domingo, 25 de janeiro de 2009

Crônica da cidade grande

Os homens apertam seus passos as crianças os seguem os ônibus bufam os carros restrugem as motos se agitam os ciclistas costuram o metrô voa baixo as faxineiras sacodem os skatistas deslizam os vôos não cessam os pedestres se esbarram os turistas se apressam os patrões se estressam os empregados se assustam a polícia acelera os ambulantes disparam os caminhões atravessam a chuva é dilúvio o jornal é ao vivo o padeiro sucede as fornadas o garçom equilibra as bandejas e os ponteiros não dizem as horas.

Tudo é bem rápido, menos a vida.

A vida pára.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Velho menino

Debruçado sobre o mesmo piano da infância, o menino sonha ser Paul Mccartney. Sozinho, ele é. Porta e janela do quarto frio e à meia luz estão cerradas, e ele não precisa de mais do que cinco acordes para ser a pessoa mais feliz do mundo.

Do lado de fora, a mãe o chama com insistência para o almoço; o pai o convida para um passeio com a nova motocicleta. Mas ele não ouve nada senão Here Today – tão mais bonita em suas próprias mãos, embora ele rejeite essa possibilidade. Não há fome, não há chance de qualquer aventura. Basta-lhe a música. E Here Today o devolve o amigo distante.

No porta-retrato do criado-mudo, quatro rapazes atravessam a rua com a tranqüilidade e a postura de quem sabe onde vai chegar. Eles não olham para a câmera e tampouco a rua parece a rua do menino, mas há uma cumplicidade qualquer entre a fotografia e o pequeno artista. Na estante acima da cama, guarda ainda as lembranças de seu primeiro amor; várias e repetidas vezes Agatha Christie.

Quando está entediado e os dedos já não respondem à pressa das teclas, o menino se levanta e abre o guarda-roupa à procura de um vinil adequado, dentre tantos os de sua coleção. Seus amigos colecionam gibis, mas ele prefere os discos de uma época que não é a sua.

Os cabelos, de repente, tocam os ombros, e a barba já desenha o contorno do rosto. O tempo passou, mas ele ficou ali. No piano, no quarto frio e à meia luz. Agora também tem uma bateria improvisada e um violão dispondo de cinco cordas. Está tudo bem, ele só está se divertindo um pouco. Passam os professores, os presidentes, mas o menino não passa por eles. Desconhece-os, ignora-os com a soberba de um mestre. Alheio ao jornal, faz com que um dia na vida seja muito mais do que uma porção de notícias tristes. Um dia na vida, para o menino, é uma bela e estridente canção.

Entre um pedaço de queijo fino e algumas garrafas de um vinho Lambrusco, os cigarros de menta. A fumaça consome as cortinas e as paredes do quarto fechado. Agora há também Van Gogh ao lado da foto dos quatro rapazes. Os cigarros encobrem as cores da noite estrelada. E quando os dedos já não demonstram a mesma paciência com o piano, o menino esboça rabiscos em formas distintas. Distante da simetria das coisas, conserva o segredo de sua própria serenidade debaixo da língua.

Amando, procura os acordes perfeitos para o amor. Agora, entretanto, ele não liga mais para Agatha. A mulher tomou forma que não a de um livro, espaço que não o de uma estante acima da cama. Composições e pinturas se mantêm escondidas. Algumas, para sempre. No lixo. Enquanto apaga os cigarros, repensa na melodia e nas cores. Não apaga, contudo, o seu porquê de estar ali sentado há tanto tempo. Aquele que há de sempre guardar consigo.

À medida que o tempo passa e o menino fica mais velho, o velho se torna, debruçado sobre o piano da infância, cada vez mais menino.