quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Amigo secreto

Consideram-me, não sem alguma razão, rabugento daqueles incorrigíveis. “Crespo, tome cuidado, você está ficando ranzinza demais”, alertam-me alguns dos amigos mais próximos. Preocupo-me. Será mesmo verdade? Não sei, mas, falando em amigos, este final de ano evoca-me questão antiga e perturbadora: há coisa mais idiota que o tradicional amigo-secreto?

Não quero estragar o prazer de ninguém, não, mas convenhamos: é preciso acabar com esse tipo de confraternização fajuta, com essa bobagem disfarçada de alegria, surpresa e comoção ao mesmo tempo. Se o Natal já é estúpido por si só, o amigo-secreto é o seu apêndice prestes a estuporar. Digno de náuseas e todos os tipos de desconforto. Não dá certo, não adianta. Qual é o sentido, afinal, do amigo-secreto? Por que uma amizade deve ser sigilosa? Parece-me, isto sim, expressão perspicaz inventada para minimizar despudores e deturpada ao longo do tempo, conforme conveniência dos festejos comerciais. Na acepção correta, porém, seria assim: o Gontijo é o amigo secreto do Renan. O Marcos Valério, dos partidos espertalhões. O Ricardão, da mulher do corno. E por aí vai...

Seja como for, quando pequeno, confesso, adorava e aguardava com ansiedade incontida o amigo-secreto lá de casa. Sobretudo, talvez, porque não participava dele – as crianças tinham direito a ganhar presentes de todos e só participariam do grande evento quando fossem adultas e ganhassem o próprio dinheiro. Por alguns males que vieram para este bem, não há mais amigo-secreto na família. Mas não importa: que eu gostava, ah, eu gostava. Eu e meu irmão nos sentíamos importantes porque todos nos confiavam os nomes de seus papeizinhos, sob a condição óbvia e desafiadora de mantermos segredo até o dia da troca de presentes. Hoje, pensando bem, não tinha graça nenhuma assistir todo ano às mesmas coisas: os amigos que já se haviam desvendado antes e fingiam ali estar surpresos ao ganhar um presente que eles próprios haviam escolhido; os tios que, metidos a espertos, descreviam a pessoa oculta com as características inversas, como “o meu amigo secreto é mulher, baixinha, cabeluda e”... era óbvio que se tratava do primo alto e careca; e, entre tantas outras gracinhas repetidas à exaustão, tinha também o episódio daquele que sorteava a sogra e contava uma piada inédita e muito engraçada, do tipo “se sogra fosse bom, a gente não teria só uma”. A grande verdade, porém, é que, pelo menos na hora, todo mundo se divertia. Até eu.

Lembro-me também quando, mais tarde, nos meados da faculdade, classifiquei como "hipócrita" o amigo-secreto da turma a alguns minutos de seu início. Fui repreendido com veemência que me fez, por algum tempo, acreditar que eu estava sendo duro demais com o pessoal. Quase fui agredido. Estraguei a festa, mas revelei-me um profeta: hoje, menos de um ano depois da formatura, não é segredo pra ninguém que metade da classe não se atura e não faz a mínima questão de se encontrar para lembrar dos bons tempos passados. A outra metade não se conhece.

Memórias à parte, dediquemo-nos aos detalhes da celebração em si: de uma hora pra outra, você se vê diante de um monte de gente – tão constrangida quanto você por estar ali, improvisa um discursinho sem graça e, enquanto isso, todo mundo te olha e pensa “fala logo, babaca, eu tenho mais o que fazer”. Ou nem todo mundo: quem já ficou livre e está com o presente em mãos, por sua vez, sequer nota o prosseguimento daquele encontro inesquecível. Vale dizer: quanto mais você tenta ser engraçado, menos você consegue. É inevitável. Mas não se importe; não há saída alguma. Simplesmente não há como proceder em situação de amigo-secreto de um jeito que não seja o mais tosco possível.

Além de tudo disso, é lei: ou você vai dar ou vai receber o presente de alguém que não gosta. E não minta, você não gosta de todo mundo. Se conseguir passar por essa (eu duvido, mas vá lá), atenção, é inescapável: o presente será um problema. Para dar e para receber. É a pior parte da história, por incrível que pareça. Nunca ganhei algo legal num amigo-secreto, à exceção de uma bola do Corinthians que furou na lança do portão de casa dois chutes depois do início de sua partida de estréia. Desconfio que talvez seja esse o meu trauma, mas é fato que, se dar presente já é difícil, dar presente de amigo-secreto é impossível -- principalmente quando o preço-limite é R$15,00.


Outras situações inexplicáveis são aquelas em que ninguém é amigo, mas todos fazem questão de realizar um amigo-secreto, como aqueles de empresa ou, pior ainda, os de excursão. Neste último caso, às vezes o amigo é tão secreto, mas tão secreto, que você realmente nem o conhece. Faz parte da integração forjada a que todos somos submetidos nessas viagens guiadas por estagiários de acampamento de férias. Não dá certo, não adianta.

Nem é prepotência minha, mas aposto um presente de R$15,00 que você se enxergou em algum momento desta reflexão. Não precisa contar, guarde pra você. Mas sugiro que aproveite este momento, enquanto ainda há chance para desistência, e... DESISTA. Diga aos outros que você estava tão animado(a) com o clima da brincadeira que, para ninguém desvendar o mistério antes da hora, você engoliu o seu papelzinho e acabou esquecendo o nome do seu felizardo. Você acabará com tudo e, portanto, prestará um bem coletivo.

Se um dia, aliás, eu for o seu tal amigo secreto, não se revele em hipótese alguma. Nunca. Guarde pra você. Fique com o papelzinho e com o presente, mas não seja idiota.

Conselho de amigo.

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

O silêncio de Sérgio

*Entrevista com Sérgio Guilherme Filho, ex-vocalista do Gram



Depois de muitos dias de silêncio e de poucos minutos do horário finalmente combinado, o repórter disca a combinação de treze números com alguma apreensão. A ansiedade é tão grande que talvez esteja preferindo que ninguém atenda. Assim pode se preparar melhor. Pura covardia de iniciante, contudo. Está mais uma vez cobrando a si mesmo para que não deixe transparecer a condição de fã decepcionado, quando a voz imediatamente reconhecida do outro lado da linha diz um “alô” típico de quem também já sabe quem é. Sua primeira preocupação é perguntar se o outro pode falar, se realmente não está ocupado, ao que recebe a sincera sugestão que ligue novamente dali a mais ou menos meia hora. Ótimo, ganha tempo, enxuga o discreto suor na testa e até arrisca novas possíveis perguntas. Quando, às 21h50, tenta mais uma vez, basta que o telefone toque por três vezes para que ele comece a reordenar as cinzas do ídolo até então quieto. E, não se sabe se num passe de mágica ou não, dá-lhe vida de novo.


Vamos começar pelo fim. Recentemente você disse que “não estava contente com o rumo das coisas”. Quais coisas?

Quando me refiro ao rumo das coisas, falo do cenário musical. Eu não estava me sentindo seguro com o que estava acontecendo e, por outro lado, algumas coisas caminhavam no sentido oposto para mim. Eu criei muita expectativa, estava muito cansado e isso não estava me fazendo bem. É uma somatória de coisas, na verdade, mas o principal mesmo foi a saída do Riba [Luiz Ribalta, guitarrista que havia deixado o Gram há pouco tempo por questões familiares]. Ele era o centro, era um cara muito racional, enquanto nós quatro [Sérgio, Marco, Falvo e Pagotto] éramos muito emocionais. Então, ele era importante para equilibrar a banda. Claro que eu não fiquei chateado com ele... nós éramos muitos amigos desde antes da banda, gostávamos das mesmas músicas, foi ele quem quis montar o Mosva [grupo que precedeu o Gram, quase de mesma formação], estávamos juntos desde a primeira composição, etc. Então, pra mim, foi foda, sabe? Apesar de achar que no palco a coisa funcionou em quatro, na hora das decisões ele ia fazer muita falta. Quanto ao cenário musical, está difícil pra todo mundo, não é uma desculpa... mas é uma coisa que ajudou. Além de tudo, foi muito importante o fato de eu ter recebido uma proposta de uma ótima agência [a DM9, gigante do ramo publicitário], com a qual eu sonhava desde adolescente, quando prestei Publicidade e Propaganda. A oportunidade apareceu e, quando entro em alguma coisa, eu me dedico 100%. Foi assim com o Gram e está sendo assim com a DM9. Daria pra continuar com a banda? Daria, mas eu não sou um cara organizado o bastante para conseguir dividir meu tempo com duas coisas que, para mim, são prioridades. Eu não conseguiria levar o Gram como hobby. Eu gostava daquilo, eu me envolvia... o resto é besteira. É difícil mesmo fazer sucesso... eu também não me dou bem com crítica, fico mal, mas são coisas pelas quais todo músico passa, né?

Então podemos dizer que houve um processo de desgaste durante todo esse período, desde a saída do Ribalta, principalmente? Não foi algo tão repentino como pode ter parecido aos fãs num primeiro momento?

Não, não. Demorou, cara. Foram pelo menos seis meses de muito desgaste, muita emoção. A gente chorava, discutia... ficamos com os nervos à flor da pele. Estávamos confiantes no trabalho, havíamos acabado de lançar o disco [Seu Minuto Meu Segundo, álbum número dois do Gram]. Quando o Riba saiu, eu senti vontade de sair na hora. Eu falei uma vez, em uma reunião: “Se o Riba sair, pra mim não vai ser a mesma coisa”. Sem qualquer um já seria diferente, mas sem o Riba... porque ele era um cara que tinha uma função que nenhum de nós quatro tinha, que era essa coisa centrada. E aí, lógico, eu tentei até em quatro... mas quando surgiu essa oportunidade da DM9 e eu vi que não ia dar conta das duas coisas... a DM9 estava sendo financeiramente legal e artisticamente interessante também. Eu adoro desenhar também, e lá eu estou aprendendo muito.

De alguma maneira, você acha que faltou alguma coisa ao Gram?


Não. [Faz rápido silêncio] Acho que faltou um pouquinho mais de tempo. Era uma questão de tempo. Mais um ou dois anos e a gente ia começar a ter mais nome, assim como eu acredito que a gente ainda vai ficar muito tempo na história. Fizemos tudo tão bem feitinho... até hoje o Seu Minuto Meu Segundo é o disco que eu mais escuto. No meu casamento tocou o instrumental de “Você Tem”... porra, a melodia é fodida, funcionou muito bem. Não deu tempo de o Gram florescer, a vida é assim. Eu tive que tomar várias decisões assim na minha vida, mas estou aqui, firme. Tive que parar faculdade já, mudei de ramo duas ou três vezes. Essa é só mais uma das vezes.

E como ficou o contrato com a gravadora?

Todo ano, em junho ou julho, a gravadora decide se vai ficar mais um ano com a banda. Se passar de uma data desta época (que eu não me lembro ao certo), se a gravadora não falar nada ela é obrigada a gravar um disco com a banda. Quando chegou em maio, eu anunciei minha saída aos outros integrantes, e a gravadora, lógico, ficou sabendo. Então eles rescindiram porque acharam que não ia mais ser legal. Eu achei até que deveriam ter continuado, mas não quiseram, até porque ia mudar o nome.

Então esse projeto paralelo que eles estão anunciando já não tem mais ligação com o contrato do Gram com a Deckdisc?

Não. A gente rescindiu o contrato.

Por que você optou pelo silêncio desde o anúncio do fim da banda até aqui?

Primeiro eu queria pensar um pouquinho pra ver exatamente o que falar. Eu também estava confuso. No momento em que eu decidi, eu sentia que eu tinha que parar, mas não sabia muito bem dizer por quê. Aí precisei de um tempo pra organizar minha vida, pra pensar direitinho em quais eram realmente as razões. Eu cheguei ao ponto de... eu ODEIO avião. Com a crise aérea, eu estava com mais medo ainda. Eu cheguei ao ponto de achar que era por isso! Eu não estava mais querendo viajar. Você não percebeu que começamos a tocar só em São Paulo? Eu falei “não vou mais pegar avião”. A gente foi pra Minas de carro, pra se ter idéia.

Vocês negaram propostas por causa disso?

Pra caramba. Tínhamos proposta do Nordeste, Belém.. então achei até que fosse por causa disso, mas na verdade eu estava muito confuso, querendo parar pra pensar. Eu não estava com gás pra tocar, já estava trabalhando na DM9, não estava querendo faltar. Os caras me abriram as portas, me receberam muito bem na agência. Tudo isso conta, cara. É estranho falar. Muitas pessoas me dizem “Porra, você saiu de uma banda que estava dando certo, que era legal, pra ficar numa agência?!”, mas não é assim... é uma PUTA agência, pô! As pessoas lá me deram muito trabalho legal pra fazer. A decisão foi difícil, não foi da noite pro dia. Eu demorei meses pra falar pra eles [os outros integrantes do Gram], desde o momento em que eu senti que não estava mais afim. Fui falando aos poucos, falando que estava triste, que não estava me sentindo bem, fui tentando me abrir com todos eles.

E como eles reagiram a isso? Houve ressentimento?

Não, cara. Eles ficaram tristes, né? De certa forma, eu era o pilhado da banda. Eu gostava de ir lá, jogar eles pra cima, trazer música nova o tempo todo. Gravava tudo no ensaio e já mandava pra eles no mesmo dia. Eu assumi uma função muito importante que, de certa forma, deixaria uma lacuna pra eles que ia ser difícil de ser completada tão rapidamente. Então é lógico que eles estranharam... “pô, o cara que mais gostava da coisa vai sair, pô, então fodeu”. Foi um choque pra eles, mas eu acho que eles entenderam. O Marco também está trabalhando em uma agência ligada à DM9, então a gente estava se vendo quase todos os dias. E ele mesmo entendeu, embora no começo tenha sido difícil. Ele percebeu que eu não estava brincando, que eu estava com um pepino na minha mão e eu tinha que resolver. E eu resolvi, né, fazer o quê?

Você tem acompanhado as mensagens dos fãs desde o fim da banda? Tem recebido muitos e-mails?

Eu olhei, sim, com certeza. Também vi todas as entrevistas deles [dos outros integrantes do Gram], queria ver se tinha coerência, se não iam falar nada de errado... mas foi tudo certinho. Em relação às mensagens dos fãs, me dava uma vontade de responder às pessoas que diziam “pô, e ele não fala nada?”. Não era hora. Agora eu estou mais consciente, eu sei o porquê de ter feito isso, então está mais fácil de expressar o que foi.

Muitos chegaram a dizer que era falta de consideração, que você sequer havia dado satisfações e que, quando foi receber o prêmio da Pitty no VMB, também não disse nada...

Ali não tinha como falar sobre isso. Foi um trabalho totalmente paralelo, o que eu podia fazer era agradecer as pessoas envolvidas naquele trabalho... não tinha nada a ver.

Já surgiram propostas para novos clipes?

O cara do Mukeka di Rato [conjunto-revelação do Espírito Santo] sentou do meu lado no VMB e falou que estava afim de fazer um clipe em animação e tinha até comentado com o Rafael [Ramos, produtor da Deckdisc] de passar pra eu fazer. Mas só. Eu acho que seria legal fazer um clipe do Cachorro Grande, pois é uma banda que eu gosto muito. Mas também não sei se vai dar tempo. É a mesma história: se eu tenho que parar pra fazer alguma coisa aqui em casa, eu preciso de tempo e dedicação. Se eu tiver umas férias, não for viajar e a proposta for boa, eu faço. Agora eu estou direcionando melhor as minhas coisas. Antigamente eu era muito “pela arte”, assim... hoje em dia tenho que me preocupar também com o que estou recebendo; tenho 33 anos, sou um adulto, tenho responsabilidades. Mas quem sabe também não faço algo para esse projeto novo deles [ex-integrantes do Gram]?


Você disse que está sem tempo para a música. Existe vontade, porém?

Vontade eu tenho todos os dias. Pego o meu violãozinho aqui em casa e toco, pego meu piano. Sempre toco alguma coisa.

Mas tem composto coisas novas?

Não. Compor exige muito de mim, muita dedicação. Eu demoro muito pra compor. Apesar de ter feito “Você Pode Ir Na Janela” em quinze minutos, no dia em que o negócio brilhou e saiu... foi antes de ir pro ensaio. Voltei do trabalho, fiz, levei pro ensaio e pronto! Mas ela saiu rápida porque eu já vinha trabalhando em outras coisas durante meses, já vinha tentando fazer uma música que fosse muito emocionante. É como um escritor ou vocês jornalistas: escrevem, escrevem, escrevem, pensam em temas diferentes e um dia você senta e faz em dois minutos, fala “Nossa! É isso!”. E eu não tenho tido tempo de ficar aqui sentado cinco horas, que era o que eu geralmente ficava, depois almoçava e ficava mais oito, só sentado no piano tentando fazer alguma coisa. Aí, de um dia pro outro... “Parte de Mim” também saiu em meia hora; “Tem Cor” também saiu muito rápido, porque eu fiquei dias tentando fazer alguma coisa... um dia sai, né? Mas não tem jeito, eu gosto de sentar e tocar, minha esposa também gosta de ouvir, pede pra eu tocar. Tem que ter um público, né? [risos].

Se você quiser, ainda tem um público bem maior...

[risos] Por enquanto não dá. Acho que estou até enferrujado, não daria nem pra querer encarar um palco. Mas eu não digo “nunca”... é uma palavra que não existe. Eu gosto muito de música, gosto muito de desenho e eu tenho as minhas responsabilidades. Se um dia pintar uma brecha, eu posso voltar a fazer alguma coisa, mas agora não passa nem perto. Gostaria de fazer as duas coisas, mas só se houvesse 48 horas por dia... 24 só não dá.

A trajetória foi relativamente curta, mas também foi intensa, como você mesmo disse...

Eu acho que sim. Apesar de não ser tão famoso. Esse clipe que eu ganhei com a Pitty nasceu daí, do gatinho...

A marca ficou. Há algum momento especifico dessa trajetória que você levará sempre como imagem da banda?

Há muitos. A gravação do DVD [MTV Apresenta Gram] é muito especial, assim como o dia em que o Rafael Ramos ligou pra nos contratar e aqueles shows no Nordeste também... Salvador, a Casa do Frevo. Esses dois shows, o DVD e o dia em que o Rafa ligou foram muito importantes. São os meus momentos favoritos, de todos os que estão guardados comigo.

**Veja o clipe do gatinho ("Você Poder Ir Na Janela")

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Segurança Pública: ricos, pobres e super-heróis

Não consegui. Sinto-me sumariamente derrotado pelo discurso de Huck. Ou, pior ainda, pelo eco de seu discurso. Desde que ele, o incrível, publicou notório artigo na Folha de S. Paulo, há cerca de quinze dias, em protesto à – falta de – segurança pública na capital paulista, não se fala em outra coisa. Cansei (opa, também não queria falar sobre isso, mas todo mundo já se esqueceu ou se cansou do Cansei, mesmo...). Desta vez, porém, a repercussão atinge ainda diariamente níveis desproporcionais. Foi como se ele tivesse, de fato, morrido, como esperneou no início do texto, ou como se nunca se tivesse discutido a violência urbana no Brasil. Foi como se seu discurso mimado e retrógrado tivesse nos despertado para a luz de um problema até então inédito: “Meu Deus, isso é inimaginável! Um assalto em plena Renato Paes de Barros? Uma arma na cabeça?? Não, não pode ser, ora pois, isso não existe!”. Desta maneira se comporta parte da população e da mídia que ecoa o tal discurso do qual também somos vítimas; para além dos assaltos à mão armada à luz do sol, somos reféns ainda de um pensamento mesquinho que não chega a ser novidade, mas que nem por isso deixa de continuar surpreendendo.

No domingo cedo, 14/10, folheando o mesmo jornal que estampou o protesto de Huck, deparo-me com a manchete “Ricos reclamam mais da violência do que os pobres”. Pensei em não ler. Pensei em desistir do jornalismo, da vida, em reclamar, sei lá. Mas, com o perdão do trocadilho, não dava pra não ler. A reportagem se embasava em pesquisa feita através de números do IBGE que denotavam justamente isso: “em famílias com nível de gasto maior, foi maior o percentual de pessoas que reclamaram de problemas de violência ou vandalismo em sua área de residência”. Havia, por outro lado, o balanço, também fundamentado em números, de que a “percepção do morador não reflete necessariamente as reais condições de moradia do bairro em que vive”. Para tanto, o texto começava com a história de uma moradora da Lagoa, bairro nobre da zona sul do Rio, que resolvera, há alguns anos, iniciar um movimento de protesto após ter ouvido, de sua cobertura, som de tiros na Rocinha, favela próxima ao seu prédio de luxo. Talvez não por acaso, a matéria também terminava com a mesma personagem, cheia de propriedade, insuflando-se: “Da mesma maneira como fizeram com o Luciano Huck, me diziam que, por ser da elite, eu deveria calar a boca. É como se dissessem que a culpa pela violência é minha e que, por isso, eu deveria ficar engessada. Isso não faz sentido”. Talvez não por acaso, o repórter responsável (?) pela notícia não ouviu nenhum “pobre”. No recheio de seu texto, contudo, deu voz, sim, ao gerente da pesquisa que lhe garantira o título da matéria. A conclusão a que este chegou foi que “as pessoas de maior renda e escolaridade, por terem mais conhecimento ou pagarem mais impostos, têm nível de exigência maior”. Em minha dificuldade terrível de compreensão, quase entendi que ele quis dizer que os “ricos” são mais inteligentes e têm mais direitos sobre os “pobres” e, por isso, natural e obrigatoriamente, são mais “exigentes”. Noutra brilhante e não menos sarcástica conclusão, um especialista (!) no assunto acrescentava (?) o fato de “a população mais rica se sentir mais alvo em potencial da violência por possuírem mais ativos”.

Mesmo que eu e meu pai estejamos desempregados e minha mãe seja professora de colégio público, não há coragem para outra alternativa senão a de nos considerarmos privilegiados: tenho ensino superior completo (desde o início em escolas particulares), internet banda larga e um poodle que usa lacinhos e faz cocô onde bem entende pela casa. Coisas de um “rico” daquela reportagem. Não sou rico, claro, mas, como se vê, nossa desigualdade é tão grande que estou um tanto mais próximo destes do que daqueles. O que não significa, no entanto, dizer que estou do lado “dos meus”. Quando ouço, leio ou assisto a tantos argumentos estúpidos que defendem as vítimas como Huck (e como eu mesmo, que fui assaltado mais de uma vez em bairros nobres de grandes cidades), não tenho vergonha em rebater alguns deles com idéias aparentemente clichês de qualquer “esquerdóide”. E, pensando na tal reportagem, entre atônitos e perplexos, perguntam-me meus botões: não parece mesmo óbvio que os graúdos se sintam menos à vontade no meio da guerra? Os pobres, afinal, são eles próprios a violência. Esta violência, afinal, em específico a citada na reportagem e no texto de Huck, é justamente a violência dos pobres, do cano na testa, da justiça a sangue frio, com as próprias mãos. E os mesmos botões, ainda inquietos, completam: os ricos não são violentos? Eles reclamam da violência dos bancos? Da violência do salário das empregadas? A das grandes empresas? Da propaganda? Das novelas? Das BMW’s indiferentes nos semáforos? Dos Rolex? E quem é que reclama mais da violência da fome? Os ricos ou os pobres?

O mais interessante dessas recorrentes discussões inflamadas sobre segurança pública é que se ouve constantemente que os ricos têm o direito de o ser – e têm mesmo, mas o que nunca se entende é que os pobres têm direito, pelo menos, de ser gente.

O FALSO HERÓI

Até onde se sabe, o apresentador-vítima não registrou queixa do roubo à delegacia mais próxima (situada, inclusive, na mesma rua onde ocorreu o crime). O que Huck, o destemido mártir da segurança, talvez não compreenda é que, sem Boletim de Ocorrência, o crime do qual foi vítima não existe oficialmente. Por que insiste ele, então, em cobrar ação efetiva da polícia e das autoridades, se transmite comportamento tão inseguro? Tudo bem que, como ele próprio já disse, não está preocupado com o relógio e sim com o alerta a ser passado, mas é noção básica de cidadania que, para que os agentes de segurança funcionem da melhor maneira possível, é preciso colaboração da sociedade da qual Huck presume que faz parte.

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Cinco e dezessete

Não dormia antes que o dia clareasse, antes que os pássaros, ainda desnorteados, disputassem com gritos histéricos um lugar apertado nas antenas de televisão. Antes que, das garagens das casas, ouvisse os primeiros motores ligados, dos carros, da gente correndo para o extenuante trabalho a cumprir.

E enquanto aquele negócio metodicamente maluco lhe soprava, do além das venezianas cerradas, as primeiras mostras de mais um dia comum, ao som e à luz de uma alvorada em nada romântica, arredava as cobertas para baixo e se punha a sonhar. Feliz, feliz. Muito mais que os carros e que os passarinhos.

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Quem matou Lineu Vasconcelos?

O texto que segue foi escrito em março de 2004 e, não me lembro por qual motivo, houve quem disse que ele está atualíssimo. Que o diga Taís Grimaldi. Então tá...

Não assisto a novelas. Não gosto de televisão. Quando eu era pequeno e inocente, não tinha nada pra fazer e não conhecia a hipocrisia da sociedade brasileira, eu acompanhava com adoração todos os capítulos depois do Jornal Nacional. Só as novelas das oito, se é que isso me faz parecer menos ridículo. Que gostoso, toda a família reunida e mergulhada nas tramas quase sempre idênticas! A mocinha, o vilão, a proletária ambiciosa, o casal que “precisa” ficar junto no final da história... todos personagens estereotipados que passam a se misturar confusamente com a realidade da massa alienada. Que magavilha! Na mesa do bar, no salão de cabeleireiro, naquele cafezinho rápido enquanto a reunião não é retomada, na quitanda hortifruti, na feira livre, e até na sala de aula; estão todos preocupados com a vida alheia, e o que é pior, estão se preocupando e discutindo a vida de pessoas que nem existem, fictícias. E a reforma agrária? E a taxação dos inativos? Sobre isso, não sabem tanto. Não se preocupam tanto. Não discutem nada disso. Algo mais me irrita: se saíssemos às ruas perguntando quem é Darlene Sampaio, a maioria absoluta saberia responder com precisão e detalhes. Se, em seguida, perguntássemos quem é Waldomiro Diniz, o número de conhecedores seria brutalmente menor e as poucas respostas ainda seriam vagas. Eu também preferiria não conhecer o segundo, e confesso que a menina é uma beleza. Piranha é melhor que tubarão.


Agora, a bala da vez é o assassinato do empresário Lineu Vasconcelos. Quem matou o velho? A mim, pouco importa. O risco-país está subindo, meu time está mal no campeonato e ando com repetidas inflamações de garganta. Obviamente, eu jamais me preocuparia com essa bobagem e, portanto, não assisti a essa falsa tragédia. Como Lineu, a estratégia do novelista também é velha: um assassinato misterioso atrai audiência e mantém o público literalmente ligado durante todo o desenrolar das investigações (lê-se, portanto, até o final da novela). Instigado diante do suspense, ele (o público) mantém-se fiel até que o caso seja solucionado. Todos estão convidados a arriscar um palpite. O país novamente pára e pergunta: Quem matou Lineu Vasconcelos? São meses, ou mais ainda, são capítulos inteiros que massificam o povo e reduzem sua consciência a um nível ainda menor.

Com isso, o ibope salta uns bons degraus. Morre um personagem, nascem milhões de novos telespectadores. Mais ibope, mais dinheiro. E depois, pra que tudo isso? Um único capítulo desvenda o mistério, o assassino. Pronto, acabou. Muitas vezes ainda o tão esperado final é singularmente tolo, frustrando aos milhões de detetives que arquitetaram conspirações mirabolantes. E o diretor da novela virou celebridade, ganhou muito dinheiro com o sucesso da trama e foi passar as férias na Ilha de Caras. Um tapa na cara de todos aqueles que se ocuparam dessa futilidade. Eles merecem. Segundo a revista Veja, Janete Clair foi quem inovou as telenovelas com esse mistério psicopata, em 1969. Há 35 anos os brasileiros consomem essa mesmice, com igual (ou maior) apetite. É inacreditável; merecem mesmo um tapa na cara. Ou dois. Ou trinta e cinco.

Na mesma reportagem há, em destaque, uma frase de Gilberto Braga, autor de Celebridade: “Todo o elenco é suspeito, até os que têm álibi.” Mais essa. Ele quer , de forma cretina, intrigar a todos e provar inescrupulosamente que é muito lógico o fato de tantas pessoas possuírem interesses em matar Lineu, afinal o coroa era “dono de um dos maiores impérios de comunicação do país, de um conglomerado que inclui emissoras de rádio, emissoras de TV a cabo e editoras que publicam várias revistas”. Roberto Marinho, o Lineu da vida real, viveu bem mais e não morreu a bala, contrariando só um pouquinho a lógica natural das coisas do mundo de Braga.

Francamente. Vamos acabar com tudo isso. Delatarei o homicida sem mais delongas: eu matei Lineu Vasconcelos! Fui eu. Denunciem-me, vou preso. Agora, por favor, deixem a novela de lado. Perdeu a graça. Não assistam. Durmam, trepem, façam bolinhas de sabão.


Eu? Prefiro ser um falso assassino a ser um verdadeiro idiota.

Ah, sim, é mesmo... sou um assassino em potencial. Ando ruim da cabeça, mas refaço as contas: já são trinta e oito tapas na cara.

quarta-feira, 22 de agosto de 2007

Cuecas pretas

Conservara durante todos os seus oitenta e cinco anos o hábito de usar cuecas pretas. Apenas elas, sempre. Sem quaisquer exceções. Seu Figuinha jamais dera o braço a torcer. Que não viessem cuecas brancas, beges, azuis, amarelas. Ele não vestia; sequer permitia que fossem guardadas na gaveta do closet. “Lixo, Sulica, lixo!”, ordenava à esposa, Dona Sueli, sua compreensiva companheira de tempos antigos. E talvez fosse ela a única pessoa no mundo que jamais lhe questionara o motivo da obsessão.

Não importavam ao velho Figuinha o Reveillon, festa do branco, ou a calça de linho clarinha que deixava a cueca escura marcada. Se os outros percebiam sua cueca preta, aliás, Seu Figuinha não se continha em ostentação. Queria até que todos fossem como ele, que fizessem do seu costume um costume universal, regra básica para a sobrevivência humana. E quando lhe despejavam o ditado “O que seria do azul se todos gostassem do amarelo?”, Seu Figuinha não titubeava: “Não estamos falando nem do azul e nem do amarelo, meu filho. Nós estamos falando do preto”. Bastava.

Não havia explicação para a exclusividade das cuecas pretas. Se ele não dava, não havia. Da última vez que fora questionado, por exemplo, Seu Figuinha, machista convicto, respondera à nora: “Não sei por que você se preocupa tanto com isso, minha filha, se o que vale mesmo, pra vocês, é o que tem dentro”. Sua gargalhada engasgada, como se pode bem supor, destoou do silêncio constrangido de toda a família reunida durante o almoço dominical. À enfermeira doméstica, que pacientemente lhe dava banho e lhe vestia todos os dias, o velho falava: “Por você, neguinha, eu não vestia mais nada. De pretinha me bastava você, hein?”.

Seu Figuinha perdia amigos, parentes, perdia até piadas, mas não perdia o hábito das cuecas pretas. E assim, tão sem explicação quanto o seu hábito, foi sua morte depois do costumeiro banho gelado em uma manhã como outra qualquer. Velhice, resignava-se a maioria. Mas tão disposto, tão jovem, inconformavam-se alguns. Melhor assim, pelo menos não sofreu, concluíam todos. Amigos e parentes - mesmo aqueles perdidos por causa das cuecas pretas - reuniam-se agora para o último adeus (os amigos perdidos, diga-se de passagem, estreavam modelos importados para fazer inveja ao morto). Todos se aglomeravam na primeira sala do velório municipal, à espera do caixão que, a exemplo da ex-nora, ainda não chegara.

Por mais querido que fosse o morto, a maioria já se esquecia da dor da perda e se queixava das costas, das pernas tanto tempo de pé. Chorar por alguém que não comparece ao próprio velório é demais, comentavam os mais inquietos. Dona Sulica, a única que ainda chorava, preferiu, como nos tempos antigos, compreender o – último - atraso do marido.

- O morto se recusa a deitar no caixão, minha senhora. Preparado com tanto carinho... – explicou o agente funerário, um pederasta desses a que se pode chamar de bicha louca. – Quer deitar, deita. Não quer, não deita. Não é assim que a senhora também ensinou aos seus filhos? Pois o morto que fique sozinho, ai! – completou, lixando as unhas roídas de pouca preocupação.

A mulher pediu um instante a sós com o marido. O pederasta, como quem acha ótimo, deixou a lixa e saiu. Mas ficou na espreita da porta. Viu Dona Sulica se curvando ao velho Figuinha e, muito lentamente, descendo a braguilha de sua calça de linho clarinha. - Que pecado, que pecado, meu Deus! – correu, desta vez assustado, fazendo o sinal da cruz.

Dona Sulica gritou. Haviam vestido o amado, por tênue descuido de tom, uma cueca marinho. Seu Figuinha só aceitou ser enterrado no dia seguinte.

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Bronha, Brasil!

O Brasil é um país excitante. Com humildade, aliás, tomo licença para acrescentar o bordão: o Brasil é o país da p(uta)iada pronta. Sim, é risível e quase comovente o oportunismo erótico de nossas ladies, digamos, engajadas, promovendo o silicone e os pêlinhos aparados, com grooving e tudo. Quem foi que disse que a putaria de Brasília só produz entulhos e usurpadores? Errado. Brasília é tão excitante quanto Bahamas (sejam as ilhas, seja o bordel de luxo lacrado pelo Kassab).

Os peitos da vez nos soam assim, sei lá, familiares demais. Mônica Veloso, Marina Mantega... já ouvimos falar sobre algo parecido, não? Enquanto o Guido, capitão do desenvolvimento, se preocupa com a crise aérea e a solução para os aeroportos de São Paulo, um avião que estava na casa dele, bem debaixo das suas asas, vejam só, resolveu pousar no meu banheiro. “A filha do ministro (sem economias...)”, anuncia a VIP. Paro em frente à banca, estarrecido e tentado a verificar, afinal, o tamanho da prosperidade sobre a qual nos alertou Mantega, o pai. Penso mais dois minutos e, sem esperanças, caio no lugar-comum de achar que, se vem de Brasília, coisa boa não deve ser.

Melhor guardar dinheiro; daqui a pouco chega a Playboy DELA, da jornalista arrasa-quarteirão, da xará da Lewinsky. Mônica, ah, Mônica... todos os dias ouvimos e repetimos o seu nome incessantemente, como velhos conhecidos, como amantes platônicos, e você ali, sempre congelada, sempre quase escondida sob os óculos escuros ou quase séria na capa da Veja. O olhar prostrado, murcho, aparentemente vitimado por um cafajeste que lhe prometeu abandonar tudo para depois fugirem juntos com a bolada do amigo empreiteiro. Ah, Mônica, porque hesitaste cinco minutos em aceitar o convite da nossa revista pornô mais fina? Deixe-nos entrar, Mônica. Deixe-nos...

E ainda dizem que o brasileiro é um cara despolitizado. A Playboy, muito mais que ganhar dinheiro em cima do nosso fetichismo ávido e hipócrita, tenta promover a conscientização dos punheteiros. Vocês não percebem? É bonito, é cool. Vai ver é a tal responsabilidade social, a falsa filantropia com o pensamento no “é dando (!) que se recebe”. Mas, benevolências à parte, há algo de muito grave nesse processo de pornografização da política (ou politização do pornô, tanto faz): perdemos o prazer pelo realmente belo, pelo vislumbre de uma escultura de carne e osso, a única coisa a que se pode chegar em páginas de revistas. Onde está a beleza pela beleza? Cadê a Maitê Proença e o seu corpo inteiro que dispensa maiores explicações? Foi-se o tempo em que a violência das polêmicas nos atracava de forma mais direta, nos chumaços da Vera Fischer ou na lisura da Galisteu? Não queríamos ou não estávamos acostumados com o subentendido. Agora, cultuamos o que há por trás dessas mulheres (não, infelizmente não é o que vocês estão pensando), o seu baixo porquê de estar ali (não, de novo, não é o que vocês estão pensando). Comprados pela idéia da revista, compramos sua materialização sedutora nas bancas mais próximas. O fetiche não é novidade, claro, mas dessa vez ele atingiu proporções terríveis. A amante do presidente do Senado, a pivô de um rastro de lixo sem fim, a mãe do pecado cristão de um homem público. Ela, o nosso maior sonho de consumo, tão momentâneo e esparso quanto um discurso proferido por seu amante. Que importa se há cinco mil mulheres como Mônica Veloso por metro quadrado? Só ela – até o mês que vem - é a mulher mais desejada do mundo.

No Senado, enquanto isso, acompanhamos diariamente um show de sacanagens tórridas, de maracutaia explícita, de sexo animal na mesa da Comissão de Ética, o vai-e-vem dos canalhas engravatados, daqueles velhinhos quase caquéticos pulando a cerca (a nossa) e gozando à vontade com o pau alheio (o nosso), experimentando um orgasmo eterno, uma bronha relaxante, tântrica, proibida nas linhas da constituição parlamentar. Renan, perdido entre os bois e a vaca, ainda ameaça a oposição com meias palavras. Cadê a virilidade, comandante? Seja macho de novo, cabra-da-peste! Cadê o Jefferson, o mártir da bosta no ventilador, pra te ensinar como se entrega os colegas de canalhice? Ah, pensando bem, chega de aporrinhação e me traz logo a Playboy da jornalista gostosa, vai!

Ver a bunda dessa mulher pode nos custar caro. Ver suas curvas pode nos levar a uma espécie de absolvição de Renan, a algo como "ah, ele até pode ser um filho da puta, mas, vem cá, olha esse rabo! O cara mandou bem!!". Ver suas coxas torneadas pelo Photoshop nos deixará ainda mais impotentes, mais brochas, mais passivos, mais cúmplices dessa aberração nacional. Além de tudo, se a moda pega...

Fica, Renan. Se a moda pega e você, por um acaso bem casual mesmo, cai do seu posto-mor, propostas perigosas podem surgir. Renan Calheiros na G Magazine! Será? Não é impossível imaginar a capa com o desmoralizado quase nu, tapando o cacete com uma maleta e os escritos garrafais: "O tamanho do Gontijo!". Ou então algo como "Renan Calheiros, mais em pé do que nunca". Fica, Renan. É melhor mesmo que as coisas acabem em pizza do que acabem em banana velha.



terça-feira, 7 de agosto de 2007

José, o bêbado

Quando José bebia
José se esquecia da vida
E parecia que a vida amava José

Quando José chorava
E tão logo a bebida encantava José
José se esquecia que não tinha mais nada.

José, daí, quando sorria
Esquecia o José que nada fazia
Quando bebia e sorria, José não chorava
José se esquecia que a vida também não lembrava
Do José, nunca...

quarta-feira, 25 de julho de 2007

Aqui, lá e em qualquer lugar

Hey, amigo (velho amigo),

Parabéns, saúde, felicidades. Como você me disse outro dia, “tudo de bom que as pessoas sempre desejam para as outras em aniversários”.

Nessas ocasiões de cumprimentos, de constante busca por palavras bonitas, sempre sugerem os botões daquele que fala que se diga “eu gostaria de dizer muitas coisas neste momento”, mas... que coisa cafona, bicho!

De verdade, eu não gostaria de dizer nada mais do que essas palavras que eu já disse agora – e do que aquelas que eu já disse antes. Mas, de verdade, mesmo, eu gostaria apenas que estivéssemos todos juntos e que nos olhássemos depois da pancada de um mi maior para que pudéssemos, enfim, gritar em conjunto: Don’t let me down!

É, seria foda. Não foi. E, muito provavelmente, também não será (será?). Se não conseguimos ser os Beatles, amigo, não o tente de novo com quaisquer outros cabeludos por aí. Você não encontrará por aí amigos melhores que nós. Talvez bem melhores, sim, na guitarra, no estúdio, na distância sempre exata daquilo que é seu. Não na cumplicidade. Não na ingenuidade de achar que, plim, basta ir a uma loja de fantasias para se realizar um sonho em comum guardado por tantos anos. No feeling do “é hoje” que não chegou, mas que nem por isso deixa de nos despertar vibrações tão intensas.

Aqui, bem velhotes, seguimos caminhos particulares e quase silenciosos. O teclado novinho em folha e a guitarra sem a última corda, separados, fazem cada vez menos sentido. Menos barulho. Nas paredes fechadas, acordes sem eco. Aqui, pensamos que, ah, falta você, nosso amigo. À sua espera, (a)guardamos aquele primeiro ensaio possivelmente frustrado, possivelmente promissor.

Lá, “seguiste” o tom que jamais deixou dúvidas de que, claro, a felicidade existia. “Encontraste” o caminho certo por todos nós, mas “foste” sozinho. Convicto. Caminhando com o seu tênis vermelho e a camiseta estampada pelo orgulho do sonho realizado, você encontrou um porto frio, histórico e alegre. Naquela Polar geladíssima ou naquele vinho da casa à espera do amor, você descobriu que... você tinha razão. Era um sinal.

Mas também, amigo, não tenho a mínima dúvida: em algum momento você riu sozinho, não entenderam nada e você, mesmo assim, preferiu não compartilhar nossas piadas incríveis, babacas, previsíveis e sempre repetidas. Em algum momento você achou um sujeito idêntico ao professor de História, um clone irreparável da colega monga, uma figura tosca como a do careca de cornetinha em cima da Marilyn Monroe, mas não havia ninguém que entendesse tanta “bobagem”. Você quis implicar com o jeito de um, a blusa de outra, o sotaque de todos, mas não havia mais alguém tão chato quanto você. Em algum momento, enfim, você tentou nos procurar no ensaio da sua banda nova – e de verdade. Sentiu uma vontade louca de pegar o carro bêbado e, ao som de Twist and Shout, ser atropelado por um maluco de bigodinho. Tentou, então, de alguma maneira, mais dois ingressos para o... o Mundo de Marlboro - com itinerário completo e tudo. Mais uma vez, porém, não deu.

Aqui, estejamos talvez enganados, afinal, lá você pode ter se esquecido de tudo isso. Mas, a exemplo de John, Paul e Harrison (porque o Ringo não conta, disso você não se esqueceu), o sonho e o ensaio seguirão para sempre guardados. Aqui, lá e em qualquer lugar.




sexta-feira, 20 de julho de 2007

Sobre mortos, tucanos e papagaios

É tentador ansiar pelo encontro do culpado em situações que mexem com a emoção, seja a derrota do seu time na final do campeonato, seja a tragédia com o avião da TAM em São Paulo. No segundo caso, especificamente, parece óbvio também relacionar o desastre do JJ 3054 à crise aérea nacional que já se estende há quase um ano.

É preciso tomar cuidado, porém, com duas vertentes traiçoeiras: o imediatismo contínuo e o fanatismo político. No que diz respeito à mídia, agente central neste episódio, o primeiro perigo está relacionado à obsessão pelo “furo”, pelo “cheguei primeiro”, pelo “ganhei” da brincadeira em que se transforma a genuína desgraça dos outros. Por alguma razão empresarial – o chamado respeito ao público – ainda há alguma preocupação no sentido de divulgar apenas aquilo que se tem certeza (infelizmente, não por parte de todos os veículos). O segundo perigo, esse não tem mais jeito.

Nas páginas dos maiores jornais do país, aquelas que tanto nos sujam as mãos, todos apontam o dedo, sem o menor respeito e com pouquíssima informação, para a cara sempre a tapa do presidente da República. Da especialista em política ao colunista social. Isso mesmo, aqueles que se ocupam diariamente com as delícias da gente rica também se dispuseram a encontrar o culpado. Com o título “Socorro, Serra”, um deles, sabidamente freqüentador das festinhas peesedebistas, escreveu: “Os paulistas e paulistanos entregam agora sua desesperança nas mãos do governador José Serra para que, com a força de todos os seus votos, e credenciado pela sua comprovada competência política, arranque de Brasília uma solução para os aeroportos de São Paulo”. Não contente em depositar uma esperança quase homossexual no super-herói Serra, o desavisado prossegue se denunciando num bairrismo/separatismo lastimável: “O dinheiro de impostos federais pagos pelos paulistas sustentam o desperdício nacional, são mau (sic) usados em todo o País, escoam por ralos, vão parar em mãos erradas. Se ficassem por aqui, não teríamos de contar esses mortos nem conviver com estas tragédias”. Nas páginas dos críticos e dos especialistas (?) no assunto, não passei do primeiro parágrafo de nenhum dos textos jaborosos, neumanescos e kramelentos. Não há estômago.

Sob o aplaudido manto da democracia e do jornalismo que dá voz ao povo, estes mesmos jornalões publicam infinitas cartas de seus leitores repletas de raciocínio chulo e escritos baixos, os mesmos que se escondem sob as palavras difíceis de seus editoriais na segunda página. Essas cartas são a sua tecla SAP, sua tradução mais horrenda e... perfeita.

Na televisão, voz para uma oposição frívola e oportunista, seguramente distante do cheiro de fumaça e gente morta e pouco se lixando para os tantos perdedores da história. No dia seguinte ao acidente, Arthur Virgílio, oportunista-mor, bradava: “Não está dando para esconder mais tantas mazelas gerenciais do governo. Não funciona porto, não funciona rodovia, não funciona aeroporto”. Raul Jungmann, outro mestre na arte da politicagem barata, protestava: “Não cabe cobrar nada de sobre humano nem a presidente, nem a ministro da Defesa. Mas eles falham, eles reiteradamente falham, porque foram até o presente momento incapazes de evitar que o pior acontecesse”. Entre outras sonoras valiosíssimas, assim a mídia orquestrou um discurso fanático, imediatista e, na essência, unilateral.
Só que, algumas horas depois, todo mundo também divulgou as últimas imagens do pouso do Airbus 320 acidentado. Ele passa pelos olhares da câmera por três segundos, dez a mais em relação ao seu semelhante, que passara minutos antes, em pouso normal. As evidências indicam: possível falha humana e/ou mecânica. Dois dias depois do acidente, o Jornal Nacional chega ao ar com uma informação exclusiva: o reverso da turbina daquele avião apresentava defeitos. As tais evidências se reforçam.

É muito cedo, claro, para já se afirmar com absoluta certeza qual foi o problema, se ele foi unicamente mecânico, se foi do piloto, se foi do grooving, nossa nova celebridade. Do Sobrenatural de Almeida não foi. É indiscutível também que a crise aérea incita a possibilidade de desgraças como essa a qualquer momento, que os órgãos reguladores do setor parecem um tanto de mãos atadas, perdidos, mesmo. Mas já passou da hora de se pôr fim à apelação do instrumentismo político e do preconceito irracional. É muito tentador ouvir apenas aqueles que falam mais alto.

Os novos bichos

Se o avião cai, é culpa do Lula. Se o dólar cai, é a bonança dos ventos internacionais. Como assim? O Lula só é responsável pelo que dá errado. Lula é o culpado pelo reversor que não funcionava, pela extinção das baleias brancas no Ártico e pela ineficiência da vitamina C contra o resfriado.

A grande verdade é uma só, como se diz: o Lula é um fenômeno, e não apenas nas urnas. A política, no Brasil, não por coincidência de uns anos pra cá, se transformou em algo parecido com o futebol: todo mundo se sente apto a proferir teorias com autoridade de rei. O inconsciente popular funciona mais ou menos assim: “Se o presidente é analfabeto, por que eu não saberia tudo sobre o déficit primário, a balança comercial, a desvalorização do câmbio? Por que eu não saberia tudo de tudo?”. E aí, enfim, surge uma nova espécie animal nesta nossa conclamada fauna brasileira: o tucanaio.

É a mistura do tucano com o papagaio. Na forma, porém, não é bicudo, não é verde, não é bonito, mas se assemelha bastante à última evolução do macaco. É uma espécie que gosta de se orgulhar com os diplomas do ex-presidente e com as patetices dos governantes, sobretudo, paulistas. Repete tudo que ouve desses camaradas carecas e de seus amigos, hm, democratas. Não porque pensa, mas porque ouve - simplesmente.

E o tucanaio não apenas fala. Ele vaia também, sobretudo se está engaiolado com outros milhares de bichos da mesma espécie. Só não se sabe ainda se um dia conseguirá voar com as próprias asas. Ao que a genética indica, não.

Ressalva

Quase todos. Em artigo publicado nos jornais Zero Hora, O Globo e O Estado de São Paulo (entre outros, acho), Verissimo analisa com precisão e coerência a nova moda do brasileiro. Segue um trecho. Quem quiser inteiro, dá googlada. O título do texto é “Cumplicidade”.

No Brasil do Lula, é grande a tentação de entrar no coro que vaia o presidente. Ao seu lado no coro poderá estar alguém que pensa como você, que também acha que Lula ainda não fez o que precisa fazer e que há muita mutreta a ser explicada e muita coisa a ser vaiada. Mas olhe os outros.Veja onde você está metido, com quem está fazendo coro, de quem está sendo cúmplice. A companhia do que há de mais preconceituoso e reacionário no país inibe qualquer crítica ao Lula, mesmo as que ele merece. Enfim: antes de entrar num coro, olhe em volta.

sexta-feira, 13 de julho de 2007

Sobre mim mesmo comigo

Odeio, muito particularmente, ler textos iniciados na primeira do singular. Soa péssimo, antipático, auto-laudatório demais. Algo do tipo “muito bem, o que importa aqui sou eu”. Odeio quem escreve com o único fim de falar de si próprio. É terrível, mas grave mesmo é que quem comete esse tipo de inconveniência sequer percebe que o está cometendo; sai exaltando proezas, vomitando problemas, redigindo e publicando primeiras e mais primeiras convicto de que sua opinião vale alguma coisa. Odeio.

Todo mundo tem problemas. Eu mesmo tenho. Um só, mas tenho. E, ora, para isso servem os analistas. Falando neles, aliás, hoje descobri que meu orçamento de jornalista iniciante é incapaz de pagar mais do que uma sessão por mês. Como eu disse, tenho dois problemas. Vejam só, compreendam a minha impossibilidade clara de se ter um analista: j-o-r-n-a-l-i-s-t-a i-n-i-c-i-a-n-t-e. É a combinação perfeita do nenhum tostão com o bolso furado.

Ah, sim, o meu problema. O primeiro, digo.

É o criado-mudo. Justo ele, condecorado pelo silêncio e pela incapacidade de fazer algum mal a quem quer que seja. Tão prestativo, condescendente... Pois a mim ele atrapalha. Não. Ele mata.

O meu, por exemplo, escancara minha fragilidade diária, minha impotência diante das coisas ao redor de olhos tão ávidos por tantas... coisas. Meu criado-mudo não me esconde que estes olhos podem querer tudo - e querem. Este malcriado me joga na cara todos os dias, bem na hora de dormir, que eu inventei mil coisas ao mesmo tempo e que preciso supri-las o quanto antes, sob a ingrata e pavorosa pena de carregar o peso do sobrenome zé-ninguém.

O meu criado-mudo me lembra a todo momento que guarda consigo as complexidades, os prazeres e os desprazeres de todos os lados do mundo; que guarda consigo, ao mesmo tempo, o novo álbum da Marisa Monte e um ao vivo do Jethro Tull; um livro denso de reportagem investigativa e um outro romance de ficção sobre velhinhos e putas virgens; uma revista de cultura pop e um caderno especial sobre a crise na Palestina; uma tabela com horários e preços da musculação e um frasco vazio de antibióticos; o relógio adiantado e uns recortes velhos de jornal. Isolados e sem paradoxos aparentes, a chave do carro, o celular e uma caneta sem tampa.

Meu criado-mudo... ele fala! “Ê ei, eu estou aqui, seu pretensioso juvenil, venha me pegar. Senão eu pego você!”. Definitivamente, ele me espera ansioso, cínico, no aguardo quase taciturno por novos motivos que agravem esse meu coisismo incorruptível.

Não vejo, meu Deus, ponte alguma entre o Hamas e o último show dos Los Hermanos, entre a Rota e o infinito particular da neo-MPB. Entre o Ian Anderson e os meus antibióticos. Alô, é da Gautama? Vocês podem resolver o meu problema? Quanto?? Não, não, obrigado, tô fora.

Talvez haja todo o sentido do mundo nessa bagunça e o tal efeito borboleta tenha pousado sobre o meu criado-mudo degenerativo, mas ainda não consigo conceber com total lucidez a harmonia de tudo isso pilhado diante de minha pequenice sem jeito.

Estou aflito, entre a obrigação de saber tudo pra ontem e a curiosidade louca do descompromisso pra hoje – e amanhã e depois e depois. Entre a impossibilidade supervisionada do erro e o just push foda-se pronto para ser... tocado. Entre o cabelo comprido para um mochilão em ilhas paradisíacas e o curto para o terno-e-gravata. Entre o Garcia Márquez e a Playboy da bandeirinha pop. Entre várias noites mal dormidas e um sono contínuo de sessenta horas, daqueles de se acordar, espreguiçar o corpo inteiro e deitar de novo. Entre artesanatos ripongo-naturais e a fatura do cartão de crédito com as prestações da TV de plasma.


Estou alucinado, picado pela droga da incerteza, do desencontro entre os amigos e os bons exemplos; entre os capachos, os puxa-tapetes e nenhum dos dois. Entre a guitarra e as paixões mais palpáveis, os sonhos mais próximos. A Guerra Fria e o Sgt. Pepper, o Morales e o Hussein, o Lobão e a MTV, a verdade e o milésimo do Romário. Entre a precisão e descontexto.

Perdido, solto entre mim e mim mesmo, tão indecifrável quanto alguém que não consegue pregar os olhos por causa de um criado-mudo. Geralmente, aliás, é por isso que eu não agüento ouvir as pessoas que falam sem parar sobre elas próprias sem pedir licença. Não dá pra entender nada.

Anteriores

Para quem ainda não leu e eventualmente, porventura, quem sabe, talvez ainda queira ler os últimos textos do outro blog:


NOTA DE DESPEDIDA
http://sideracoes.blogspot.com/2007/07/nota-de-despedida.html

LATE, MAS NÃO MORDE
http://sideracoes.blogspot.com/2007/06/late-mas-no-morde.html

DISTANTES
http://sideracoes.blogspot.com/2007/05/distantes.html

UZOUTROS
http://sideracoes.blogspot.com/2007/05/uzoutros.html

BAM BAM BAM
http://sideracoes.blogspot.com/2007/05/bam-bam-bam.html