domingo, 23 de novembro de 2008

Síntese II

Tristeza é a solidão numa janela de fast food.

sábado, 8 de novembro de 2008

dois l

Um convite
Um sonho
E um beijo escondido

As mãos dadas
A espera
E o desejo contido

O chamado
O sorriso
O amor revelado

Uma vida
Uma história
Um abraço apertado

Um acaso
Um destino
Um caminho qualquer

A menina
A paixão
A primeira mulher

Companhia pensada na beira do rio
Daniella, um ardor que jamais existiu

Pétalas d’uma flor sem nenhum espinho
Daniella, vinte e dois versos de alegria e carinho

sábado, 1 de novembro de 2008

Síntese

Felicidade é dizer uma coisa bonita quando em desamor.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Lá maior

Sentou-se ao piano e, embevecido pelo que não sabia o que era, desejou compor a canção mais bonita. Esquecera-se, porém, que não tocava piano, que jamais tocara mais do que três notas decoradas em toda a vida. Lembrou-se, pois, sem culpa alguma, que era violão o seu instrumento de prática. Buscou-o sem delongas, mas, ao descobri-lo do meio do pó, soube que não havia nele a batida de sua nota favorita.

Percebeu-se sozinho, mais do que nunca, e sua tristeza calou para sempre a canção mais bonita.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

À demain

Chora não, amor
Pois se é de vento que se faz destino
Quem sabe noutro sopro
Nosso encontro seja bom

Perdoa e só
Se te fiz crer que nossa vida era pra sempre
Mas o pra sempre
Até amanhã
É nunca mais

Pensa bem
Nossa vaidade já chegou ao fim
Mas este fim
Até amanhã
É só o começo
Do quê, eu não sei

Quem sabe, então, me diz
Foi Deus quem me enganou
Ou só fui eu que me entreguei?

Perdoa, tive de remar bastante
E nalgum mar distante
Sem riso ou maldade
Ancorar a dor
Neste velho porto
Chamado saudade

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Samba desmusicado

Não sei de mais amor
Amor demais, não sei
Se bem me quer
Se tanto faz
Pois tanto foi
Pois se o que é
Se já não foi
Me chama aqui, me diz um oi

Cuíca na sala da dinda sumiu
Ai, ai, meu samba ninguém viu

Batuque na casa do bamba morreu
Lugar-comum é santo meu

Lugar-comum é santo meu

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

De mãos dadas

Tocou a janela, dentro e só, como se pudesse sentir seu rosto e, mais do que isso, como se pudesse lhe pedir pra ficar um tantinho mais. Do outro lado dos ares, tão pequeno, olhou para baixo como se conseguisse enxergá-la sorrindo seu riso mais amoroso. Ambos lacrimejaram – em complexa harmonia entre felicidade e tristeza nos rostos de cada um.

No caminhar mesmo distante, seguiam de mãos dadas sem que precisassem sequer esticar os braços. Voltariam, afinal, àquele mesmo lugar.

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Aquele abraço

- Mão na cabeça, filha da puta! Na ca-be-ça!

Pálido e silencioso, com a boca torta de medo e tristeza, já estava rendido há tempos. Ainda assim, e embora bem maior que os dois bandidos juntos, se negou a obedecê-los.

- A escolha foi sua, mermão. Aquele abraço!

E foi alvejado pelos tiros que diariamente matavam também seus filhos. Continuou de pé, com os braços abertos em perpendicularidade exata ao tronco, norteando leste e oeste. Mas ficou cego para sempre.

O redentor, até ele sucumbira.

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Os cinco centavos

Não é desta segunda-feira que tenho o desgostoso hábito de reparar diariamente em atitudes que revelam a intolerância humana no cotidiano. O leitor menos atento a este mal provavelmente dirá, depois da história a seguir, que sou um entusiasta balzaquiano, um romântico a delirar com um bem que nunca existiu. Mas ele existe. Ainda.

No estresse de uma cidade como São Paulo, não é novidade alguma – nem aos menos atentos, que seja bastante propício o desaparecimento gradual de todo e qualquer sinal de solidariedade entre semelhantes. Principalmente quando se trata de trânsito parado e ônibus cheio. Mas, por ora, vale destacar a exceção e deixar a regra de lado.

Avesso a modernidades como o tal bilhete único, recorro todos os dias às simpáticas moedinhas e às tradicionais notas sujas e amassadas com algum escrito profético atrás. Hoje, na volta pra casa, tirei minha nota de cinco reais do bolso e o cobrador imediatamente lamentou a falta de troco. “Então só vou ter dois e vinte e cinco”, repliquei. Faltariam cinco centavos. Tudo bem, disse o cobrador. Ao que recuei da catraca para juntar a nova quantia, percebi, de canto de olho, uma mão estendida em minha direção. Demorei um pouco a olhar, mas a mão seguia esticada. “Tome cá”, disse-me a moça não tão nova, mas alguém a quem ainda não se pode chamar de senhora. Eram os cinco centavos. Sorri, disse um “obrigado” surpreso e tímido, mas espontaneamente alegre. Ela também sorriu, disse que havia achado a moeda no chão, e saiu andando ao fundo do corredor.

Parecia simples, a moça não tão nova. Aquele dinheiro, claro, não lhe faria mais ou menos abastada – mesmo porque, como a própria assumira, era um dinheiro que não era dela. Tampouco a mim impediria o pagamento da passagem, já que o cobrador concordara em receber meus dois e vinte e cinco. Mas passei a catraca mais feliz – e assim continuei até o fim da viagem, pensando no bem que se materializara na minha frente, naquela pequena moedinha. Na gentileza pela gentileza, gratuita, sem retribuição obrigatória. Naquele dinheiro tão inválido que valia mais que, por exemplo, os milhões da falsa filantropia de celebridades que, em nome do marketing, doam dinheiro para receber o dobro depois, pela boa imagem.

Certamente nem a própria moça não tão nova se orgulhou um mínimo do feito. Nestes tempos de colapso da tolerância, contudo, sua atitude valeu muito, muito mais do que cinco centavos.

sábado, 12 de julho de 2008

De poucos amigos

Andava sozinho por medo de se perder. De poucos amigos e palavras a mais, de cara feia batia no peito de troça dos que não ele. Sem companhia também na cama e na mesa, bastava-lhe, além de si próprio, o nada em sua forma mais que perfeita. Legítimo herói de si mesmo. E olhe lá, nem isso.

No espelho, sozinho e nu, tristemente leal à verdade. Um infeliz.

quarta-feira, 12 de março de 2008

A neurótica

- Amor, tô pensando em fazer alguma coisa diferente no cabelo.
- Como assim?
- Sei lá, tingir, alisar, mudar o corte.
- Pra quê, amor? O seu cabelo é perfeito.
- Ai, como você não colabora!
- Ué...
- Eu tô afim de um new look, pô! É pra você, também, sabia?
- Mas eu gosto do seu cabelo assim, minha linda. De verdade, não tem mais bonito.
- ...
- Eu juro.
- Como você é insensível. Eu quero mudar!
- ...
- Me ajuda, ora!
- Deixa ver...
- E não é cortar três dedinhos de cabelo. Eu quero ficar diferente.
- ...
- Vai! Como você me acharia bonita?
- Assim, do jeito que está.
- !
- Que tal curtinho, então? No ombro.
- Por quê?!
- Ficaria lindo, diferente e...
- Quem é a vagabunda que usa o cabelo assim?!
- Hein?
- Acabou tudo, canalha!

domingo, 17 de fevereiro de 2008

Quando o carnaval acabar

Ensimesmado e cheio de uma esperança sem esperança alguma, o arlequim despede-se quando o dia já é claro e quente, mas nem por isso encontra quem possa lhe convidar para que fique um pouco mais ou que, ao menos, lhe diga adeus, obrigado. Os sinos do carnaval já há muito cessaram suas badaladas, mas ele espera ansiosa e pacientemente que o último eco ressoe para perto de si. Afadigado e tímido, porém, procura não querer saber se em vão. Por via de todas as dúvidas, ignora a quaresma na certeza de que, dali em diante, jejum não lhe faltará por pelo menos mais que o dobro daquele tempo cristão.

Traja, tristonho, losangos apenas em branco e preto. Quando o carnaval acabar, afinal, nada mais lhe haverá de ser colorido. No pé que outrora se prestou somente ao samba, não lhe faltam mais calos para os velhos passos sem rumo e sem ritmo. Quando o carnaval acabar e a banda passar por fim, os portões da avenida estarão trancados e as baterias a acumular poeira num e noutro galpão escondidos debaixo dos viadutos cidade afora.

Em silêncio quebrado apenas pelos inoportunos e indiscretos, questiona por que só ele, por que só ele não assistiu ao fim de tudo como o fim da mais bonita de todas as festas. Meio às avessas do que sempre se ouviu dizer, a colombina, que até ali lhe oferecera mulatas a perder de vista, agora ela também lhe negava qualquer aproximação. Que se dirá, pois, de algum amor. Iludido que estava a acreditar na harmonia e na evolução dalgum enredo prescrito pelos demagogos, deixou-se pintar e bordar com a ingenuidade de um legítimo e fracassado bobo de uma corte em ruínas.

Quando o carnaval acabar, concluiu, o vento há de constipar este folião vencido. E sua escola de samba será tão somente o seu coração solitário, a batucar e recuar na mansidão de um descanso para sempre indefinido.