas uma tartaruga. Quando ela transou com meu gorila de brinquedo e deixou o quintal todo sujo, ficamos boquiabertos. Catarina era macho.

Mas nosso grande erro não foi passar a vida acreditando que ela era fêmea; foi acreditar que ela providenciaria nossos enterros e depois cuidaria da casa. A gente se esqueceu que a Catarina não era gente. E um dia, tentando subir um degrau ainda mais alto, ela se desequilibrou e caiu de ponta-cabeça. O peso que ela jamais se importara em carregar agora a impedia de se mexer. Não havia mais ninguém em casa naquela hora. Quando o veterinário espetou um palito e ela não reagiu, a cabeça guardada dentro do casco, toda a nossa infância também ficou presa ali dentro. Catarina morreu esturricada pelo calor rioclarense.

O sol se pôs em Belo Horizonte. Escondi a lágrima e fui embora do parque depois de acenar escondido para aquela tartaruga que não era a minha. Naquela noite não consegui dormir, importunado pela melancolia da finitude. 

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

BOCA DE LOBO

São Paulo, quatro da tarde.
Viaduto do Chá.

O maltrapilho cambaleia, de tanta cachaça barata. Arrasta consigo o mal cheiro e um par de sapatos desbeiçados amarrado no pescoço. Saca uma embalagem plástica da cintura. 

- Olha aqui, patrão! Olha aqui que eu vou te mostrar que também sou gente!!

O documento intacto revela a identidade daquele homem que, se nome nenhum tivesse, não faria diferença aos passantes da cidade grande. Por que chamar por alguém que não se vê nem se ouve? Se atrapalhar o caminho, todo mundo sabe, é só empurrar e ele cai. 

Jadison, "com i, mesmo", Jadison Domingos. O rosto na cédula é outro, não sei se porque bem mais jovem ou se apenas porque mais limpo. 

- Faz uma reportagem comigo! Eu tenho nome e tudo!
- Ah é? Você vai contar sua história pra mim?

O homem titubeia. Os olhos semicerrados buscam qualquer lucidez que possa reavivar a memória.

- Tá gravando, patrão?
- Vou gravar aqui, ó, na cabeça.
- E vai passar onde?

Quem titubeia, agora, sou eu. 

- Vai depender do tamanho da sua história, Jadison.

Silêncio. Apesar de ter nome, ele receia que não tenha história alguma pra me contar; provavelmente sabe que histórias ordinárias não vendem muito jornal. Quem sabe se um dia ele mordesse o cachorro...

- Tô nessa há quinze anos, patrão.
- Sozinho?

E o Jadison dispara a gargalhar. 
HA HA HA HA!!!!

- Eu e ela! Eu e ela!
- Quem mais?
- Aqui, ó! Água que passarinho não bebe! HA HA HA HA!!!!

Ele deixa a sacola plástica cair no chão. Mais um direito se vai pela calçada. O título de eleitor amassado como se fosse lixo é o golpe mais forte que ele consegue desferir nos inimigos. 

- Que valor tem isso aí? É uma arma pra gente botar os ladrões no poder.
- Mas você pode escolher seu prefeito, pode cobra-lo e...
- Que prefeito? O hómi que tá chegando detesta a gente.
- Fala mais sobre isso...
- Vai exterminar os pobre tudo, cê vai ver. Vou escorrer pelo ralo feito papel de bala. 

No bolso direito, desentoca um punhado de embrulhos prateados, balas que jamais disfarçaram o mau hálito, e decide encenar a própria tragédia. Atira tudo no chão, gargalha de novo. HA HA HA HA!!!!

- Ô, Jadison, no meio da calçada?
- Que tem, patrão?
- Esse lugar também é seu. É de todo mundo.
- O senhor tá certo! 

E, com os pés, varre todos os papeizinhos desmilinguidos até a boca de lobo mais próxima. 

- Na primeira chuva, patrão, isso aqui vira enchente. E debaixo dágua, aposta comigo?, todo mundo vira merda! 
HA HA HA HA!!!! HA HA HA HA!!!!

Constato o lugar-comum: o homem pertence à rua, mas a rua não o pertence. É um velho intruso, ainda que nem seja tão velho. Começa a chover. As janelas da prefeitura se fecham às suas costas. 

Quando o céu pretejou e todo mundo sumiu, o Jadison escorreu. 

Foi assim. Perdi a oportunidade de contar a incrível história daquele sujeito que tinha nome e tudo -- mas se nome não tivesse, não teria mais nada.  

sábado, 31 de dezembro de 2016

CARTA DE ANO NOVO


Dona Ilaídes,

Me deixa te dar um abraço?
Sem câmera. Sem foto. Sem legenda.

A senhora só queria nos confortar, mas conseguiu bem mais do que isso. Foi de verdade, ao vivo, do fundo do seu coração. Justo a senhora. Enquanto esperava para enterrar seu filho, tristeza que não se mede, conseguiu estender as mãos a todos nós -- que vivemos de histórias, de voos, de asas. Viajadores, observadores, naquele momento contadores de incontáveis dores.

Com a voz abafada no ombro do meu amigo, a senhora disse que a gente também fez a carreira de todos aqueles meninos. Bondade sua. A gente só teve o privilégio de narra-las ou escreve-las. Danilo! Danilo!! Danilo!!! Danilo!!!! Sobre o gramado em que o seu menino virou homem, quase santo, a senhora nos concedeu o milagre de ser humana. Fez aquilo que ele sempre pulou pra evitar: um golaço.  

A senhora escolheu, ainda bem, um dos melhores abraços do mundo. Verdadeiro. Caloroso. Apertado. Acho até que nem foi por acaso; quem se aproxima do Guido logo percebe que ele transborda amor e boa energia. A senhora soube reconhecer aquele peito aberto e deixou a sua mensagem com pureza e com-paixão. Mais do que dividir conosco a solidariedade de mãe orfã, divina simplicidade, a senhora multiplicou a nossa esperança nos homens aqui de baixo.

Se eu pudesse escolher, 2017 seria feito apenas dessa porção de estrondosas delicadezas contidas no seu abraço.

Feliz Ano Novo, Dona Ilaídes