sábado, 18 de setembro de 2010

Estratagema

Ainda é virgem a poetisa que beijei um dia? Não foi que te amei, menina donzela, foi que sempre guardei por ti um sentimento sublime. Que mais eu podia, ferido por teu ingênuo rimar, teu imaculado sorrir? Soubeste, sem saber que sabia, sutilmente seduzir. Agora me diga: cadê os versos que encontraste enquanto nossas línguas em contraste se procuravam? Recordo-me das tuas mãos desgarradas e do teu corpo de formas ainda tímidas a despistar calor.

É cedo, tu me negavas, mas que ninguém nos condene se foi ali que nossos olhos se insinuaram, que nossos lábios trêmulos se ofereceram. E que, posto fim ao jejum da noite estrelada, nossas bocas secas enchuveceram. Quando então acordei da embriaguez, me coloquei a duvidar de teus vestígios. Mas não foi que menti pra te roubar um beijo canalha, menina donzela, só quis provar que o teu encanto era verdade.

Se fui embora, não me rejeite. Foi pra deixar saudade.

domingo, 22 de agosto de 2010

A banalidade do voto

O que vos escreve quase nada entende de política, pouco lê tal suplemento nos jornais e sequer cumprirá com o seu direito/dever do voto nas eleições que se aproximam. Pouquíssimo entender de política, contudo, não o impede de escrever – e publicar sobre, dado que muitos de seus semelhantes o fazem sem nenhuma vergonha em páginas bastante mais lidas que este micro-blog. O artigo, além disso, é mais um desabafo ou uma provocação do que propriamente cheio daquela propriedade pedante que atinge os “especialistas” da mídia.

Ainda que estivesse no Brasil e fosse votar – e que estivesse, portanto, mais atento à campanha eleitoral, não saberia quem escolher. Porque, apesar de ter conquistado o direito há sete anos e há quatro ser graduado em uma profissão que pressupõe mais interesse no assunto, sinto-me um jovem jornalista sem muito dote para o esclarecimento político. Um analfabeto, talvez – ao que, confusos e intrigados, perguntam meus botões: Quem é José Serra? Quem é Dilma Rousseff? Por que Marina Silva, apesar de parecer mais autêntica que os dois juntos, não tem chance alguma de vitória?

Silêncio. Não encontro respostas. Não me sinto sozinho ao mendigar esclarecimento político. O noticiário oferece a mesma consistência de um pudim de maria-mole, as reportagens se confundem com as páginas policiais; o direito à informação se transforma numa fábrica de escândalos e denuncismo barato. Os debates na tevê, preteridos pelo futebol no outro canal, evocam dilema hamletiano ao denunciar a fragilidade de sua própria existência: ringues de ventríloquos maquiados pelos assessores de imagem ou picadeiro midiático para colher mais risadas dos eleitores? Vence aquele que não se mostrar nervoso diante de um ataque infundado ou aquele que em trinta segundos declamar a proposta que nada de efetivo propõe. As idéias estão mais claras nas réplicas e tréplicas que não ultrapassam um par de minutos ou nas páginas infindáveis de um plano de governo que sugere metas ambíguas, superficiais e idealistas? Quem é Serra? Quem é Dilma? Quais são as diferenças entre ambos?

O processo eleitoral brasileiro é uma farsa que tenta sobejamente esconder o esfarelamento da ideologia em prol de interesses particulares da meia dúzia de coronéis verde-amarelos. A suposta diversidade política é um pastiche de siglas que não conservam qualquer coerência com o significado e o porquê de suas respectivas fundações. A utopia da pluralidade partidária esmorece diante do abraço de Lula em Sarney e de alianças grotescas que beneficiam apenas os plutocratas, verdadeiros donos do país. Quem é Serra? Quem é Dilma? Quais são os gritos do povo que chegam ao palácio de um poder refém da bancocracia?

Não me sinto sozinho, único dono de tantas perguntas. Muitos de meus semelhantes, porém, preferem ignorar a auto-análise de seu esclarecimento político e proclamam-se cidadãos de bem, cumpridores fieis de seu papel como indivíduos na sociedade. Brasileiros. Mas quem é o principal responsável pela formação do cidadão-eleitor? A mídia, ainda que tenha seu compromisso, definitivamente não é – por um sem-número de razões que a condenam, mas que também a absolvem (e que agora não cabem aqui). As instituições educacionais, por sua vez, estão cada vez mais empenhadas em formar robôs aptos aos mecanismos do sistema do que propriamente eleitores dotados de discernimento. O ambiente familiar, não raro fragmentado e carente, pouco estimula um diálogo que vá além do passe-as-batatas durante o jantar.

De onde, então, vêm os milhões de votos que elegem nossos governantes? Da burguesia provinciana e classista, dos universitários pseudo-engajados e dos militantes alienados; dos miseráveis que ainda têm de fazer sua escolha por um prato de comida, dos filhos de classe média que herdaram um partidarismo démodé e dos internautas de primeira-viagem que navegam num mar de mentiras e desserviços, passando adiante, incrédulos (e burros), falsas verdades – escritas por falsos autores – contra este ou aquele candidato; ou daqueles que, indecisos entre lá e cá, votam no “menos pior”. Daí vêm os votos.

A despeito da tão bradada consolidação da liberdade de expressão e da avalanche de informações jamais vista, concomitante e paradoxalmente avançam a falta de liberdade e a alienação. À revelia da falta de esclarecimento político, a democracia obriga (!) o indivíduo a votar – fazendo deste ato mais um dever do que um direito. Uma obrigação que redefine menos o futuro do país e mais o horário do almoço de domingo. Mesmo que ensimesmados e condicionados por nossas crenças rasas, elegemos presidentes, governadores, senadores, debutados, prefeitos e vereadores sem que sequer os conheçamos a fundo. Sem que sequer saibamos se eles existem. Quem é Serra? Quem é Dilma?

O voto é um instrumento mal-utilizado e banal. Enquanto isso continuar assim, pouco importa quem está no poder: o Brasil será sempre o país do futuro.

quarta-feira, 31 de março de 2010

Do verbo amar

Sentiu uma dor forte no peito. O coração palpitou, assobiou, ele pensou que ia morrer ali mesmo. Respirou fundo, o ar não veio, se apoiou sobre a mesa vazia.

Era só tristeza – e o irremediável sufixo da condição de amar. Lamentou, pois, estar enganado sobre o mal súbito. Sofria de algo muito pior. Sofria de amargura.

quinta-feira, 11 de março de 2010

Fones de ouvido

Ele se estica na cama, cansado, depois do trabalho.

- Quem desplugou os fones de ouvido do meu IPod?

Ela, enrolada na toalha, sai do banheiro.

- Que tem o seu IPod?

- Os fones de ouvido. Estão desplugados.
- Mas estão junto com o aparelho.
- É, eu sei.
- Então.
- Mas quem desplugou?
- Fui eu. Por quê?
- Nada, sei lá.
- Eu só estava arrumando a casa.
- Mas precisava desplugar?
- Foi pra deixar enroladinho do lado do aparelho.
- Mas ele pode ficar enroladinho plugado.
- Muda alguma coisa pra você?
- Precisava?
- Muda alguma coisa?
- Absolutamente nada.
- Então.
- Justamente por isso.
- O quê?
- Se não muda nada, por que você tinha que desplugar?
- Isso é importante pra você?
- Não é pra mim, mas deve ser pra você.
- Pra mim?
- Se não fosse, você não teria mexido.
- Meu Deus, que drama...
- Você poderia plugar de novo, por gentileza?
- O quê?!
- Você ouviu.
- Mas é claro que eu não vou fazer isso.
- Ué, por quê?
- Faça você mesmo, você tem mãos.
- Pluga.
- Não plugo.
- Não?
- Não!
- Continue assim...
- Você está brigando comigo por causa dos fones de ouvido?
- Não. Eu só perguntei.
- Porque não gostou.
- Não gostei.
- Por que não gostou?
- Porque não tem por que desplugar.
- Mas...
- O que você pensou na hora?
- Que hora?
- Dá uma olhada.
- Onde?
- No criado-mudo.
- Hm.
- Ele parece mais arrumado?
- Ah, sei lá.
- Falei...
- Mas eu só quis ajudar!
- Ajudar a não ouvir mais música?
- Meu Deus, como você está chato.
- Não é chato. Eu só estou interessado.
- No quê?
- Desplugar um fone de ouvido pode dizer muito sobre uma pessoa.
- E o que isso diz sobre mim?
- Ainda não sei, você precisa responder algumas perguntas antes.
- Tipo?
- Tipo o que você pensou na hora de desplugar.
- Pensei que...
- Seja sincera.
- Me deixa falar!
- Diz.
- Eu pensei que você ia gostar de ver tudo arrumadinho.
- Prefiro ouvir música.
- Mas você ainda pode ouvir música.
- Mas precisarei plugar o fone de ouvido.
- Custa plugar um fone de ouvido?
- Nada. Custa deixá-lo no lugar?
- Mas ele está no lugar, cacete!
- Desplugado.
- Ai, chega, não quero mais te ouvir.
- Ponha os fones.
- Hã?
- Ponha os fones de ouvido no ouvido.
- Pra quê?
- Pra não me ouvir mais.
- Boa ideia! Você é chato, mas pensa.
- Não é?
- Dá eles aqui.
- Tó. Mas você já sabe...
- ?
- Pra não me ouvir, você vai ter de plugá-los.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Então é amor

Quantos dias passamos distantes? Quantas ideias errantes? Quantas promessas colocamos em risco? Quantos aniversários a sós? Quantas vezes choramos calados e quantas choramos juntos? Quantos beijos alheios invejamos e de quantos carinhos quantas vezes sentimos falta? Quantas vezes ouvimos que, distantes, não ia dar certo – e quantas, agora juntos, continuaremos a ouvir? Quantos espinhos trocados, perto de quantas rosas? Quantos olhares pesaram sobre nossa aliança? De quantos venenos provamos acreditando que a felicidade independia da união? Quantas risadas e mundos não-compartilhados? Quanto cinza sobre o colorido?

De quantas bobagens fizemos o fim do mundo? Mas de quantos sonhos também desenhamos o nosso futuro?

O mar, que por tanto tempo atravessou nossas mãos dadas, trouxe problemas e poemas. Os primeiros ele levou embora, para um lugar sem vida, um continente qualquer – ou quem sabe se não secaram na areia duma baía distante. E se os últimos ficaram, então, se ficaram só os poemas, então é amor.