quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Ê, mundão bunito

- Barretos? Você?
- César Menotti e Fabiano?? Você??
- De chapéu??? Você???

Eu. Chato convicto, roqueiro nostálgico, intolerante nato, rabugento prévio. Fui mesmo, devo confessar, preparado e determinado a enumerar as barbaridades que encontrasse pela maior festa do peão do Brasil, das maiores do mundo inteiro. Antes mesmo de enfrentar os quase trezentos quilômetros até a capital do rodeio, já visualizava o paraíso de pérolas podres a ser descrito depois, num texto daqueles bem incisivos. Somente agora, contudo, três semanas depois da experiência, sinto-me apto a relatar, de fato, qual é a de “Barretesão” (!).

Não, não vou escrever sobre a extinção quase completa da cultura genuinamente sertaneja em favor do boom pop-brega que se alastra há anos nas vozes e nas roupas de molecotes com pose de galãs do Faustão (coerente, aliás, foi o senador Romeu Tuma, que, ao ser perguntado sobre a relação entre a festa e a cultura regionalista, respondeu-me sem hesitar que a importância de tudo aquilo residia no retorno aos interesses das grandes gravadoras). Não adianta, não vou invejar a extrema facilidade com que esses interessantes cantores compõem os maiores sucessos do momento, super-lucrativos e, portanto, super-inteligentes (um deles reflete, inclusive, sobre os mistérios da magia transcendental e evoca algo como “Fada, fada querida / Dona da minha vida”). Não vou também, por incrível que pareça, questionar os méritos das melhores duplas da atualidade e tampouco implicar com a democrática e bem fundamentada escolha dos fãs, que, um a um, elegeram tais duplas para gritar o dia inteiro nas gaiolas das rádios com base no seu potencial artístico (?).

Não, ao menos dessa vez eu não vou me desgastar escrevendo sobre as quinquilharias da elite caipira e seus trejeitos cômico-posudos, sobre a cretinice dos agroboys desfilando suas caminhonetes rebaixadas e turbinadíssimas de som; sobre a acefalia dos valentões marombados se espancando por causa de um esbarrão proposital e a esperteza das vaquinhas malhadas que só não cagam enquanto passeiam porque a merda está lá em cima, na cabeça; sobre o olhar pretensioso dos bezerrinhos burgueses vestindo botinas e arrastando o erre ao limite para chegarem o mais próximo possível de seus papais latifundiários. Eu me nego, sem qualquer chance de desistência, a discutir a farra do circo publicitário milionário, mesmo que a onipresença da Brahma tenha me parecido um culto fundamentalista islâmico, tamanha a devoção sem questionamentos e a idolatria sem opção depositadas no líquido dourado de Alá Ambev. E, falando nisso, não passo nem perto de criticar ainda o clientelismo barato vigente nos ranchos VIP’s (talvez, bem verdade, porque eu tenha tido o privilégio da pulseirinha que me dava acesso a um deles, o que me permitiu passar o dia inteiro comendo batata frita, picanha e tomando chopp – Brahma – à vontade). Por fim, eu seria ridículo e repetitivo se condenasse a estupidez de se apertar as bolas dos animais para que eles pulem feito putinhas no cio e ameacem a vida dos machões de verdade que ousam lhes desafiar.

Não, nada disso. Somente um chato bem mais chato que eu conseguiria falar mal de Barretos. Muito mais que o Cristo assustado do Rio de Janeiro, Barretos é que é uma maravilha intocável do mundo, uma paisagem, de fato, cheia de vida; é o paraíso bíblico corrigido, cercado por cascatas jorrando os tais frutos proibidos aos quais sucumbiram Adão e Eva. Temos agora a chance de provar do belo sem restrições, sem condições chantagistas que nos privem da vida de regalias afrodisíacas.

Seja na principal avenida da cidade, onde os cowboys suados e sem camisa capturam as moças a laço, seja no Parque do Peão, onde a arquitetura pragmático-primorosa de Niemeyer acentua o conforto da multidão, Barretos nos deflagra um primitivismo escancarado e quase sem agressividade, um sentimento de gozo sem freios, de encanto à primeira e a todas as vistas. A autenticidade da sobreposição da sacanagem se revela na frase uníssona e concisa de cinco meninas quando perguntadas sobre o porquê de estarem ali: “Beijar”. Ao vê-las assumindo a nobreza de suas intenções sem pudor algum frente à câmera, notei que jogavam ali toda a hipocrisia dos outros lugares do mundo para debaixo do tapete. Na própria cidade onde moram, provavelmente voltariam a se comportar “como se deve”, seriam mais difíceis ou até inacessíveis. Em Barretos, não. A pornografia deliberada, aliás, talvez seja hoje a razão de ser da festa, onde machos e fêmeas se pegam sem delongas, sem charme ou sem o famoso cu doce. Basta um olhar cruzado, uma solidão fingida, qualquer coisa. Todos se procuram para o acasalamento coletivo e sem compromisso. Tudo muito acima do bem e do mal, do machismo, da fragilidade feminina, da “necessidade” do estupro (as moças laçadas, afinal, estão ali para isso mesmo: para serem laçadas).

Um pouco alheio a tudo de alguma maneira, penso que, na minha época, as coisas não eram assim. Constato, durante a festa, que estou ficando velho por não saber responder se estou gostando ou não da experiência. Barretos, ora, nos expõe a uma ambigüidade intrínseca que permite, simultaneamente, a compreensão da inocência jeca e o rompimento com o modus operandi tradicional. O resultado é a proximidade da evolução que negará alguns bons conceitos freudianos e nos levará ao amor maior em público, ao sexo faminto no meio das calçadinhas do parque, tudo natural, espontâneo. A troca indiscriminada de prazeres instintivos, paradoxalmente, nos levará ao ápice da racionalidade humana; encontraremos nossa principal razão para estar aqui e, aí sim, estaremos completos e livres de todo o pecado. Ê, Barretos. Ê, mundão bunito.

9 comentários:

Anônimo disse...

esse é o Thi que eu conheço de verdade. Thi para todos, pequeno para poucos!!!!
e viva Barretesão
muito bom o escrito ai!!!
parabéns ae....

Suzina disse...

Ah, que saudades dos seus textos!!!

Mas, tão chata, rabugenta, intolerante e roqueira preconceituosa sou eu e não posso deixar de dizer: nãããããooooo!!!! Barretos nããããooooo!!! rss

Aposto que vc pode ir a muitos outros lugares onde encontrará "a compreensão da inocência jeca e o rompimento com o modus operandi tradicional".

Não se renda. Mesmo velho. Porque os velhos ficam ainda mais rabugentos e com isso muito mais divertidos!!! rss

Bjoo

Pull disse...

Ganhei o carinhoso apelido de COWBOY aqui na França por chegar vestindo o chapelão boniiiiito que você me deu.

Ô, chapelão boniiiiito!

Também quero ir pra Barretos!

Anônimo disse...

velho...
eu amo putaria!!!
aiuahuihaiuahauha


vc sabe quem escreveu isso com crtz
hahaahahah

Dalberto disse...

Gostei muito do texto. Sincero e vigoroso. Meus alunos (as) terão que ler!

Isabela disse...

Até eu sei quem escreveu ali em cima!! "eu amo putaria"? Só pooode ser o Tôpa!! Acertei?

Crespito, gostei muito do seu texto que não ia falar da indústria, dos playboys e do fim do mundo! Só a parte do "da “necessidade” do estupro" achei que saiu machista ao invés de sair sincera ou autêntica ou descarada, como devia ser a intenção. Por que não a "necessidade de tomar a iniciativa" ou algo do tipo?

Thiago Crespo disse...

Resposta

Isabela, vulgo Bartinha, vulgo Bartolesa, vulgo agrogirl, o trecho citado tem a intenção se soar machista, mesmo, justamente para fazer indireta menção ao comportamento dos pitboys que frequentam esses eventos (por isso, aliás, a palavra necessidade está entre aspas).

"Necessidade de tomar a iniciativa"? Pô, Bartinha, que papo mais água-com-açúcar é esse? Iniciativa eu bebo em casa!

Isabela disse...

hahahaha desculpe, Crespinho, é que eu nunca fui a um evento animalesco como esse!!! tá bom, vá estrupar -como diria um célebre professor nosso- as vaqueiras!!

Danilo disse...

É, fiquei mto triste esse ano em saber q a Brahma lata tava R$3,00 fora e sei lá quanto a mais no meio da arena. Mas Barretos é lindo... dá pra vc ficar bêbo e tem mto espaço pra cambalear... hehehehehehehhe...

A propósito, até 2004 a Brahma lata era R$2,00.

E qual o problema de um "erre" bem articulado?