domingo, 13 de setembro de 2009

Capuleto e a flor

Não se sabiam até o breve instante em que seus horizontes ao acaso se cruzaram. Ainda que mergulhados na aflição costumeira do pequeno canto que os acolhia, seus olhos não disfarçaram o estranhamento bom ao se encontrarem, como se tão logo já se quisessem.

Era apenas a primeira de muito poucas vezes pressupostas pra depois e, pensando nisso, ele já quis saber quem era, de onde vinha, por que chegara tão tarde. Só não quis saber seu nome, pois de logo cedo tomou por hábito chamá-la minha Capuleto. Gostava de se encantar, todas as tardes, com a fragilidade quieta – ou a quietude frágil, tanto faz – da moça que tinha o espontâneo costume de ficar rubra ao capcioso toque de qualquer gracejo. Besta, era tudo que ela respondia quando provocada, meio sem jeito, meio de um jeito tão só dela. E se ficava assim, só não estava claro aos cegos e surdos que estava ela também gostando de se encantar com ele. Depois dos olhares buscados, mas fingidamente casuais como havia sido o primeiro, vieram as insinuações em forma de meias palavras. E tão logo já se queriam, como diz a canção, sem mais la-ra-ra-rá.

Achava-o bonitinho, ela. Ele, a mulher da sua vida. Ao que numa dessas tardes sem respiro, em pleno pequeno canto que os acolhia, brotou das mãos do menino uma flor de improviso e os dizeres por pouco não precipitados: amor à primeira vista, afinal, é quando, por acaso ou destino, se encontra de novo alguém e o coração dispara exatamente como antes? Besta, respondeu sua Capuleto. E embora o diálogo supusesse qualquer dissonância entre os dois, o tom poético de um lado e a aspereza dissilábica de outro significavam a mesma coisa; todo o resumo de horizontes e flertes em palavras cifradas, então, haveria de ser consumado sem mais palavra alguma. Não fosse o assombro, fosse por Deus ou pelo diabo, de que não se podiam. Era de seu destino ser um Montecchio, consternou-se o romântico pequeno, já que é de todo sacramento deste mundo a contradição.

Inertes sobre o tórrido suceder dalguns poucos minutos, desfizeram-se em mudez que em nada lembrava o calor de outrora. Desmancharam, à tona da severa realidade, os sonhos desenhados apenas dentro de cada um dos dois, na esperança recíproca de que rabiscavam no mesmo tom. Desejariam a morte, se lhes fosse a morte permitida assim tão facilmente, mas supunham ser prematuro demais sequer buscar um final feliz. Permitiram, então, tímidos e desajeitados, sem mesmo que seus corpos se tocassem do rosto para baixo, o breve encontro dos lábios – trêmulos e secos. E na candura do primeiro beijo, reencontraram os seus afins e os seus porquês. Do segundo em diante, sem qualquer medo ou maldade, já saracoteavam as mãos sobre os respectivos corpos afoitos e lépidos, esquecendo-se, nalgum instante, que o seu prazer nascera condenado a ser passageiro.

Mas, de tudo o que haviam desconcertado, os tabus, a moral, os conselhos da catequista, só não desconcertaram o cumprimento do vaticínio que agora se punha diante de ambos com a sutileza de um tufão tropical: seriam poucas as suas vezes ali, naquele pequeno canto que os acolhia. O que era depois tornara-se agora. Ela deixou o perfume. Ele, o sorriso. Dos dois, ficou a música em fá que ela ouvia todos os dias e ele tocava no violão. Desprenderam as mãos, ele se foi. Ela ficou. Ambos sem entender o que se passara, mas com a certeza de que não saber o que sentir já era, afinal, sentir alguma coisa.