sábado, 23 de junho de 2018

DE PÉ, NEY

Não muito tempo atrás, discutir Neymar era como discutir política no facebook. Tínhamos duas opções: ama-lo ou odiá-lo. Como se tivéssemos, inclusive, obrigação de nos posicionarmos ou nutrirmos qualquer sentimento por ele. 

Discuti-lo, seu futebol e seu caráter (pra mim, coisas indissociáveis), era como escolher entre ser petralha ou ser coxinha. Mas a Copa do Mundo, por enquanto, ensaia o fim da polarização e do maniqueísmo. Porque quem antes só amava passa a pelo menos desconfiar; fazer ressalvas, quando não até críticas severas demais. Em parte, claro, porque Neymar ainda não tá jogando o que a gente espera dele -- e o torcedor, convenhamos, é passional. Mas não só. Estamos nos distanciando cada vez mais do nosso principal jogador. Neymar é craque, ponto, mas tão indiscutível quanto o seu futebol é o comportamento intragável dentro de campo (fora dele, é outra história). 

Se nos últimos tempos a gente adotou o discurso de que o brasileiro tá cansado da corrupção (opa! já?), não é exagero nenhum, de novo, estabelecer uma relação entre o debate político e a mesa redonda: o brasileiro também tá cansado da faltinha cavada, da preferência pelo pênalti em detrimento da tentativa de chegar ao gol; da simulação desmedida e desmentida por dezenas de câmeras. 

O flerte da malandragem com o futebol, especialmente no Brasil, rende ótimas dissertações acadêmicas, crônicas rodriguianas e filosofias de boteco. Mas o mundo tá mudando. O "jeitinho", cada vez mais, #nãopassará. E cadê o Neymar que não percebe essas coisas? Continua caindo. Gritando. Esperneando. Socando a bola no chão. E, quando não é atendido, não mede esforços pra agredir o árbitro verbalmente. O tanto que ele apanha não justifica o desequilíbrio emocional e o desrespeito. 

Quando desaba em choro, no fim do jogo, consciente ou inconscientemente busca um protagonismo que não teve com a bola nos pés. Chama a atenção pra si próprio, sozinho, quando esses 2 a 0 simbolizam o coletivo. A imagem não me comove. Porque, entre outras coisas, tenho a impressão de que não passa disso: imagem. Mídia. Ideia de que só ele sabe o que passou pra chegar até ali. É a pureza de um menino bom que extravasa emoções e carrega consigo o peso do mundo. É a imagem que contradiz o rapazinho mal-educado que, minutos antes, afrontava o árbitro estrangeiro em bom português: "Vai tomar no seu cu! Vai se foder". As lágrimas humanizam o herói. É a vitória da superação; a crença de que agora vai, de que ele precisava desse gol para se refazer craque bendito. 

Quando cai. Quando chora. Quando corta o cabelo. Até quando ri aquele riso sem graça (ha-ha). Nada parece de verdade, mesmo que muitas vezes seja. O Neymar-produto parece mais real que o Neymar-gente. Multiplica patrocinadores e sobrevoa a greve dos caminhoneiros de helicóptero, num mundo à parte, distante dos problemas de um país que ele julga representar. O argumento de que "ele é só um menino" não é sequer razoável. Neymar já teve tempo e estrada pra amadurecer -- e até minimizar a antipatia em torno da própria imagem (como fez Cristiano Ronaldo, por exemplo). Não parece interessado. Sempre que pode, aliás, adota o discurso reativo do nós-contra-eles, como se o universo inteiro estivesse ocupado em derruba-lo. É quando nosso camisa 10 joga na defesa. 

Discutir Neymar é discutir o Brasil e o brasileiro. Por isso mesmo, no fim das contas, a gente até imagina: o abismo entre ele e boa parte dos torcedores vai diminuir muito quando ele estiver de pé e, num drible desconcertante, encontrar o caminho do golaço improvável e decisivo. Dessas coisas que, ninguém duvida, ele faz de verdade. 



segunda-feira, 2 de abril de 2018

PÂMELA E A CORDA


Papai estacionou o carro em frente ao hospital. Eu tinha três anos -- e embora não soubesse exatamente o que significava aquilo ou pra que servia um hospital, minha primeira pergunta foi intuitiva: 

- Mamãe, eu vou tomar injeção?
- Não, meu amor, imagina, o médico só vai ver sua garganta. 

Acordei horas depois, sonolento e sem amígdalas. Elas nunca fizeram falta alguma e também não me lembro de sentir dor, de modo que não posso classificar esse episódio como um trauma na minha vida. Na última segunda-feira, contudo, vivi uma situação que me lembrou a delicadeza de mamãe ao driblar a inocência - e o medo - de uma criança. Só que as consequências, dessa vez, foram devastadoras. 

Disciplinado que sou, ajustava a velocidade da esteira na academia enquanto assistia a um programa de sobremesas no GNT. Trotinho de leve, aquece, corre sem exagero pra não forçar o joelho. Aquele ritmo de #projetoverão2030. Foi quando a Pâmela passou por ali, tive a impressão de que falou comigo, tirei os fones do ouvido.

- Thi! Vamos fazer uma aulinha hoje?
- Aulinha? F... Funcional?
- Nããão, calma. É super tranquilo.
- Não tenho preparo físico pra isso, hein!
- Tudo que cê ia fazer na musculação a gente faz nessa aulinha. 
- Então qual a vantagem de mudar? 
- Bobo! É muito mais rápido e queima o dobro de calorias!

O rostinho angelical e a voz mais doce que a sobremesa do programa não davam margem à possibilidade da Pâmela estar mentindo pra mim. Seria super tranquilo. 

- Beleza, Pam, vamos nessa!
- Legal! Vou juntar o pessoal e te chamo!

Alonguei os braços, me senti confiante e pronto a iniciar uma nova etapa na jornada contra o sobrepeso. Era a minha primeira vez naquele terreno pantanoso e ameaçador. Quando o restante do pessoal chegou, o abismo entre nós ficou evidente. Eu usava uma bermuda (velha) de praia e uma camiseta larga que ganhei de brinde nalgum jogo de vôlei. Todos os demais estavam paramentados com uniformes fitness, feitos com tecidos e costuras que aliam tecnologia para a respiração do corpo e tendências da moda. 

Mais angustiado que em dia de dançar na festa junina da escola, pensei em qualquer bom motivo que me tirasse dali. Um telefonema urgente. Um mau jeito nas costas. A reprise de Londrina e Volta Redonda na tevê! Mas era tarde demais. A Pâmela já tinha escolhido os exercícios do circuito.

Pelo papo dos outros, posudos e experientes, percebi que a melhor estratégia era começar pelos mais difíceis. Fiquei parado, aflito e completamente perdido enquanto eles  se posicionavam. 

- Sobrou o mais fácil, hein? Que moleza!

Foi assim que a Pâmela indicou minha primeira missão. Olhei pro canto vazio, disfarcei o pavor e limpei o pigarro antes de perguntar com bravura: 

- Por onde eu começo?

Ela apontou pro chão e, nesse gesto inofensivo, abriu uma cratera no quintal da minha dignidade. Era uma corda. Preta, não mais do que três metros, feita de plástico, quinze reais em qualquer loja de artigos esportivos. Era só uma corda. Caminhei passos indecisos, tentei me lembrar qual a última vez que eu tinha pulado corda na vida. Provavelmente antes de tirar as amígdalas. Talvez nem isso. 

A Pâmela já gritava, vamo vamo vamo vamo vamo!!!, e naquele segundo desperdicei minha última chance de parecer alguém razoavelmente normal. Com a corda na mãos, planejei mil possibilidades de fuga -- fiz a única coisa que não poderia ter feito jamais: tentei pular. 

Primeiro enroscou no pé, depois no peito, no ombro, no pescoço. Até que eu simplesmente não saí mais do lugar. Minha coordenação motora me deixou claro: ou você pula ou você faz a corda girar. Os dois, impossível. Transpirei mais naqueles breves segundos do que em todos os outros (poucos) dias em que frequentei a academia na vida. 

Quando minha instrutora percebeu, não disfarçou o constrangimento. 

- O que é isso?
- Que foi?

Tentei esbanjar naturalidade, até um ar meio blasé, mas impossível: meu fracasso era público e incontornável.

- O que tá acontecendo?
- Olha, Pam... eu... desculpa, acho que pular corda é um dom. 
- Thi...
- Ou você nasce com ele ou não, entendeu?
- Thi... 

Eu não me sentia daquele jeito desde a primeira série, quando fiz cocô na calça no meio da aula. Era um misto de culpa, fraqueza, impotência, humilhação. Um macaco deve saber pular corda (tive medo de googlar e descobrir que sim, eles sabem mesmo).

Olhei pro teto e vi a câmera ali, bem em cima da gente: aquilo tudo estava gravado. Imaginei a moça da recepção assistindo, chamando todo mundo pra ver também... e juntos eles soluçavam de tanto rir e pediam de novo, de novo, deixa a gente assistir de novo! Imaginei os dias seguintes, o resto da minha vida. 

A Pâmela tirou a corda da minha mão, cochichou "que vergonha", sugeriu que retomássemos o circuito. "O resto é mais fácil, cê vai ver!". Seguimos. Eu me olhava no espelho e me via fazendo exercícios que até então eu só conhecia pelo instagram dos outros. Senti dores em músculos de que eu jamais tivera notícia. Tive ânsia. Tontura. Falta de ar. Minha vista pretejou, mas me senti muito bem com tudo isso. A morte, àquela altura, era minha única chance de ir embora da academia com um final mais bonito. 

Sobrevivi, porém. Mais ou menos recomposto, decidi ter um papo definitivo com minha instrutora. 

- Olha, Pam, essa "aulinha"...
- Que tem?
- Nunca mais!
- Por quê?!
- Tô passando mal, sério. 
- Aff... 
- Achei que ia morrer...
- Que exagero!
- Talvez eu ainda morra. Tô zonzo.
- Sempre dramático, você!
- Exercício tem que te dar prazer, pô. 
- Claro, claro... 
- Tem que ser algo que a gente goste, senão... 
- Claro, Thi. 
- E tem outra...
- Diga.
- Corda, por favor, NUNCA MAIS. 
- HAHAHA. Vamos pensar numa alternativa!

Me senti aliviado. Retomaria gradualmente a dignidade, com o passar dos anos, talvez em décadas, mas era importante saber que aquilo tudo ficaria pra trás. Foi quando a Pâmela sugeriu:

- Que tal umas pedaladas?

Segurei a respiração. Uma gota gelada de suor voltou a passear pela testa. Pedaladas? Seria preciso, de novo, expor toda a minha debilidade e  acabar com o fiapo de reputação que ainda sobrava. Só que antes de me humilhar mais uma vez, de reconhecer que sou sujeito tosco e incompreensível, olhei pro lado e lembrei que não precisaria de rodinhas pra andar na bicicleta da academia. Ufa. Abri um sorriso largo e comemorei novos tempos. 

- Fechado, Pam! Até semana que vem!!


sexta-feira, 2 de março de 2018

O CORNO DO 82


O interfone começou a tocar e não parou mais. Já vai, gritei, impaciente, como se a outra pessoa pudesse me ouvir antes eu atendesse. Ainda molhado, me enrolei na toalha e saí respingando pela casa até chegar à cozinha.



- Oi?

- Seu Thiago?
- É ele.
- Boa tarde, é o Devanir. Da portaria. 
- Ô, Devanir, tudo bem?
- Seu Thiago, o rapaz aí vizinho ligou reclamando... 
- Como assim?
- Disse que seu chuveiro tá fazendo um barulho...
- Como assim, Devanir?
- Ele disse um barulho, assim...
- Estranho. Acabei de sair do banho, não ouvi nada.
- É, mas ele disse e...
- Barulho normal de chuveiro elétrico.
- É que ele pediu pra avisar...
- Tá bom, Devanir, obrigado.



Desliguei. Me vesti correndo, puto, porra, não se pode nem mais tomar um banho em paz, e saí de casa antes que eu perdesse o ônibus pro trabalho.


À noite, quando voltei, o Henrique abaixou o som da TV e me avisou que o Devanir tinha acabado de interfonar.




- De novo?!

- Ele já tinha falado contigo?
- Já. O corno do 82?
- Pois é. Barulho do chuveiro...
- Que mala, hein? 
- Mudou semana passada. Encrenqueiro, pelo jeito.
- Você ouviu o tal barulho?
- Ouvi nada. Cê ouviu?
- Nada também.



Seguimos, portanto, tomando banho normal e diariamente. De manhã, de tarde, de noite. Às vezes, de madrugada. Era desligar o chuveiro e ouvir o interfone. Ligou o Devanir. Ligou o Edmar. Ligou o Francisco. O João. O Antônio. Até o Beraldo, da jardinagem. 


Depois, com o tempo, ligou mais gente. O zelador. O síndico. O corretor da imobiliária. A administradora do prédio. O dono do apartamento. Todos repassavam a reclamação do vizinho novo. O barulho do nosso chuveiro estava acabando com a tranquilidade do condomínio. Ameaçaram multa. Suspensão do contrato de aluguel. Expulsão. Cadeia. 

A Casa Branca emitiu um comunicado oficial, sugeriu retaliação. A Bolsa de Xangai disparou. No Vaticano, o Papa saiu um dia à janela e pediu, em latim e depois português, que a paz entre os homens se firmasse com o conserto do chuveiro. No Brasil, os jornalões estampavam uma denúncia grave nas manchetes: o apartamento seria do Lula -- ou de um amigo do amigo dele. 

Até que um dia, eram seis da manhã e eu madrugava pra ir ao trabalho quando abri a porta e fui surpreendido por um sujeito desengonçado no hall do elevador. 

- Bom dia!
- Oi...
- Você é o Thiago?
- Sou eu.
- Bom dia, xará! Também me chamo Thiago!
- Opa.
- Somos vizinhos! Moro no 82!! 

Era ele, finalmente. Depois de todo apelo, resolveu montar tocaia pessoalmente na minha porta. Ficou à espreita sabe deus desde que horas, mas, repito, eram seis da manhã quando aquele sujeito até então sem nome e cheio de adjetivos me interpelou. 

- Desculpa, mas é que o chuveiro de vocês...
- Sim, o pessoal comentou. 
- Nem é por mim, viu, amigão, é pela minha esposa.
- Hum...
- Ela fica desesperada.
- Rapaz... 
- O barulho é muito, muito forte.
- A gente nem ouve... 
- Ela tá sofrendo muito. Bate o mau humor, sabe como é, acaba sobrando pra mim...
- Tudo bem. A gente vai ver. 

Peguei o elevador e fui embora. O mais irritante não era o horário nem toda a história desde o começo; era o jeito como o sujeito havia falado, a expressão alegre, excessivamente cordial, como se fosse ou quisesse ser meu amigo. Dissimulado, talvez. Cínico. Ou bobo, mesmo. 


Fato é que, pra evitar encontra-lo de novo na porta de casa às seis da manhã, falei com o Henrique e resolvemos chamar alguém pra fazer o conserto. 



O homem quebrou a parede. Puxou os fios. Verificou a resistência. Trocou o chuveiro. Reordenou o sistema hidráulico.  Mexeu em tudo. Por fim, espalmou as mãos e disse que estava resolvido. Seiscentos reais. 

Tão logo pagamos, corri tomar um banho a fim de perceber a diferença. Nada. Tudo estava exatamente igual. Aquele barulhinho típico de chuveiro elétrico... 

- E aí?, gritou o Henrique, ansioso do lado de fora.
- Mesma merda!
- Vamos ver se pelo menos eles param de reclamar. 

Naquela noite, eu já estava deitado quando a situação mudou. O barulho agora vinha do 82. Do outro lado da parede que dividia nossos quartos. Mas não era chuveiro. Não era secador, ar condicionado, máquina de lavar; não era nem um barulho tão desagradável assim. Era um orgasmo. E depois mais outro. Gemidos, sussurros, palavras impublicáveis. Antes de ficar excitado (quem nunca?), pensei, satisfeito, no bem enorme que havíamos feito aos vizinhos novos. Era a primeira vez que eu ouvia tantos sons daquela natureza desde a mudança deles. Estava claro: o chuveiro velho, barulhento, reprimia toda a libido e os fetiches de ambos. O chuveiro novo, por outro lado, era o desafogo; o chuveiro novo ia transformar o destino de um casal jovem e cheio de planos. Quem sabe até, naquele ritmo, a moça engravidasse logo, o apartamento ficasse pequeno pra toda família e eles fossem embora de lá.

Foram três noites intensas de sexo da melhor qualidade. Eu já começava a imaginar as posições diversas, o Kama Sutra aberto no criado-mudo, a sequência de frases sacanas e orgasmos múltiplos. Ambos refestelados na cama, fumando um charuto e pensando no quanto o barulho deles me fazia inveja. 

Era ainda cedo quando esbarrei com meu xará no elevador. Ousei dispensar qualquer discrição e elogiar a performance vigorosa dos últimos dias, mas ele se adiantou:

  - Thiagão, meu amigo!

- Opa...
- Tudo bem, vizinho?
- Tudo bem, rapaz. Agora pra todo mundo, né?
- Por quê?
- O chuveiro... 
- Vocês consertaram?! 

- Vai dizer que não percebeu?
- Não... é que... 
- Faz três dias.
- Poooxa! É que viajei a trabalho. 
- Oi?
- Estive fora nos últimos três dias. 
- Entendi. 
- O importante é que vou encontrar minha mulher feliz, então!
- Com certeza, amigo. Com certeza!

Trocamos um aperto de mão fraternal. Cada qual entrou no seu apartamento, ainda pude ouvi-lo girar a chave do outro lado e chamar pela esposa, amor, amorzi-nhô! Chamei o Henrique. Ele precisava saber. Gastamos uma grana com o conserto e o problema não era o chuveiro. 

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

QUINZE POR TRÊS

Depois de muitos anos, enfim, descobri o nome daquela mulher: Dona Jolinda. Descobri, não. Inventei. Achei a foto que ainda guardo comigo e tomei a liberdade de rebatiza-la. Dona Jolinda.

Era dezembro quando nos encontramos. Dezembro de 2012. Estávamos na frente de uma igreja no centro de São Paulo. Chovia fino, a cidade amanhecia de ressaca. No dia anterior, no Japão, o Corinthians havia vencido o Chelsea e conquistado o título mundial. A pauta tinha qualquer coisa a ver com velas para São Jorge, blá-blá-blá de futebol e religião. 

Ajustávamos a câmera quando ela apareceu. Parou diante de nós e ficou em silêncio. Trocamos um bom dia sonolento, sem muita atenção, e ela se pôs a dizer lorotas. É esquizofrênica, diagnosticou o meu colega. 

Era uma senhora de rua. Usava um gorro de lã, um casaco de botões todo esgarçado e um cobertor cinza sobre os ombros. Os pés, no entanto, passavam frio; calçavam chinelos menores, de criança, de modo que os calcanhares se arrastavam pela calçada.  

A mão esquerda servia para apoiar a bengala carcomida. A direita carregava uma sacola azul. Duas, na verdade, de plástico, uma dentro da outra. Era preciso aguentar o peso, porque ali dentro, soube logo depois, ela guardava uma vida inteira. 

Estava "fugida"do albergue público onde havia morado nos últimos meses. 

- Ninguém presta ali dentro, moço. Roubaram até minha dentadura. 

O movimento na igreja era fraco, não havia ninguém comprando velas ou pagando promessas pelo Corinthians -- e isso foi o bastante pra que eu desse mais atenção à velhinha andarilha. 

- Como a senhora se chama?
- Não sei. Acho que até isso também me roubaram.

A verdade poética e triste daquela mulher sem nome nos calou por alguns segundos. 

- E pra onde a senhora vai agora?
- Pra frente, moço. Pra ver onde vai dar. 

Os olhos opacos passearam por nós e pelos equipamentos que trazíamos conosco. Quase até brilharam quando ela reconheceu a marca estampada no microfone. 

- Vocês são da televisão?
- Somos repórteres. 

- E vocês são famosos?
- Longe disso, moça, imagina. 
- Mas são ricos?

Rimos.

- Vocês não têm dinheiro, não, moço?
- Nada, minha senhora.

Quando ensaiávamos um pedido de desculpas e tchau, até mais, muito prazer, ela pousou a sacola sobre o chão e esticou os braços com urgência, como se procurasse alguma coisa ali dentro. Fez sinal que esperássemos. Escarafunchou suas desimportâncias e desembrulhou um punhado de notas amassadas; era sua fortuna secreta, escondida para que também não roubassem. 

- Tenho quinze reais. Toma aqui, dá cinco pra cada um. 

Naquele momento, Dona Jolinda desafiou não apenas o nosso preconceito - mas a matemática: uma existência toda de subtrações e ela ainda não desaprendera a dividir. Se o mundo insistia em se recolher pra não alcança-la, ela estendia as mãos, fazia quinze por três de cabeça.  

- Vocês precisam tomar um café, pelo menos.
- A gente vai, sim, minha senhora. 
- Saco vazio, vocês sabem... 
- Verdade. Não para em pé...

Não aceitamos o dinheiro, claro -- e a Dona Jolinda, resignada, voltou a amassar as notas dentro do tesouro de plástico. Pra que não soasse desfeita nossa, pedi uma foto no lugar dos cinco reais. Ela não disse nada, mas entendi que aceitou quando percebi que, vaidosa, se ajeitava em pose. Apoiou a bengala sobre a sacola e cruzou os braços feito uma santa. Os olhinhos miúdos se voltaram pro chão. Porque não tinha dentes nem motivos, Dona Jolinda não sorriu.

Quando cheguei à redação, não tinha matéria alguma sobre as velas de São Jorge. Não encontramos nenhum corintiano pagando promessas, mas voltei pra casa cheio de fé -- tomado pelo sentimento difuso e piegas de que a humanidade deu certo. 

Não sei se a Dona Jolinda ainda vive, tampouco se conseguiu o milagre de transformar aquela sacola pesada numa cama confortável; se achou um par de sapatos pra aquecer os pezinhos cascudos; se continuou a fazer mágicas aritméticas e multiplicou as garças que planavam na palma daquelas mãos. Tomara que sim. Provável que não.  

De toda forma, sempre que eu vejo a foto, a ternura daquela imagem me deixa engasgado. 
É o olho da rua; ordinário, sublime, visceral. É a nossa estupidez repousando na beleza das pequenas coisas. 

Viva Dona Jolinda, poesia no meio da guerra. 

sábado, 30 de dezembro de 2017

CRÔNICA DE UM HOMEM APAIXONADO

POR GUILHERME FUOCO

Quando é pra ser não tem jeito. 

O cupido vem e dá frechada mesmo! Meu peito até fica parecendo uma tauba. Aquela de tiro, sabe? É “tiro ao Álvaro”, que fala né?

E aconteceu comigo há quase quatro anos. Foi na hora. Ela chegou num dia do nada e entrou em mim como se já tivesse sido minha há anos. Há décadas. Como o amor de Adoniran por Iracema! Conhece a história? Escuta “Iracema” e me fala.

E é companheira, fiel. Tão linda. Pode apagar o fogo, mané, essa é minha, minha saudosa! Mesmo, mesmo. Saudosa como a maloca dos demônios. Mas essa nunca será derrubada pelos homi cas ferramenta. Essa é firme.

Ela é honesta e me ajuda em tudo que preciso.

Outro dia fui jogar bola, né, e ela, adivinhe só, foi comigo! Dorme comigo sempre. Ela não tem vaidade, ela é que é de verdade. Me acolhe e esquenta. Num fim de semana qualquer levei a linda no meu trabalho. Todos adoraram, foi sucesso total. 

Quando eu tô no samba com ela, então... Vish, não param de olhar pra mim! Sem ciúmes, de boa, ela e o samba parecem feitos para viverem juntos. Seria nosso triângulo amoroso? A gente aceita.

Eu engordei, admito. Mas ela me aceita. Ela me quer do jeito que eu tô. Gordo ou magro. 

E a prova do amor aconteceu hoje, às seis da matina. Não foi em Jaçanã, foi no Limão mesmo. Fui tomar banho e esqueci a toalha. Minha noiva dormia e eu não ia acordá-la. Mas, olha só! Quem tava lá? Ela! Ela é gigante! Tamanho G de Guilherme. Ou GG de Guilherme George. Nome que ainda tem mais um G, se eu quiser comer mais. E ela me acompanhará nisso, tenho certeza. Pois bem! Me enxuguei com ela e fui trabalhar sequinho e com a certeza de que não posso ficar nem mais um minuto sem minha bela camiseta dos Demônios da Garoa.



sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

MANUAL DIDÁTICO DOS AVIÕES

Há quem reze, quem leia, quem ronque. Uns têm pavor, outros, fascinação. Mas, no fundo, são todos iguais.

Voar, pra uns, é um ato de coragem. Pra outros, corriqueiro, tosco, banal. Voar, pra todo mundo, é uma aula de antropologia.

Tudo começa assim: só é permitido reclinar a poltrona DEPOIS que o avião decolar e DEPOIS que os avisos luminosos se apagarem. As recomendações são claras, repetitivas e muito simples. Não custa nada respeita-las. Três centímetros não alteram tanto assim o padrão de (des)conforto ali dentro. Além do mais, ninguém é mais esperto nem merece se beneficiar desse luxo antes dos outros. Mas em todos, absolutamente TODOS os voos do mundo (ou do Brasil?) acontece a mesma coisa: o sujeito reclina antes da hora, vira a cabeça, fecha os olhos e depois finge que não é com ele.

- Senhor.... Senhor? .... Senhor! A poltrona, por favor, volte à posição normal. Vamos decolar.

O cara fica puto. Quando a aeromoça vira as costas, numa demonstração de virilidade e poder, ele reclina de novo.

- Senhor, por gentileza....

Tem outra coisa. O serviço de bordo das companhias aéreas no Brasil é vergonhoso. Miserável. Constrangedor. MAS... quando a aeromoça te pergunta se você quer snack doce OU salgado, qual a dúvida? É um OU outro. Evite responder “os dois” com aquela cara de ódio e arrogância. Se você se sente no direito de pegar o doce E o salgado, beleza, é legítimo ... mas sinta-se também no dever de perguntar com educação sobre essa possibilidade.

Depois, quando o avião pousar, mantenha-se tranquilamente sentado na sua poltrona e espere que... Não, esquece. Essa não vai adiantar. Então, se todo mundo vai levantar mesmo, ainda há esperança e sugestões em relação a comportamentos adjacentes.

Sentar na janelinha, por exemplo, é bacana. São os primeiros assentos escolhidos. Você tem uma visão privilegiada da paisagem, tira um monte de foto, faz stories das nuvens, apoia a cabeça e dorme um pouquinho (bem pouquinho) melhor. MAS... na hora de desembarcar, você tem que ESPERAR o pessoal que sentou no meio e no corredor. Só depois que eles saírem é que chegou sua vez. Combinado?

E antes de tirar sua mala do bagageiro, verifique se HÁ ESPAÇO pra isso. O risco de esbarra-la na cabeça de outro passageiro é grande. Mesmo que ele seja um sujeito igualmente idiota por estar tão apressado em sair quanto você, não é legal machucar o amiguinho.

Por último e mais importante: “ah, tá todo mundo se comportando que nem bicho, mesmo, então foda-se, vou peidar”. Não. Para. Pensa melhor. Tá todo mundo junto, irmão, de mãos dadas nesse projeto incipiente e nem tão promissor chamado sociedade. Tá todo mundo se espremendo enquanto as portas não abrem, o sistema de ventilação já foi desligado, há mais de uma centena de pulmões respirando fundo à espera da liberdade; o pessoal tá impaciente, ansioso, com calor... um peido agora pode provocar uma guerra civil. Um peido agora é covarde, é canalha, é egoísta (quem faz geralmente não sente); um peido agora, por favor, não... 

Putaquipariu. Abram as portas! Cagaram no mundo!!

sábado, 23 de setembro de 2017

SOBRANCELHAS

É uma sexta-feira incomum. 

Deixamos o trabalho, estamos de folga no fim de semana, ambos cheios de vigor, hipnotizados pela miragem da vida pessoal. O mundo, enfim, se descortina diante de nós. 

Quase sempre trabalhamos até mais tarde, quase sempre trabalhamos aos sábados e domingos, quase nunca temos uma noite de sexta-feira assim, a sós, em que se derramam raras e infinitas possibilidades .

Podemos ir ao cinema. Podemos sair pra jantar. Tem aquele rodízio japonês que a gente adora. Aquele italiano novo perto de casa. O bistrô, hmmm, aquela mezzaluna incomparável. Cinema e depois jantar. Jantar e depois cinema.  

De repente, podemos pegar a estrada e encontrar os amigos no interior. Curtir uma praia naquela pousadinha à beira-mar, por que não? Reservar uma cabana nas montanhas... 

Podemos encher a cara de vinho, de poesia, de virtude. Aproveitar a ausência das crianças e acender aquele restinho de baseado escondido há meses na gaveta do criado-mudo. Fazer amor na varanda enquanto o prédio novo ali na frente não fica pronto.  

Podemos tudo. Qualquer coisa. Temos um casamento no dia seguinte, mas e daí? Podemos mudar os planos à mercê dessa liberdade explícita, vadia e generosa.
  
Deixo que ela decida nosso destino desta sexta-feira incomum -- menos por cavalheirismo e mais porque não tenho maturidade pra tomar decisões em momentos assim, de expectativa quase infantil. 

Ela entra no carro. Bate a porta, eufórica, e anuncia a sexta-feira que desenhou pra nós. Que mulher. Depois de tantos anos, ainda é capaz de me surpreender:

- Marquei salão, amor. 
- Oi?
- É aqui pertinho, precisamos correr.
- Qu... Que salão?
- Salão, ué. De beleza. 
- Mas você não foi ao salão anteontem?!
- Pra fazer pé e mão.
- Então!
- Hoje é sombrancelha, amor.  
- Eu não acred..
- PRE-CI-SO fazer minha sombrancelha
- C..
- Não posso ir assim horrorosa ao casamento do seu primo!


Passo o crachá na portaria do estacionamento. Deixamos a empresa. Já penso no trabalho com saudades. 

Não.
Não. Não.
Tudo tem limites.

Salão de beleza? Numa sexta à noite? 
Não foi isso que eu escolhi pra minha vida.

É o momento de me impor, de mostrar que eu não aceito essa ideia em hipótese alguma. Não existe a menor chance de perdermos a noite por causa de uma vaidade egoísta. 

Respiro fundo e escolho as palavras que digam tudo isso de uma forma pacífica. 

- Tá bom. Tudo bem. Vamos.
- Melhor homem do mundo!, ela me beija. 
- Mas olha... tem uma coisa.
- Hum?
- Até meio chato dizer, mas...
- Pode falar.
- É SO-brancelha. SÔ!
- Como assim? O que eu falei?
- SOM-brancelha. Sempre fala.
- Tá. Entendi. 
- SO-brancelha. De sobrolhos. Sobre os olhos. Faz sentido?
- Sim!


Ela me beija, dane-se o português.

- Melhor homem do mundo!
- Hm. Qual é o endereço do salão? 

É um ato de bravura, resiliência, companheirismo. 
Uma prova irrefutável de amor. 
Uma atitude que vai estabelecer um novo patamar na relação.

Dirijo em silêncio, mas inconformado. Ameaço resmungar, me contenho. 

Mas por que as pessoas fazem sobrancelhas? Quem é que repara nesse tipo de coisa? Nunca, nunca olhei pras minhas. Nem pras dela. Nem pras de ninguém. À exceção das sobrancelhas da Frida Kahlo, famosas no carnaval, todas as outras são iguais -- ou, vá lá, quase iguais. 

Quem é que percebe qualquer mudança entre umas e outras? Aliás, como se faz uma sobrancelha? Corta? Passa tinta? Produto químico? Delineador? Como vivem, o que pensam os seres humanos que fazem sobrancelhas?

Não verbalizo, claro. Seria inútil. Provocaria estragos. E, em última instância, qualquer dúvida legítima seria taxada como rabugice e rebatida com outra pergunta: "Você não quer uma mulher bonita ao seu lado?". 

Chegamos ao salão. O maquiador nos recebe com sorriso, abraço, oferece um cappuccino. Logo é a vez da minha mulher. Ela se acomoda numa cadeira de modo que o rosto fique inclinado para este serviço que, se não vai mudar a cotação do dólar, vai decerto causar prejuízos ao nosso orçamento familiar no final do mês. Fico sentado ali perto, feito o melhor homem do mundo, dando um tchauzinho e uma piscadela pelo espelho de vez em quando. 

Abro um livro pra que o tempo passe mais rápido. Leio duas, três páginas. Desisto quando ouço o papo do maquiador. Ele não consegue prestar atenção no jornal "quando aquela moça bonita apresenta". 

- DI-VA. Que sobrancelhas são aquelas?! MA-RA-VI-LHO-SAS!

Peraí. Como assim? 
Estiagem. Atentado. Propina. Míssil. Furacão. Massacre. Terremoto. PMDB. O mundo assim, vítima de tantas tragédias, e ele só consegue prestar atenção naqueles fiozinhos inofensivos e indefesos? 

Bebo o último gole de cappuccino enquanto ele desfila conhecimento sobre as variações de formato, espessura e artificialidade das sobrancelhas. Dizem que elas são a moldura dos olhos, mas acho que são apenas a fronteira da testa. Percebo minha ignorância, encolho-me na poltrona de espera e finjo que estou entretido no livro. Homem feliz, aquele maquiador. "Quando aquela moça bonita apresenta o jornal", ele nem percebe que o Temer ainda é o presidente.   

Depois de, sei lá, uns seis meses, minha mulher se levanta.

- Tá pronto, amor! Foi rapidinho, não?
- Foi. Rapidinho.
- E aí? O que achou?
- Do quê?
- Das sombrancelhas, amor!
- Lindas. Lindas.

Voltamos pra casa. Descasco uma banana, me jogo no sofá e ligo a televisão. Vai começar a mesa-redonda, hora de saber tudo sobre a rodada da Série B. 

Minha noite, outrora promissora, de repente é prosaica e melancólica. Espicho o olho pelo corredor e vejo minha mulher se olhando no espelho do lavabo. 

- Não ficou lindo, amor?

Olhei. Olhei. Olhei.

Não vi diferença alguma, embora eu tenha dito, mais uma vez, lindas, lindas. 

Impossível não perceber, contudo, os olhos que brilhavam logo abaixo das molduras. Foi assim que finalmente encontrei a magia daquela sexta-feira: minha mulher estava feliz com as sombrancelhas novas. E dane-se o português.