quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Quem matou Lineu Vasconcelos?

O texto que segue foi escrito em março de 2004 e, não me lembro por qual motivo, houve quem disse que ele está atualíssimo. Que o diga Taís Grimaldi. Então tá...

Não assisto a novelas. Não gosto de televisão. Quando eu era pequeno e inocente, não tinha nada pra fazer e não conhecia a hipocrisia da sociedade brasileira, eu acompanhava com adoração todos os capítulos depois do Jornal Nacional. Só as novelas das oito, se é que isso me faz parecer menos ridículo. Que gostoso, toda a família reunida e mergulhada nas tramas quase sempre idênticas! A mocinha, o vilão, a proletária ambiciosa, o casal que “precisa” ficar junto no final da história... todos personagens estereotipados que passam a se misturar confusamente com a realidade da massa alienada. Que magavilha! Na mesa do bar, no salão de cabeleireiro, naquele cafezinho rápido enquanto a reunião não é retomada, na quitanda hortifruti, na feira livre, e até na sala de aula; estão todos preocupados com a vida alheia, e o que é pior, estão se preocupando e discutindo a vida de pessoas que nem existem, fictícias. E a reforma agrária? E a taxação dos inativos? Sobre isso, não sabem tanto. Não se preocupam tanto. Não discutem nada disso. Algo mais me irrita: se saíssemos às ruas perguntando quem é Darlene Sampaio, a maioria absoluta saberia responder com precisão e detalhes. Se, em seguida, perguntássemos quem é Waldomiro Diniz, o número de conhecedores seria brutalmente menor e as poucas respostas ainda seriam vagas. Eu também preferiria não conhecer o segundo, e confesso que a menina é uma beleza. Piranha é melhor que tubarão.


Agora, a bala da vez é o assassinato do empresário Lineu Vasconcelos. Quem matou o velho? A mim, pouco importa. O risco-país está subindo, meu time está mal no campeonato e ando com repetidas inflamações de garganta. Obviamente, eu jamais me preocuparia com essa bobagem e, portanto, não assisti a essa falsa tragédia. Como Lineu, a estratégia do novelista também é velha: um assassinato misterioso atrai audiência e mantém o público literalmente ligado durante todo o desenrolar das investigações (lê-se, portanto, até o final da novela). Instigado diante do suspense, ele (o público) mantém-se fiel até que o caso seja solucionado. Todos estão convidados a arriscar um palpite. O país novamente pára e pergunta: Quem matou Lineu Vasconcelos? São meses, ou mais ainda, são capítulos inteiros que massificam o povo e reduzem sua consciência a um nível ainda menor.

Com isso, o ibope salta uns bons degraus. Morre um personagem, nascem milhões de novos telespectadores. Mais ibope, mais dinheiro. E depois, pra que tudo isso? Um único capítulo desvenda o mistério, o assassino. Pronto, acabou. Muitas vezes ainda o tão esperado final é singularmente tolo, frustrando aos milhões de detetives que arquitetaram conspirações mirabolantes. E o diretor da novela virou celebridade, ganhou muito dinheiro com o sucesso da trama e foi passar as férias na Ilha de Caras. Um tapa na cara de todos aqueles que se ocuparam dessa futilidade. Eles merecem. Segundo a revista Veja, Janete Clair foi quem inovou as telenovelas com esse mistério psicopata, em 1969. Há 35 anos os brasileiros consomem essa mesmice, com igual (ou maior) apetite. É inacreditável; merecem mesmo um tapa na cara. Ou dois. Ou trinta e cinco.

Na mesma reportagem há, em destaque, uma frase de Gilberto Braga, autor de Celebridade: “Todo o elenco é suspeito, até os que têm álibi.” Mais essa. Ele quer , de forma cretina, intrigar a todos e provar inescrupulosamente que é muito lógico o fato de tantas pessoas possuírem interesses em matar Lineu, afinal o coroa era “dono de um dos maiores impérios de comunicação do país, de um conglomerado que inclui emissoras de rádio, emissoras de TV a cabo e editoras que publicam várias revistas”. Roberto Marinho, o Lineu da vida real, viveu bem mais e não morreu a bala, contrariando só um pouquinho a lógica natural das coisas do mundo de Braga.

Francamente. Vamos acabar com tudo isso. Delatarei o homicida sem mais delongas: eu matei Lineu Vasconcelos! Fui eu. Denunciem-me, vou preso. Agora, por favor, deixem a novela de lado. Perdeu a graça. Não assistam. Durmam, trepem, façam bolinhas de sabão.


Eu? Prefiro ser um falso assassino a ser um verdadeiro idiota.

Ah, sim, é mesmo... sou um assassino em potencial. Ando ruim da cabeça, mas refaço as contas: já são trinta e oito tapas na cara.

2 comentários:

Isabela disse...

E quem matou Odete Roitman?
Ah, Crespito, pra mim o pior de tudo (depois da alienação, claro) é como os autores não têm a menor autoria ou vontade de fazer algo decente. Tudo é baseado no ibope e o cara grava 5 finais pra mesma novela, o que por si só prova como não importa a história. Nem existe uma história de verdade se qualquer final vale. Não existe trama, nem personagens, nem surpresas, nem novelas. É tudo mentira. Adeus, vou
comer o meu danete.

Danilo disse...

Este ano serão 39!!! aew!!!

O lineu tb ganhou uma avenida em sampa com o seu nome? Aliás, ganhou não... roubou o nome da avenida!
Pode? Até morto?!