terça-feira, 28 de julho de 2009

A libanesa

Reencontrei-a. Reencontrei-a e, junto dela, os meus sentimentos mais platônicos, o meu amor mais infantil. Todas as lembranças resolutas naquele tempo que não existira para nós dois. Depois de alguns anos, de nossas juventudes distantes, surgimo-nos um pouco mais vividos, mesmo que a inocência deste novo primeiro momento tenha sido a mesma dos tempos de férias no litoral. Encanto-me exatamente como da primeira vez, embora algum ceticismo me inquiete: ainda mais linda ou meras saudades?

O toque dos rostos se desfez num cumprimento bastante breve, tímido até demais. Quanto tempo e, depois de tanto tempo, seria possível abraçá-la com alguma fração da intensidade desejada? Não seria. O restante da família se pôs em seqüência para que o reencontro se desse também com eles, ao que percebo que meu tom cortês, quiçá ensaiado, soou uníssono e sem expressão a todos – inclusive ela.

No decorrer de uma noite deveras cálida e, para mim, ansiosa, arriscamos longa conversa, como daquelas poucas em tempos que já não sei se ainda vivem na memória dela também. Temos muito a contar. Mas, enquanto ela fala, emudeço. Reparo na pureza dos olhos que resistiram à maldade da guerra, nos lábios intactos, quem sabe à espera contida pelo meu beijo covarde que nunca viera. Ainda intocada, tenho certeza. O que antes, contudo, era proibido pela quase-infância cercada de educação severa, agora se mantinha tabu pelo caminho tomado depois do desencontro. Do rosto de nascença amorenado resgato a promessa de que viveria até vê-la que fosse ao menos mais uma vez. E estamos ali, enfim; ambos dedicados a tantos outros planos que não o casamento sonhado e prometido na memória dalgum velho patrício. A menina, outrora paixão de uma juventude febril, agora se recompunha numa donzela cheia de planos e dona de si. Minha declaração, outrora rasgada num poema a ser musicado, agora se desmanchava na tentativa de parecer menos romântico e ser maduro à sua altura.

O poema. Desperto-me do silêncio quase letárgico: ainda cantava? Sem jeito, sorriu. Em disfarce, retrucou: E já cantei? A esse gracejo, não resisti; retomei o pedaço de papel rasgado. Aquela poesia sem acordes era a mostra de um carinho que eu sempre tivera medo de demonstrar, mas que já dizia de nossos encontros esparsos, incertos e confusos. De sua simbiose entre a menina e a mulher. Naqueles tempos, mais a primeira. Naquela noite, bem mais a segunda. Aquela música sem melodia, que meu violão fora incapaz de cifrar anos atrás, agora soava nítida na batida acelerada do coração.

Depois de algumas doces tragadas do arguile emprestado do patriarca e dos barazeks deliciosamente preparados por titia, constatei que o encontro seria tão breve quanto nosso estalar de rostos. Ela partiria, mais uma vez (sem mim). Quando nos aproximamos para a despedida, toda a cumplicidade encontrada no passar da noite se desfez. Acenamos um tchau de estranhamento e frieza que em nada compreendi. Certo é que não se tratava de mais um mero disfarce perante os outros, porque talvez mesmo eles estivessem esperando a escritura do destino quando permitiram que ficássemos juntos e, à medida do possível, sozinhos desde o início.

Quando ela deu as costas, enxerguei na fresta da porta a se fechar a última chance de encontro dos nossos olhos – e pretendi perguntar, apenas com o meu silêncio, se o destino se descumpriria ou se poderia esperá-la por qualquer tempo que fosse preciso. Ao desconceber este último olhar, porém, ela calou fundo – e para sempre – o amor sobre o qual jamais ninguém tivera notícias. Nem mesmo ela, a libanesa.

11 comentários:

Conta irlandesa disse...

Baseada em fatos?

Amanda disse...

a msm pergunta fica no ar..

Mr. Lemos disse...

o bonito do artista é poder falar livremente, inspirado na vida como um todo, e não em situações isoladas. sou seu fã!

Mr. Lemos disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Mariana Fagundes disse...

Lindo, a esperança de amar.

Anônimo disse...

Texto fluido e maravilhoso. os outros seus que li também o são, mas este em especial.

Elaine Rodrigues disse...

Thiago, tão jovem e já grande escritor.
Parabéns pelo seu talento, por esse texto maravilhoso. Sendo ele baseado em fatos reais ou não, fiquei emocionada ao ler o que escreveu.

Helen Valverde disse...

Acho que alguns amores estão mesmo destinados a permanecerem assim, no "se"...

Suzina disse...

Um dia eu ainda quero amar tanto, a ponto de escrever um texto tão bonito... Ou pelo menos ser tão sensível para imaginar uma história tão linda!

Victor disse...

Thiago,

Um belo texto, soa como uma música triste, como um dia de inverno, regado a nostagia e à poesia que isso traz.

Parabéns!
Abraços!
Victor

dvollet disse...

A construção do texto é tão bem dosada que muito do apreço da leitura se confunde com os sentimentos do personagem em primeira pessoa.