quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Amigo secreto

Consideram-me, não sem alguma razão, rabugento daqueles incorrigíveis. “Crespo, tome cuidado, você está ficando ranzinza demais”, alertam-me alguns dos amigos mais próximos. Preocupo-me. Será mesmo verdade? Não sei, mas, falando em amigos, este final de ano evoca-me questão antiga e perturbadora: há coisa mais idiota que o tradicional amigo-secreto?

Não quero estragar o prazer de ninguém, não, mas convenhamos: é preciso acabar com esse tipo de confraternização fajuta, com essa bobagem disfarçada de alegria, surpresa e comoção ao mesmo tempo. Se o Natal já é estúpido por si só, o amigo-secreto é o seu apêndice prestes a estuporar. Digno de náuseas e todos os tipos de desconforto. Não dá certo, não adianta. Qual é o sentido, afinal, do amigo-secreto? Por que uma amizade deve ser sigilosa? Parece-me, isto sim, expressão perspicaz inventada para minimizar despudores e deturpada ao longo do tempo, conforme conveniência dos festejos comerciais. Na acepção correta, porém, seria assim: o Gontijo é o amigo secreto do Renan. O Marcos Valério, dos partidos espertalhões. O Ricardão, da mulher do corno. E por aí vai...

Seja como for, quando pequeno, confesso, adorava e aguardava com ansiedade incontida o amigo-secreto lá de casa. Sobretudo, talvez, porque não participava dele – as crianças tinham direito a ganhar presentes de todos e só participariam do grande evento quando fossem adultas e ganhassem o próprio dinheiro. Por alguns males que vieram para este bem, não há mais amigo-secreto na família. Mas não importa: que eu gostava, ah, eu gostava. Eu e meu irmão nos sentíamos importantes porque todos nos confiavam os nomes de seus papeizinhos, sob a condição óbvia e desafiadora de mantermos segredo até o dia da troca de presentes. Hoje, pensando bem, não tinha graça nenhuma assistir todo ano às mesmas coisas: os amigos que já se haviam desvendado antes e fingiam ali estar surpresos ao ganhar um presente que eles próprios haviam escolhido; os tios que, metidos a espertos, descreviam a pessoa oculta com as características inversas, como “o meu amigo secreto é mulher, baixinha, cabeluda e”... era óbvio que se tratava do primo alto e careca; e, entre tantas outras gracinhas repetidas à exaustão, tinha também o episódio daquele que sorteava a sogra e contava uma piada inédita e muito engraçada, do tipo “se sogra fosse bom, a gente não teria só uma”. A grande verdade, porém, é que, pelo menos na hora, todo mundo se divertia. Até eu.

Lembro-me também quando, mais tarde, nos meados da faculdade, classifiquei como "hipócrita" o amigo-secreto da turma a alguns minutos de seu início. Fui repreendido com veemência que me fez, por algum tempo, acreditar que eu estava sendo duro demais com o pessoal. Quase fui agredido. Estraguei a festa, mas revelei-me um profeta: hoje, menos de um ano depois da formatura, não é segredo pra ninguém que metade da classe não se atura e não faz a mínima questão de se encontrar para lembrar dos bons tempos passados. A outra metade não se conhece.

Memórias à parte, dediquemo-nos aos detalhes da celebração em si: de uma hora pra outra, você se vê diante de um monte de gente – tão constrangida quanto você por estar ali, improvisa um discursinho sem graça e, enquanto isso, todo mundo te olha e pensa “fala logo, babaca, eu tenho mais o que fazer”. Ou nem todo mundo: quem já ficou livre e está com o presente em mãos, por sua vez, sequer nota o prosseguimento daquele encontro inesquecível. Vale dizer: quanto mais você tenta ser engraçado, menos você consegue. É inevitável. Mas não se importe; não há saída alguma. Simplesmente não há como proceder em situação de amigo-secreto de um jeito que não seja o mais tosco possível.

Além de tudo disso, é lei: ou você vai dar ou vai receber o presente de alguém que não gosta. E não minta, você não gosta de todo mundo. Se conseguir passar por essa (eu duvido, mas vá lá), atenção, é inescapável: o presente será um problema. Para dar e para receber. É a pior parte da história, por incrível que pareça. Nunca ganhei algo legal num amigo-secreto, à exceção de uma bola do Corinthians que furou na lança do portão de casa dois chutes depois do início de sua partida de estréia. Desconfio que talvez seja esse o meu trauma, mas é fato que, se dar presente já é difícil, dar presente de amigo-secreto é impossível -- principalmente quando o preço-limite é R$15,00.


Outras situações inexplicáveis são aquelas em que ninguém é amigo, mas todos fazem questão de realizar um amigo-secreto, como aqueles de empresa ou, pior ainda, os de excursão. Neste último caso, às vezes o amigo é tão secreto, mas tão secreto, que você realmente nem o conhece. Faz parte da integração forjada a que todos somos submetidos nessas viagens guiadas por estagiários de acampamento de férias. Não dá certo, não adianta.

Nem é prepotência minha, mas aposto um presente de R$15,00 que você se enxergou em algum momento desta reflexão. Não precisa contar, guarde pra você. Mas sugiro que aproveite este momento, enquanto ainda há chance para desistência, e... DESISTA. Diga aos outros que você estava tão animado(a) com o clima da brincadeira que, para ninguém desvendar o mistério antes da hora, você engoliu o seu papelzinho e acabou esquecendo o nome do seu felizardo. Você acabará com tudo e, portanto, prestará um bem coletivo.

Se um dia, aliás, eu for o seu tal amigo secreto, não se revele em hipótese alguma. Nunca. Guarde pra você. Fique com o papelzinho e com o presente, mas não seja idiota.

Conselho de amigo.