domingo, 29 de novembro de 2009

Uma tarde qualquer

A bandeira que tremula ao fundo das árvores de todos os verdes não é a do seu lugar. O parque está repleto de pessoas e pássaros, mas ele não fala a língua dos primeiros e tampouco tem as asas dos segundos. E a despeito de tudo lhe parecer estranho, ele está em casa. Abre um riso de contentamento com o sol que veio depois da manhã chuvosa, mas o sol vai embora tão logo, como que para não reluzir seu sorriso.

Quando percebe estar carregado de inveja do toque dos lábios de um casal na floreira à frente, sente dó de si mesmo. Não havia uma semana fora indagado por que não podiam ser felizes com a mesma facilidade dos outros. Porque amor que é fácil não dura tanto, respondera, ainda que não acreditasse naquilo.

Não lhe bastasse a ausência do suave calor de minutos atrás, agora também o vento assobiava gelado. Antes que se protegesse, sentiu a garoa típica e incômoda lhe umedecendo os cabelos ralos e o rascunho melancólico no caderno onde nem ali o sol estava a lhe sorrir no papel. Olhou para os lados, não reconheceu a alegria em canto algum. Os costumeiros pingos afastaram as pessoas, os pássaros e a caneta dos rabiscos agora borrados.

Mas ele ficou ali, a tentar encontrar algo novo numa tarde qualquer.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Lisbela despedaçada

Da flor que fizera brotar o primeiro beijo, só restavam pétalas pálidas e ressequidas. Do poema escrito no velho porto, nenhuma rima – mas tão somente, proféticos e esparsos, os versos de pessimismo e desamor. Do vento a desabrochar destino, apenas o sopro manso da indiferença. Da janta, restaram os pratos vazios. Do café cremoso com chocolate, os grânulos cristalizados que não se dissolveram. Do perfume abaunilhado, o gosto amargo do beijo mais íntimo. Do pecado, a culpa vã.

Dos passeios sem rumo, só ficou o sinal vermelho pelo caminho. Da cidade grande, medo e solidão. Do pequeno canto no qual se engalfinhavam em gemidos e estalos, portas e vidros fechados. Da vontade incessante de querer sempre mais, saudades. É, saudades de querer sempre mais. Da primeira noite de amor, o medo de se arrepender na manhã seguinte. Da última, a tristeza e o alívio em dizer adeus.

Da música descoberta, o refrão fastiento. Da beleza singela, a pequena bobagem. Dos amigos, ficou a amizade. Da paixão também. Do mar, ficou o sertão. E do sertão ficou o mar. Do passado, nenhuma história. Do presente, um embrulho sem laço. Do futuro, exatamente aquilo a que haviam se proposto desde antes da flor que fizera brotar o primeiro beijo: absolutamente nada.

Tudo havia mudado, como tinha mesmo de mudar.

domingo, 13 de setembro de 2009

Capuleto e a flor

Não se sabiam até o breve instante em que seus horizontes ao acaso se cruzaram. Ainda que mergulhados na aflição costumeira do pequeno canto que os acolhia, seus olhos não disfarçaram o estranhamento bom ao se encontrarem, como se tão logo já se quisessem.

Era apenas a primeira de muito poucas vezes pressupostas pra depois e, pensando nisso, ele já quis saber quem era, de onde vinha, por que chegara tão tarde. Só não quis saber seu nome, pois de logo cedo tomou por hábito chamá-la minha Capuleto. Gostava de se encantar, todas as tardes, com a fragilidade quieta – ou a quietude frágil, tanto faz – da moça que tinha o espontâneo costume de ficar rubra ao capcioso toque de qualquer gracejo. Besta, era tudo que ela respondia quando provocada, meio sem jeito, meio de um jeito tão só dela. E se ficava assim, só não estava claro aos cegos e surdos que estava ela também gostando de se encantar com ele. Depois dos olhares buscados, mas fingidamente casuais como havia sido o primeiro, vieram as insinuações em forma de meias palavras. E tão logo já se queriam, como diz a canção, sem mais la-ra-ra-rá.

Achava-o bonitinho, ela. Ele, a mulher da sua vida. Ao que numa dessas tardes sem respiro, em pleno pequeno canto que os acolhia, brotou das mãos do menino uma flor de improviso e os dizeres por pouco não precipitados: amor à primeira vista, afinal, é quando, por acaso ou destino, se encontra de novo alguém e o coração dispara exatamente como antes? Besta, respondeu sua Capuleto. E embora o diálogo supusesse qualquer dissonância entre os dois, o tom poético de um lado e a aspereza dissilábica de outro significavam a mesma coisa; todo o resumo de horizontes e flertes em palavras cifradas, então, haveria de ser consumado sem mais palavra alguma. Não fosse o assombro, fosse por Deus ou pelo diabo, de que não se podiam. Era de seu destino ser um Montecchio, consternou-se o romântico pequeno, já que é de todo sacramento deste mundo a contradição.

Inertes sobre o tórrido suceder dalguns poucos minutos, desfizeram-se em mudez que em nada lembrava o calor de outrora. Desmancharam, à tona da severa realidade, os sonhos desenhados apenas dentro de cada um dos dois, na esperança recíproca de que rabiscavam no mesmo tom. Desejariam a morte, se lhes fosse a morte permitida assim tão facilmente, mas supunham ser prematuro demais sequer buscar um final feliz. Permitiram, então, tímidos e desajeitados, sem mesmo que seus corpos se tocassem do rosto para baixo, o breve encontro dos lábios – trêmulos e secos. E na candura do primeiro beijo, reencontraram os seus afins e os seus porquês. Do segundo em diante, sem qualquer medo ou maldade, já saracoteavam as mãos sobre os respectivos corpos afoitos e lépidos, esquecendo-se, nalgum instante, que o seu prazer nascera condenado a ser passageiro.

Mas, de tudo o que haviam desconcertado, os tabus, a moral, os conselhos da catequista, só não desconcertaram o cumprimento do vaticínio que agora se punha diante de ambos com a sutileza de um tufão tropical: seriam poucas as suas vezes ali, naquele pequeno canto que os acolhia. O que era depois tornara-se agora. Ela deixou o perfume. Ele, o sorriso. Dos dois, ficou a música em fá que ela ouvia todos os dias e ele tocava no violão. Desprenderam as mãos, ele se foi. Ela ficou. Ambos sem entender o que se passara, mas com a certeza de que não saber o que sentir já era, afinal, sentir alguma coisa.




terça-feira, 28 de julho de 2009

A libanesa

Reencontrei-a. Reencontrei-a e, junto dela, os meus sentimentos mais platônicos, o meu amor mais infantil. Todas as lembranças resolutas naquele tempo que não existira para nós dois. Depois de alguns anos, de nossas juventudes distantes, surgimo-nos um pouco mais vividos, mesmo que a inocência deste novo primeiro momento tenha sido a mesma dos tempos de férias no litoral. Encanto-me exatamente como da primeira vez, embora algum ceticismo me inquiete: ainda mais linda ou meras saudades?

O toque dos rostos se desfez num cumprimento bastante breve, tímido até demais. Quanto tempo e, depois de tanto tempo, seria possível abraçá-la com alguma fração da intensidade desejada? Não seria. O restante da família se pôs em seqüência para que o reencontro se desse também com eles, ao que percebo que meu tom cortês, quiçá ensaiado, soou uníssono e sem expressão a todos – inclusive ela.

No decorrer de uma noite deveras cálida e, para mim, ansiosa, arriscamos longa conversa, como daquelas poucas em tempos que já não sei se ainda vivem na memória dela também. Temos muito a contar. Mas, enquanto ela fala, emudeço. Reparo na pureza dos olhos que resistiram à maldade da guerra, nos lábios intactos, quem sabe à espera contida pelo meu beijo covarde que nunca viera. Ainda intocada, tenho certeza. O que antes, contudo, era proibido pela quase-infância cercada de educação severa, agora se mantinha tabu pelo caminho tomado depois do desencontro. Do rosto de nascença amorenado resgato a promessa de que viveria até vê-la que fosse ao menos mais uma vez. E estamos ali, enfim; ambos dedicados a tantos outros planos que não o casamento sonhado e prometido na memória dalgum velho patrício. A menina, outrora paixão de uma juventude febril, agora se recompunha numa donzela cheia de planos e dona de si. Minha declaração, outrora rasgada num poema a ser musicado, agora se desmanchava na tentativa de parecer menos romântico e ser maduro à sua altura.

O poema. Desperto-me do silêncio quase letárgico: ainda cantava? Sem jeito, sorriu. Em disfarce, retrucou: E já cantei? A esse gracejo, não resisti; retomei o pedaço de papel rasgado. Aquela poesia sem acordes era a mostra de um carinho que eu sempre tivera medo de demonstrar, mas que já dizia de nossos encontros esparsos, incertos e confusos. De sua simbiose entre a menina e a mulher. Naqueles tempos, mais a primeira. Naquela noite, bem mais a segunda. Aquela música sem melodia, que meu violão fora incapaz de cifrar anos atrás, agora soava nítida na batida acelerada do coração.

Depois de algumas doces tragadas do arguile emprestado do patriarca e dos barazeks deliciosamente preparados por titia, constatei que o encontro seria tão breve quanto nosso estalar de rostos. Ela partiria, mais uma vez (sem mim). Quando nos aproximamos para a despedida, toda a cumplicidade encontrada no passar da noite se desfez. Acenamos um tchau de estranhamento e frieza que em nada compreendi. Certo é que não se tratava de mais um mero disfarce perante os outros, porque talvez mesmo eles estivessem esperando a escritura do destino quando permitiram que ficássemos juntos e, à medida do possível, sozinhos desde o início.

Quando ela deu as costas, enxerguei na fresta da porta a se fechar a última chance de encontro dos nossos olhos – e pretendi perguntar, apenas com o meu silêncio, se o destino se descumpriria ou se poderia esperá-la por qualquer tempo que fosse preciso. Ao desconceber este último olhar, porém, ela calou fundo – e para sempre – o amor sobre o qual jamais ninguém tivera notícias. Nem mesmo ela, a libanesa.

sábado, 13 de junho de 2009

desalinhado

Chorou, mas era de felicidade
Sorriu, mas era de saudade
Amou, mas era de verdade

Das poucas de suas virtudes, era à contradição que mais se apegava.

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Sobre o amor de Julieta

Amsterdam, 16th April

Tivesse durado menos, não lograria o prazer de ser proibido. Tivesse durado mais e deixaria extinta a sensação da primeira vista.



sábado, 28 de março de 2009

A caixinha

O menor livro do mundo, quatro pétalas de rosa e uma carta de amor. Era disso que se compunha a caixinha. O primeiro, embora pequenino, guardava consigo a revolução. As flores, embora já secas, rememoravam o primeiro dia depois das mãos desprendidas (e a quantidade, os anos das mãos sempre unidas). O escrito, ainda que de improviso, saíra na cadência perfeita entre palavras muito bem escolhidas e vírgulas que sabiam pausar o recado a cada vez que ele tinha de derramar uma lágrima.

O cuidado era tanto que a caixinha bem sabia ser simples. Ela sabia, afinal, que, não de agora, toda a beleza repousava na simplicidade. Fosse nas antigas lições de Ernesto, no aroma perdido das rosas vermelhas ou na poesia cotidiana escrita a suaves mãos, reconhecia a leveza da felicidade.

Era uma caixinha que, de tão pequena, cabia no coração mais apertado.

domingo, 8 de março de 2009

Perfeição

Sob o manto mais certo, diante do bando de loucos mais certo. Na hora e no local mais certos, contra o adversário mais certo.

Repleta de bem e de mal, a história se resume na superação. E que superação!

O Corinthians empatou. Ronaldo, mais uma vez, venceu.

domingo, 25 de janeiro de 2009

Crônica da cidade grande

Os homens apertam seus passos as crianças os seguem os ônibus bufam os carros restrugem as motos se agitam os ciclistas costuram o metrô voa baixo as faxineiras sacodem os skatistas deslizam os vôos não cessam os pedestres se esbarram os turistas se apressam os patrões se estressam os empregados se assustam a polícia acelera os ambulantes disparam os caminhões atravessam a chuva é dilúvio o jornal é ao vivo o padeiro sucede as fornadas o garçom equilibra as bandejas e os ponteiros não dizem as horas.

Tudo é bem rápido, menos a vida.

A vida pára.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Velho menino

Debruçado sobre o mesmo piano da infância, o menino sonha ser Paul Mccartney. Sozinho, ele é. Porta e janela do quarto frio e à meia luz estão cerradas, e ele não precisa de mais do que cinco acordes para ser a pessoa mais feliz do mundo.

Do lado de fora, a mãe o chama com insistência para o almoço; o pai o convida para um passeio com a nova motocicleta. Mas ele não ouve nada senão Here Today – tão mais bonita em suas próprias mãos, embora ele rejeite essa possibilidade. Não há fome, não há chance de qualquer aventura. Basta-lhe a música. E Here Today o devolve o amigo distante.

No porta-retrato do criado-mudo, quatro rapazes atravessam a rua com a tranqüilidade e a postura de quem sabe onde vai chegar. Eles não olham para a câmera e tampouco a rua parece a rua do menino, mas há uma cumplicidade qualquer entre a fotografia e o pequeno artista. Na estante acima da cama, guarda ainda as lembranças de seu primeiro amor; várias e repetidas vezes Agatha Christie.

Quando está entediado e os dedos já não respondem à pressa das teclas, o menino se levanta e abre o guarda-roupa à procura de um vinil adequado, dentre tantos os de sua coleção. Seus amigos colecionam gibis, mas ele prefere os discos de uma época que não é a sua.

Os cabelos, de repente, tocam os ombros, e a barba já desenha o contorno do rosto. O tempo passou, mas ele ficou ali. No piano, no quarto frio e à meia luz. Agora também tem uma bateria improvisada e um violão dispondo de cinco cordas. Está tudo bem, ele só está se divertindo um pouco. Passam os professores, os presidentes, mas o menino não passa por eles. Desconhece-os, ignora-os com a soberba de um mestre. Alheio ao jornal, faz com que um dia na vida seja muito mais do que uma porção de notícias tristes. Um dia na vida, para o menino, é uma bela e estridente canção.

Entre um pedaço de queijo fino e algumas garrafas de um vinho Lambrusco, os cigarros de menta. A fumaça consome as cortinas e as paredes do quarto fechado. Agora há também Van Gogh ao lado da foto dos quatro rapazes. Os cigarros encobrem as cores da noite estrelada. E quando os dedos já não demonstram a mesma paciência com o piano, o menino esboça rabiscos em formas distintas. Distante da simetria das coisas, conserva o segredo de sua própria serenidade debaixo da língua.

Amando, procura os acordes perfeitos para o amor. Agora, entretanto, ele não liga mais para Agatha. A mulher tomou forma que não a de um livro, espaço que não o de uma estante acima da cama. Composições e pinturas se mantêm escondidas. Algumas, para sempre. No lixo. Enquanto apaga os cigarros, repensa na melodia e nas cores. Não apaga, contudo, o seu porquê de estar ali sentado há tanto tempo. Aquele que há de sempre guardar consigo.

À medida que o tempo passa e o menino fica mais velho, o velho se torna, debruçado sobre o piano da infância, cada vez mais menino.