domingo, 22 de agosto de 2010

A banalidade do voto

O que vos escreve quase nada entende de política, pouco lê tal suplemento nos jornais e sequer cumprirá com o seu direito/dever do voto nas eleições que se aproximam. Pouquíssimo entender de política, contudo, não o impede de escrever – e publicar sobre, dado que muitos de seus semelhantes o fazem sem nenhuma vergonha em páginas bastante mais lidas que este micro-blog. O artigo, além disso, é mais um desabafo ou uma provocação do que propriamente cheio daquela propriedade pedante que atinge os “especialistas” da mídia.

Ainda que estivesse no Brasil e fosse votar – e que estivesse, portanto, mais atento à campanha eleitoral, não saberia quem escolher. Porque, apesar de ter conquistado o direito há sete anos e há quatro ser graduado em uma profissão que pressupõe mais interesse no assunto, sinto-me um jovem jornalista sem muito dote para o esclarecimento político. Um analfabeto, talvez – ao que, confusos e intrigados, perguntam meus botões: Quem é José Serra? Quem é Dilma Rousseff? Por que Marina Silva, apesar de parecer mais autêntica que os dois juntos, não tem chance alguma de vitória?

Silêncio. Não encontro respostas. Não me sinto sozinho ao mendigar esclarecimento político. O noticiário oferece a mesma consistência de um pudim de maria-mole, as reportagens se confundem com as páginas policiais; o direito à informação se transforma numa fábrica de escândalos e denuncismo barato. Os debates na tevê, preteridos pelo futebol no outro canal, evocam dilema hamletiano ao denunciar a fragilidade de sua própria existência: ringues de ventríloquos maquiados pelos assessores de imagem ou picadeiro midiático para colher mais risadas dos eleitores? Vence aquele que não se mostrar nervoso diante de um ataque infundado ou aquele que em trinta segundos declamar a proposta que nada de efetivo propõe. As idéias estão mais claras nas réplicas e tréplicas que não ultrapassam um par de minutos ou nas páginas infindáveis de um plano de governo que sugere metas ambíguas, superficiais e idealistas? Quem é Serra? Quem é Dilma? Quais são as diferenças entre ambos?

O processo eleitoral brasileiro é uma farsa que tenta sobejamente esconder o esfarelamento da ideologia em prol de interesses particulares da meia dúzia de coronéis verde-amarelos. A suposta diversidade política é um pastiche de siglas que não conservam qualquer coerência com o significado e o porquê de suas respectivas fundações. A utopia da pluralidade partidária esmorece diante do abraço de Lula em Sarney e de alianças grotescas que beneficiam apenas os plutocratas, verdadeiros donos do país. Quem é Serra? Quem é Dilma? Quais são os gritos do povo que chegam ao palácio de um poder refém da bancocracia?

Não me sinto sozinho, único dono de tantas perguntas. Muitos de meus semelhantes, porém, preferem ignorar a auto-análise de seu esclarecimento político e proclamam-se cidadãos de bem, cumpridores fieis de seu papel como indivíduos na sociedade. Brasileiros. Mas quem é o principal responsável pela formação do cidadão-eleitor? A mídia, ainda que tenha seu compromisso, definitivamente não é – por um sem-número de razões que a condenam, mas que também a absolvem (e que agora não cabem aqui). As instituições educacionais, por sua vez, estão cada vez mais empenhadas em formar robôs aptos aos mecanismos do sistema do que propriamente eleitores dotados de discernimento. O ambiente familiar, não raro fragmentado e carente, pouco estimula um diálogo que vá além do passe-as-batatas durante o jantar.

De onde, então, vêm os milhões de votos que elegem nossos governantes? Da burguesia provinciana e classista, dos universitários pseudo-engajados e dos militantes alienados; dos miseráveis que ainda têm de fazer sua escolha por um prato de comida, dos filhos de classe média que herdaram um partidarismo démodé e dos internautas de primeira-viagem que navegam num mar de mentiras e desserviços, passando adiante, incrédulos (e burros), falsas verdades – escritas por falsos autores – contra este ou aquele candidato; ou daqueles que, indecisos entre lá e cá, votam no “menos pior”. Daí vêm os votos.

A despeito da tão bradada consolidação da liberdade de expressão e da avalanche de informações jamais vista, concomitante e paradoxalmente avançam a falta de liberdade e a alienação. À revelia da falta de esclarecimento político, a democracia obriga (!) o indivíduo a votar – fazendo deste ato mais um dever do que um direito. Uma obrigação que redefine menos o futuro do país e mais o horário do almoço de domingo. Mesmo que ensimesmados e condicionados por nossas crenças rasas, elegemos presidentes, governadores, senadores, debutados, prefeitos e vereadores sem que sequer os conheçamos a fundo. Sem que sequer saibamos se eles existem. Quem é Serra? Quem é Dilma?

O voto é um instrumento mal-utilizado e banal. Enquanto isso continuar assim, pouco importa quem está no poder: o Brasil será sempre o país do futuro.

3 comentários:

Mr. Lemos disse...

Não sei nem se cabe chamar de bela a análise. Embora o pensamento crítico e as palavras bem colocadas sejam coerentes, o sentido de tudo é tão somente triste. Revolução, parceiro. Revolução! E pode me chamar. Ao primeiro tiro, eu estarei lá....

Welington Amaral disse...

Texto vago, incoerente e acima de tudo hipócrita!
Reveja seus conceitos.

Franklin disse...

Meu caríssimo Pequeno. Diria que uma barata amarela regorgitando substâncias protéicas azuladas me enojaria menos em comparação ao que tenho visto por aí na campanha eleitoreira. Sempre os mesmos. Dos indivíduos charlatões às suas idéias e desculpas vazias. O Brasil me parece sempre do futuro, um futuro que não chega pra quem tem condições razoáveis de vida. O que dirá dos menos favorecidos? Viu alguma esperança nas vitrines da política? Quero comprar uma e pagaria caro por ela. Abraço!