quarta-feira, 22 de agosto de 2007

Cuecas pretas

Conservara durante todos os seus oitenta e cinco anos o hábito de usar cuecas pretas. Apenas elas, sempre. Sem quaisquer exceções. Seu Figuinha jamais dera o braço a torcer. Que não viessem cuecas brancas, beges, azuis, amarelas. Ele não vestia; sequer permitia que fossem guardadas na gaveta do closet. “Lixo, Sulica, lixo!”, ordenava à esposa, Dona Sueli, sua compreensiva companheira de tempos antigos. E talvez fosse ela a única pessoa no mundo que jamais lhe questionara o motivo da obsessão.

Não importavam ao velho Figuinha o Reveillon, festa do branco, ou a calça de linho clarinha que deixava a cueca escura marcada. Se os outros percebiam sua cueca preta, aliás, Seu Figuinha não se continha em ostentação. Queria até que todos fossem como ele, que fizessem do seu costume um costume universal, regra básica para a sobrevivência humana. E quando lhe despejavam o ditado “O que seria do azul se todos gostassem do amarelo?”, Seu Figuinha não titubeava: “Não estamos falando nem do azul e nem do amarelo, meu filho. Nós estamos falando do preto”. Bastava.

Não havia explicação para a exclusividade das cuecas pretas. Se ele não dava, não havia. Da última vez que fora questionado, por exemplo, Seu Figuinha, machista convicto, respondera à nora: “Não sei por que você se preocupa tanto com isso, minha filha, se o que vale mesmo, pra vocês, é o que tem dentro”. Sua gargalhada engasgada, como se pode bem supor, destoou do silêncio constrangido de toda a família reunida durante o almoço dominical. À enfermeira doméstica, que pacientemente lhe dava banho e lhe vestia todos os dias, o velho falava: “Por você, neguinha, eu não vestia mais nada. De pretinha me bastava você, hein?”.

Seu Figuinha perdia amigos, parentes, perdia até piadas, mas não perdia o hábito das cuecas pretas. E assim, tão sem explicação quanto o seu hábito, foi sua morte depois do costumeiro banho gelado em uma manhã como outra qualquer. Velhice, resignava-se a maioria. Mas tão disposto, tão jovem, inconformavam-se alguns. Melhor assim, pelo menos não sofreu, concluíam todos. Amigos e parentes - mesmo aqueles perdidos por causa das cuecas pretas - reuniam-se agora para o último adeus (os amigos perdidos, diga-se de passagem, estreavam modelos importados para fazer inveja ao morto). Todos se aglomeravam na primeira sala do velório municipal, à espera do caixão que, a exemplo da ex-nora, ainda não chegara.

Por mais querido que fosse o morto, a maioria já se esquecia da dor da perda e se queixava das costas, das pernas tanto tempo de pé. Chorar por alguém que não comparece ao próprio velório é demais, comentavam os mais inquietos. Dona Sulica, a única que ainda chorava, preferiu, como nos tempos antigos, compreender o – último - atraso do marido.

- O morto se recusa a deitar no caixão, minha senhora. Preparado com tanto carinho... – explicou o agente funerário, um pederasta desses a que se pode chamar de bicha louca. – Quer deitar, deita. Não quer, não deita. Não é assim que a senhora também ensinou aos seus filhos? Pois o morto que fique sozinho, ai! – completou, lixando as unhas roídas de pouca preocupação.

A mulher pediu um instante a sós com o marido. O pederasta, como quem acha ótimo, deixou a lixa e saiu. Mas ficou na espreita da porta. Viu Dona Sulica se curvando ao velho Figuinha e, muito lentamente, descendo a braguilha de sua calça de linho clarinha. - Que pecado, que pecado, meu Deus! – correu, desta vez assustado, fazendo o sinal da cruz.

Dona Sulica gritou. Haviam vestido o amado, por tênue descuido de tom, uma cueca marinho. Seu Figuinha só aceitou ser enterrado no dia seguinte.

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Bronha, Brasil!

O Brasil é um país excitante. Com humildade, aliás, tomo licença para acrescentar o bordão: o Brasil é o país da p(uta)iada pronta. Sim, é risível e quase comovente o oportunismo erótico de nossas ladies, digamos, engajadas, promovendo o silicone e os pêlinhos aparados, com grooving e tudo. Quem foi que disse que a putaria de Brasília só produz entulhos e usurpadores? Errado. Brasília é tão excitante quanto Bahamas (sejam as ilhas, seja o bordel de luxo lacrado pelo Kassab).

Os peitos da vez nos soam assim, sei lá, familiares demais. Mônica Veloso, Marina Mantega... já ouvimos falar sobre algo parecido, não? Enquanto o Guido, capitão do desenvolvimento, se preocupa com a crise aérea e a solução para os aeroportos de São Paulo, um avião que estava na casa dele, bem debaixo das suas asas, vejam só, resolveu pousar no meu banheiro. “A filha do ministro (sem economias...)”, anuncia a VIP. Paro em frente à banca, estarrecido e tentado a verificar, afinal, o tamanho da prosperidade sobre a qual nos alertou Mantega, o pai. Penso mais dois minutos e, sem esperanças, caio no lugar-comum de achar que, se vem de Brasília, coisa boa não deve ser.

Melhor guardar dinheiro; daqui a pouco chega a Playboy DELA, da jornalista arrasa-quarteirão, da xará da Lewinsky. Mônica, ah, Mônica... todos os dias ouvimos e repetimos o seu nome incessantemente, como velhos conhecidos, como amantes platônicos, e você ali, sempre congelada, sempre quase escondida sob os óculos escuros ou quase séria na capa da Veja. O olhar prostrado, murcho, aparentemente vitimado por um cafajeste que lhe prometeu abandonar tudo para depois fugirem juntos com a bolada do amigo empreiteiro. Ah, Mônica, porque hesitaste cinco minutos em aceitar o convite da nossa revista pornô mais fina? Deixe-nos entrar, Mônica. Deixe-nos...

E ainda dizem que o brasileiro é um cara despolitizado. A Playboy, muito mais que ganhar dinheiro em cima do nosso fetichismo ávido e hipócrita, tenta promover a conscientização dos punheteiros. Vocês não percebem? É bonito, é cool. Vai ver é a tal responsabilidade social, a falsa filantropia com o pensamento no “é dando (!) que se recebe”. Mas, benevolências à parte, há algo de muito grave nesse processo de pornografização da política (ou politização do pornô, tanto faz): perdemos o prazer pelo realmente belo, pelo vislumbre de uma escultura de carne e osso, a única coisa a que se pode chegar em páginas de revistas. Onde está a beleza pela beleza? Cadê a Maitê Proença e o seu corpo inteiro que dispensa maiores explicações? Foi-se o tempo em que a violência das polêmicas nos atracava de forma mais direta, nos chumaços da Vera Fischer ou na lisura da Galisteu? Não queríamos ou não estávamos acostumados com o subentendido. Agora, cultuamos o que há por trás dessas mulheres (não, infelizmente não é o que vocês estão pensando), o seu baixo porquê de estar ali (não, de novo, não é o que vocês estão pensando). Comprados pela idéia da revista, compramos sua materialização sedutora nas bancas mais próximas. O fetiche não é novidade, claro, mas dessa vez ele atingiu proporções terríveis. A amante do presidente do Senado, a pivô de um rastro de lixo sem fim, a mãe do pecado cristão de um homem público. Ela, o nosso maior sonho de consumo, tão momentâneo e esparso quanto um discurso proferido por seu amante. Que importa se há cinco mil mulheres como Mônica Veloso por metro quadrado? Só ela – até o mês que vem - é a mulher mais desejada do mundo.

No Senado, enquanto isso, acompanhamos diariamente um show de sacanagens tórridas, de maracutaia explícita, de sexo animal na mesa da Comissão de Ética, o vai-e-vem dos canalhas engravatados, daqueles velhinhos quase caquéticos pulando a cerca (a nossa) e gozando à vontade com o pau alheio (o nosso), experimentando um orgasmo eterno, uma bronha relaxante, tântrica, proibida nas linhas da constituição parlamentar. Renan, perdido entre os bois e a vaca, ainda ameaça a oposição com meias palavras. Cadê a virilidade, comandante? Seja macho de novo, cabra-da-peste! Cadê o Jefferson, o mártir da bosta no ventilador, pra te ensinar como se entrega os colegas de canalhice? Ah, pensando bem, chega de aporrinhação e me traz logo a Playboy da jornalista gostosa, vai!

Ver a bunda dessa mulher pode nos custar caro. Ver suas curvas pode nos levar a uma espécie de absolvição de Renan, a algo como "ah, ele até pode ser um filho da puta, mas, vem cá, olha esse rabo! O cara mandou bem!!". Ver suas coxas torneadas pelo Photoshop nos deixará ainda mais impotentes, mais brochas, mais passivos, mais cúmplices dessa aberração nacional. Além de tudo, se a moda pega...

Fica, Renan. Se a moda pega e você, por um acaso bem casual mesmo, cai do seu posto-mor, propostas perigosas podem surgir. Renan Calheiros na G Magazine! Será? Não é impossível imaginar a capa com o desmoralizado quase nu, tapando o cacete com uma maleta e os escritos garrafais: "O tamanho do Gontijo!". Ou então algo como "Renan Calheiros, mais em pé do que nunca". Fica, Renan. É melhor mesmo que as coisas acabem em pizza do que acabem em banana velha.



terça-feira, 7 de agosto de 2007

José, o bêbado

Quando José bebia
José se esquecia da vida
E parecia que a vida amava José

Quando José chorava
E tão logo a bebida encantava José
José se esquecia que não tinha mais nada.

José, daí, quando sorria
Esquecia o José que nada fazia
Quando bebia e sorria, José não chorava
José se esquecia que a vida também não lembrava
Do José, nunca...