segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Segurança Pública: ricos, pobres e super-heróis

Não consegui. Sinto-me sumariamente derrotado pelo discurso de Huck. Ou, pior ainda, pelo eco de seu discurso. Desde que ele, o incrível, publicou notório artigo na Folha de S. Paulo, há cerca de quinze dias, em protesto à – falta de – segurança pública na capital paulista, não se fala em outra coisa. Cansei (opa, também não queria falar sobre isso, mas todo mundo já se esqueceu ou se cansou do Cansei, mesmo...). Desta vez, porém, a repercussão atinge ainda diariamente níveis desproporcionais. Foi como se ele tivesse, de fato, morrido, como esperneou no início do texto, ou como se nunca se tivesse discutido a violência urbana no Brasil. Foi como se seu discurso mimado e retrógrado tivesse nos despertado para a luz de um problema até então inédito: “Meu Deus, isso é inimaginável! Um assalto em plena Renato Paes de Barros? Uma arma na cabeça?? Não, não pode ser, ora pois, isso não existe!”. Desta maneira se comporta parte da população e da mídia que ecoa o tal discurso do qual também somos vítimas; para além dos assaltos à mão armada à luz do sol, somos reféns ainda de um pensamento mesquinho que não chega a ser novidade, mas que nem por isso deixa de continuar surpreendendo.

No domingo cedo, 14/10, folheando o mesmo jornal que estampou o protesto de Huck, deparo-me com a manchete “Ricos reclamam mais da violência do que os pobres”. Pensei em não ler. Pensei em desistir do jornalismo, da vida, em reclamar, sei lá. Mas, com o perdão do trocadilho, não dava pra não ler. A reportagem se embasava em pesquisa feita através de números do IBGE que denotavam justamente isso: “em famílias com nível de gasto maior, foi maior o percentual de pessoas que reclamaram de problemas de violência ou vandalismo em sua área de residência”. Havia, por outro lado, o balanço, também fundamentado em números, de que a “percepção do morador não reflete necessariamente as reais condições de moradia do bairro em que vive”. Para tanto, o texto começava com a história de uma moradora da Lagoa, bairro nobre da zona sul do Rio, que resolvera, há alguns anos, iniciar um movimento de protesto após ter ouvido, de sua cobertura, som de tiros na Rocinha, favela próxima ao seu prédio de luxo. Talvez não por acaso, a matéria também terminava com a mesma personagem, cheia de propriedade, insuflando-se: “Da mesma maneira como fizeram com o Luciano Huck, me diziam que, por ser da elite, eu deveria calar a boca. É como se dissessem que a culpa pela violência é minha e que, por isso, eu deveria ficar engessada. Isso não faz sentido”. Talvez não por acaso, o repórter responsável (?) pela notícia não ouviu nenhum “pobre”. No recheio de seu texto, contudo, deu voz, sim, ao gerente da pesquisa que lhe garantira o título da matéria. A conclusão a que este chegou foi que “as pessoas de maior renda e escolaridade, por terem mais conhecimento ou pagarem mais impostos, têm nível de exigência maior”. Em minha dificuldade terrível de compreensão, quase entendi que ele quis dizer que os “ricos” são mais inteligentes e têm mais direitos sobre os “pobres” e, por isso, natural e obrigatoriamente, são mais “exigentes”. Noutra brilhante e não menos sarcástica conclusão, um especialista (!) no assunto acrescentava (?) o fato de “a população mais rica se sentir mais alvo em potencial da violência por possuírem mais ativos”.

Mesmo que eu e meu pai estejamos desempregados e minha mãe seja professora de colégio público, não há coragem para outra alternativa senão a de nos considerarmos privilegiados: tenho ensino superior completo (desde o início em escolas particulares), internet banda larga e um poodle que usa lacinhos e faz cocô onde bem entende pela casa. Coisas de um “rico” daquela reportagem. Não sou rico, claro, mas, como se vê, nossa desigualdade é tão grande que estou um tanto mais próximo destes do que daqueles. O que não significa, no entanto, dizer que estou do lado “dos meus”. Quando ouço, leio ou assisto a tantos argumentos estúpidos que defendem as vítimas como Huck (e como eu mesmo, que fui assaltado mais de uma vez em bairros nobres de grandes cidades), não tenho vergonha em rebater alguns deles com idéias aparentemente clichês de qualquer “esquerdóide”. E, pensando na tal reportagem, entre atônitos e perplexos, perguntam-me meus botões: não parece mesmo óbvio que os graúdos se sintam menos à vontade no meio da guerra? Os pobres, afinal, são eles próprios a violência. Esta violência, afinal, em específico a citada na reportagem e no texto de Huck, é justamente a violência dos pobres, do cano na testa, da justiça a sangue frio, com as próprias mãos. E os mesmos botões, ainda inquietos, completam: os ricos não são violentos? Eles reclamam da violência dos bancos? Da violência do salário das empregadas? A das grandes empresas? Da propaganda? Das novelas? Das BMW’s indiferentes nos semáforos? Dos Rolex? E quem é que reclama mais da violência da fome? Os ricos ou os pobres?

O mais interessante dessas recorrentes discussões inflamadas sobre segurança pública é que se ouve constantemente que os ricos têm o direito de o ser – e têm mesmo, mas o que nunca se entende é que os pobres têm direito, pelo menos, de ser gente.

O FALSO HERÓI

Até onde se sabe, o apresentador-vítima não registrou queixa do roubo à delegacia mais próxima (situada, inclusive, na mesma rua onde ocorreu o crime). O que Huck, o destemido mártir da segurança, talvez não compreenda é que, sem Boletim de Ocorrência, o crime do qual foi vítima não existe oficialmente. Por que insiste ele, então, em cobrar ação efetiva da polícia e das autoridades, se transmite comportamento tão inseguro? Tudo bem que, como ele próprio já disse, não está preocupado com o relógio e sim com o alerta a ser passado, mas é noção básica de cidadania que, para que os agentes de segurança funcionem da melhor maneira possível, é preciso colaboração da sociedade da qual Huck presume que faz parte.

2 comentários:

Isabela disse...

O discurso do "Alguém precisa fazer alguma coisa, mas não eu" me enoja. Se vc achou essas matérias grotescas, veja esta: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff0710200726.htm
(a senha vc sabe, né? =D)
Admiro como vc conseguiu organizar suas idéias nesse texto sem despejar bile e mandar todo mundo tomar no cu.

Marcos disse...

Quem poderá nos defender ???

SUPER CAPITÃO NASCIMENTO...APAREÇA!

Parabéns pelo texto !!!