segunda-feira, 14 de julho de 2008

Os cinco centavos

Não é desta segunda-feira que tenho o desgostoso hábito de reparar diariamente em atitudes que revelam a intolerância humana no cotidiano. O leitor menos atento a este mal provavelmente dirá, depois da história a seguir, que sou um entusiasta balzaquiano, um romântico a delirar com um bem que nunca existiu. Mas ele existe. Ainda.

No estresse de uma cidade como São Paulo, não é novidade alguma – nem aos menos atentos, que seja bastante propício o desaparecimento gradual de todo e qualquer sinal de solidariedade entre semelhantes. Principalmente quando se trata de trânsito parado e ônibus cheio. Mas, por ora, vale destacar a exceção e deixar a regra de lado.

Avesso a modernidades como o tal bilhete único, recorro todos os dias às simpáticas moedinhas e às tradicionais notas sujas e amassadas com algum escrito profético atrás. Hoje, na volta pra casa, tirei minha nota de cinco reais do bolso e o cobrador imediatamente lamentou a falta de troco. “Então só vou ter dois e vinte e cinco”, repliquei. Faltariam cinco centavos. Tudo bem, disse o cobrador. Ao que recuei da catraca para juntar a nova quantia, percebi, de canto de olho, uma mão estendida em minha direção. Demorei um pouco a olhar, mas a mão seguia esticada. “Tome cá”, disse-me a moça não tão nova, mas alguém a quem ainda não se pode chamar de senhora. Eram os cinco centavos. Sorri, disse um “obrigado” surpreso e tímido, mas espontaneamente alegre. Ela também sorriu, disse que havia achado a moeda no chão, e saiu andando ao fundo do corredor.

Parecia simples, a moça não tão nova. Aquele dinheiro, claro, não lhe faria mais ou menos abastada – mesmo porque, como a própria assumira, era um dinheiro que não era dela. Tampouco a mim impediria o pagamento da passagem, já que o cobrador concordara em receber meus dois e vinte e cinco. Mas passei a catraca mais feliz – e assim continuei até o fim da viagem, pensando no bem que se materializara na minha frente, naquela pequena moedinha. Na gentileza pela gentileza, gratuita, sem retribuição obrigatória. Naquele dinheiro tão inválido que valia mais que, por exemplo, os milhões da falsa filantropia de celebridades que, em nome do marketing, doam dinheiro para receber o dobro depois, pela boa imagem.

Certamente nem a própria moça não tão nova se orgulhou um mínimo do feito. Nestes tempos de colapso da tolerância, contudo, sua atitude valeu muito, muito mais do que cinco centavos.

9 comentários:

Anônimo disse...

Aeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee
CRESPÃO já está direcionando seus dotes da escrita para o lado político!!!
CRESPÃO, o futuro presidente da Nação!! 2010 na veia!!!!!!!!!!!!!
Presidente, to gostando de seus escritos. Têm cara de jornalista famoso e ninguem imagina que é do futuro presidente.
Estou em meu pobre micro computador salvando todos para um dia postar e quem sabe até escrever sua biografia!
Aeeeeeeeeeeeeeeeeeee
CRESPÃO Presidente pro Brasil ir pra frente!!!!
Viva Viva Viva!!!!!!!!!!!!!!!!!

xande disse...

Thíti, meu caro jornalista-sem-um-puto-no-bolso... ou melhor, sem cinco centavos no bolso!

Que belo texto: simples na forma e na linguagem, porém cheio de uma poética que (de)marca o indivíduo fragmentado e urbanóide e sua estupefatação diante das coisas simples e naturais.

Me lembrou bastante Clarice. Não preciso dizer mais nada.

Abraços alexandrinos.

Anônimo disse...

CRESPÃO, o ómi do povão....
Aeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeee
Viva! Viva! Viva!

Anônimo disse...

falando em Alexandrinos, viva alexandrina também, eita cidadão.

MSalete disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
MSalete disse...

Só a SENSIBILIDADE (de poucos)faz notar PEQUENAS atitudes que fazem a diferença.
BEIJO

Marcos disse...

Amigo jornalista, guardadas as devidas proporções, seu texto me faz lembrar as crônicas de Ivan Ângelo e Walcyr Carrasco, em coluna na Veja São Paulo; preciso na concatenação das idéias e rico em seu conteúdo!

Para quem vem de cidade do interior paulista (onde se presume impera a solidariedade entre os moradores), fico feliz por você registrar com preciosidade e sutileza ímpares tal acontecimento na megalópole, prova de que nem tudo está perdido na "Terra da Garoa"

Parabéns e grato por dar esta oportunidade à minha/nossa cidade !!!

ET: Esta situação poderia se dar em qualquer cidade, quem sabe até a julgássemos dentro de uma certa naturalidade, mas ao acontecer na megalópole a conotação tem outra dimensão.

Danilo disse...

Coisa linda pequeno!

Helen Valverde disse...

Belo texto, companheiro-jornalista-canceriano! :)