sexta-feira, 25 de julho de 2008

Aquele abraço

- Mão na cabeça, filha da puta! Na ca-be-ça!

Pálido e silencioso, com a boca torta de medo e tristeza, já estava rendido há tempos. Ainda assim, e embora bem maior que os dois bandidos juntos, se negou a obedecê-los.

- A escolha foi sua, mermão. Aquele abraço!

E foi alvejado pelos tiros que diariamente matavam também seus filhos. Continuou de pé, com os braços abertos em perpendicularidade exata ao tronco, norteando leste e oeste. Mas ficou cego para sempre.

O redentor, até ele sucumbira.

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Os cinco centavos

Não é desta segunda-feira que tenho o desgostoso hábito de reparar diariamente em atitudes que revelam a intolerância humana no cotidiano. O leitor menos atento a este mal provavelmente dirá, depois da história a seguir, que sou um entusiasta balzaquiano, um romântico a delirar com um bem que nunca existiu. Mas ele existe. Ainda.

No estresse de uma cidade como São Paulo, não é novidade alguma – nem aos menos atentos, que seja bastante propício o desaparecimento gradual de todo e qualquer sinal de solidariedade entre semelhantes. Principalmente quando se trata de trânsito parado e ônibus cheio. Mas, por ora, vale destacar a exceção e deixar a regra de lado.

Avesso a modernidades como o tal bilhete único, recorro todos os dias às simpáticas moedinhas e às tradicionais notas sujas e amassadas com algum escrito profético atrás. Hoje, na volta pra casa, tirei minha nota de cinco reais do bolso e o cobrador imediatamente lamentou a falta de troco. “Então só vou ter dois e vinte e cinco”, repliquei. Faltariam cinco centavos. Tudo bem, disse o cobrador. Ao que recuei da catraca para juntar a nova quantia, percebi, de canto de olho, uma mão estendida em minha direção. Demorei um pouco a olhar, mas a mão seguia esticada. “Tome cá”, disse-me a moça não tão nova, mas alguém a quem ainda não se pode chamar de senhora. Eram os cinco centavos. Sorri, disse um “obrigado” surpreso e tímido, mas espontaneamente alegre. Ela também sorriu, disse que havia achado a moeda no chão, e saiu andando ao fundo do corredor.

Parecia simples, a moça não tão nova. Aquele dinheiro, claro, não lhe faria mais ou menos abastada – mesmo porque, como a própria assumira, era um dinheiro que não era dela. Tampouco a mim impediria o pagamento da passagem, já que o cobrador concordara em receber meus dois e vinte e cinco. Mas passei a catraca mais feliz – e assim continuei até o fim da viagem, pensando no bem que se materializara na minha frente, naquela pequena moedinha. Na gentileza pela gentileza, gratuita, sem retribuição obrigatória. Naquele dinheiro tão inválido que valia mais que, por exemplo, os milhões da falsa filantropia de celebridades que, em nome do marketing, doam dinheiro para receber o dobro depois, pela boa imagem.

Certamente nem a própria moça não tão nova se orgulhou um mínimo do feito. Nestes tempos de colapso da tolerância, contudo, sua atitude valeu muito, muito mais do que cinco centavos.

sábado, 12 de julho de 2008

De poucos amigos

Andava sozinho por medo de se perder. De poucos amigos e palavras a mais, de cara feia batia no peito de troça dos que não ele. Sem companhia também na cama e na mesa, bastava-lhe, além de si próprio, o nada em sua forma mais que perfeita. Legítimo herói de si mesmo. E olhe lá, nem isso.

No espelho, sozinho e nu, tristemente leal à verdade. Um infeliz.