quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Lisbela despedaçada

Da flor que fizera brotar o primeiro beijo, só restavam pétalas pálidas e ressequidas. Do poema escrito no velho porto, nenhuma rima – mas tão somente, proféticos e esparsos, os versos de pessimismo e desamor. Do vento a desabrochar destino, apenas o sopro manso da indiferença. Da janta, restaram os pratos vazios. Do café cremoso com chocolate, os grânulos cristalizados que não se dissolveram. Do perfume abaunilhado, o gosto amargo do beijo mais íntimo. Do pecado, a culpa vã.

Dos passeios sem rumo, só ficou o sinal vermelho pelo caminho. Da cidade grande, medo e solidão. Do pequeno canto no qual se engalfinhavam em gemidos e estalos, portas e vidros fechados. Da vontade incessante de querer sempre mais, saudades. É, saudades de querer sempre mais. Da primeira noite de amor, o medo de se arrepender na manhã seguinte. Da última, a tristeza e o alívio em dizer adeus.

Da música descoberta, o refrão fastiento. Da beleza singela, a pequena bobagem. Dos amigos, ficou a amizade. Da paixão também. Do mar, ficou o sertão. E do sertão ficou o mar. Do passado, nenhuma história. Do presente, um embrulho sem laço. Do futuro, exatamente aquilo a que haviam se proposto desde antes da flor que fizera brotar o primeiro beijo: absolutamente nada.

Tudo havia mudado, como tinha mesmo de mudar.