segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

brasileiro

Justo em dia de festa, levaram-no embora. Justo. Em dia de festa, partilhamos no rosto as lágrimas de tristeza e as lágrimas de alegria.

Por que não? Todas elas assim, antagônicas e complementares. Em paradoxo que o futebol não explica e harmonia que só a bola nos faz entender.

Levaram-no embora de modo a eternizar sua morte como eternizada foi sua vida. Levaram-no porque o destino é sujeito oculto, matreiro, não raro apronta dessas que ninguém ousa saber como e por quê.

Entre a fraqueza na cama de um hospital e a leveza de partir para a tribuna de honra, Magrão não titubeou.

Seu coração parou de bater quando o coração de seu povo batia mais forte. Dessas coisas que fazem do Corinthians, como dizia ele próprio, não apenas um time ou uma torcida, mas um estado de espírito.

No campo, de punhos fechados em riste, todos foram Sócrates por um minuto. No céu, balões alvinegros carregaram o seu nome e o seu rosto como a carregar sua história sobre a multidão em êxtase no Pacaembu.

No dia de sua morte, Sócrates pela primeira vez foi campeão brasileiro.

sábado, 12 de novembro de 2011

novo rio

O saguão desse terminal para sempre vai me lembrar aquele dia. Quando estive de passagem querendo voltar. Quando precisei ser apenas eu mesmo para ser outra pessoa.

A cidade se desenhou à janela do carro amarelo, o contorno das maravilhas sublinhou a inquietude e o desejo de se sentir um homem de lugar nenhum. Os olhos se voltaram ao livro de bolso, a loucura sorriu. Busquei intensamente vivê-la, tal qual Erasmo de Rotterdam ou o bom amigo Pataca.

Tão cego quanto sempre desejei, parti.

Voltei. 

Passamos, o tempo e eu. Tão pouco depois, caminho de novo pelo saguão à espera do meu lugar no mundo.

Somente o próximo, jamais o definitivo.









quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Rock in Rio: Eu vi [parte 2]

Sexta-feira, 23 de setembro de 2011. Cidade do Rock, 20h30.



Hora de aliviar a tensão, esquecer – por enquanto – o desconforto a que o público brasileiro é submetido em grandes eventos. Imaginem a Copa, murmuram os transeuntes. As Olimpíadas. Dane-se tudo isso, só quero tomar uma cerveja e encontrar meus amigos.

A estrutura realmente impressiona, mas não demoro a notar que a roda, apesar de gigante, não roda. O fluxo de pessoas é intenso, mas bastante tranqüilo longe do palco. Não tenho dificuldade em chegar ao local combinado, mas, qual não é minha surpresa, a tenda da cerveja que patrocina o festival não vende cerveja. Atônitos e frustrados, percebem meus botões que se trata apenas de um estande cercado de promoters boazudas e convidados vipes.

Partimos para a praça de alimentação a fim de matar a sede e de esquecer que a Cláudia Leitte vai cantar muito em breve. O copo de cerveja custa sete reais. O sanduíche de microondas, doze e cinquenta. Uma hora e meia na fila do fast food. Parte dos clientes pede explicações, clama pela gerência que não aparece. Outra parte, aquela para a qual atitude é apenas uma estampa de camiseta, não se move e não se importa em ser mal tratada.

Os funcionários do pelotão de frente não se constrangem diante da câmera amadora que registra o descaso. Ao contrário, distribuem cinismo, poses, sorrisos e perguntam se “vai para o Facebook” (a única chance de alguém, afinal, curtir sua performance). Longe dali, os ambulantes “oficiais” extrapolam a extorsão: a cerveja sai por nove reais.

- Mas não é sete? Tá escrito no seu macacão!
- Tá bom, pode ser. Sete.

A cerveja está quente. O sanduíche de microondas, congelado por dentro. Mais uma fila para trocá-lo. E quem poderá nos defender? Cláudia Leitte, no palco, aponta o caminho em ritmo de micareta: “segura a pata do caranguejo”. Faz sentido. Ainda dá para regredir.

A “cidade” é um circo publicitário camuflado onde o rock não passa de um produto de mercado tão lucrativo quanto Che Guevara. Subversão é uma etiqueta de grife na vitrine das melhores butiques. A tenda da cerveja não vende cerveja. E os funcionários da operadora de celular, claro, desconhecem informações sobre o chip pré-pago, seu produto mais banal. A multidão, no entanto, se esparrama pelo chão sujo quando os patrocinadores oficiais da contracultura distribuem souvenirs vagabundos de graça. Nossa mesquinhez terceiro-mundista é assustadora e deprimente.

Alguma coisa está errada quando o melhor do festival até aqui é o banheiro masculino. O imenso mictório ao ar livre permite que os pênis não se espremam desesperados, mas a verdade é que ainda estamos de saco cheio ao sair de lá.

A Cláudia Leitte, pelo menos, já foi embora. 

Mas cadê a Rita Lee? Ela não veio?

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Rock in Rio: Eu vi [parte 1]


Sexta-feira, 23 de setembro de 2011. Jardim Botânico, 16h.

Uma hora esperando o ônibus. Os dois primeiros passaram lotados, sem parar. O terceiro, tão cheio quanto os outros, parou para que duas ou três pessoas descessem - e fechou a porta da frente para que ninguém mais entrasse. Entrei pela porta de trás, esmagado e clandestino. Quem ia ao Rock in Rio já estava cansado. Quem não ia, amaldiçoava o tumulto causado pelo festival.

A cidade parada. Zona Sul e Barra da Tijuca se difundiam num inferno inesgotável de carros, ônibus e gente sem paciência. O Rio de Janeiro perdeu suas paisagens pelo caminho e foi atingido por ondas de caos na tarde cinza que em nada parecia maravilhosa.

O motorista errou o caminho do terminal. Os passageiros gritaram. Ele parou. Cometeu infração gravíssima e voltou de marcha-ré na avenida de maior movimento da região. Os passageiros, em risco, acenaram da janela para que não viesse o pior.

No terminal não havia luz. Blecaute e multidão de todos os cantos em busca de um ônibus que chegasse, enfim, ao pressuposto paraíso. À Cidade do Rock, linda e mítica pela televisão. Na vida real, pequenas barbies maquiadas e intocáveis se espremiam com nojo e debutavam nos corredores estreitos e sujos do transporte público carioca. Novidade que elas decerto não querem provar jamais.

Quatro horas e meia depois, sem qualquer esperança em um mundo melhor, cheguei ao destino que poderia aliviar meu desgosto. Perdi a abertura, os fogos e o emblemático show dos ídolos que nasceram comigo na metade dos anos 80. Eu, no interior de São Paulo. Eles, no palco do primeiro Rock in Rio. Resignei-me, Paralamas eu vejo em casa. Num outro dia.

Camiseta. Latão. Ingressos, ingressos! Cachaça com mel. Vai chover, capa de chuva. Lá dentro é vinte, aqui é dez. Ingressos, ingressos! Latão, dois por cinco. Olha a água, o chaveiro, amendoim torrado. Ingressos?

Os ambulantes, atordoados e cínicos, revelam no grito de sobrevivência que os arredores da cidade artificial são pobres e fedem esgoto. A multidão corre às margens da realidade e atravessa os cordões de segurança sem revista qualquer.

Estão todos cansados demais e o show não pode parar. 

sábado, 10 de setembro de 2011

pepê

São duas ilhas solitárias, como nós, separadas por uma fresta ingrata de água salgada. Próximas o bastante para que se vejam a todo tempo, distantes o suficiente para que não se toquem jamais.

As ondas quebram nas rochas feito lágrimas que persistem em dissolver corações de pedra. Em vão como o vão que as deixa distantes. A silhueta das ilhas ao entardecer é triste e descolorido – e elas adormecem cobertas pelo silêncio que indaga se é mesmo impossível se amarem.

Imóveis, resignadas, fugidias, permitem que a distância seja apenas o belo cenário de um porta-retrato a estampar somente o sorriso alheio.

Por que são duas, e não uma só, as ilhas que batem à nossa janela?

domingo, 28 de agosto de 2011

O milésimo gol

FUTEBOL NÃO É MATEMÁTICA, MAS A SOMA DE NOVECENTOS E NOVENTA E NOVE MAIS UM É O RESULTADO DE UM CRAQUE COMO JAMAIS SE VIU./

FUTEBOL NÃO É RELIGIÃO, MAS PELÉ É A SINTONIA PERFEITA ENTRE SANTOS, DEUS E INÚMEROS DISCÍPULOS./

SE FUTEBOL É PAIXÃO, NATURAL QUE SEU REI SEJA UM MENINO DE TRÊS CORAÇÕES. / MAS FUTEBOL TAMBÉM É IRONIA./ E DEPOIS DE TANTA ARTE, TANTO DRIBLE, TANTO GOLAÇO, QUIS O DESTINO QUE A COROA VIESSE DO JEITO MAIS FÁCIL./ ASSIM, PARADO./ DE PÊNALTI./

POUCO IMPORTA./ A BOLA QUE MORREU NO FUNDO DO GOL É A MESMA QUE PARA SEMPRE VAI VIVER À TONA DE NOSSA MEMÓRIA./

OBRIGADO, MAJESTADE, POR REPETIR MIL VEZES O DITADO QUE NOS SEUS PÉS SEMPRE FOI POESIA: FUTEBOL É BOLA NA REDE.//

domingo, 7 de agosto de 2011

Despertei a lhe procurar, nada vi senão o raio febril do dia a invadir meu recanto soturno. Você não dormia ao meu lado, tampouco abria as janelas para dispersar o perfume da noite de amor.

Procurei teus pés de criança de fora do cobertor, teu par de jabuticabas entreabertas a me pedir carinho. Desenhei teu rosto de anjo moreno sobre a cama vazia, enxerguei-te a sorrir sem motivo senão o dia vindouro em si mesmo. Tua manha, teu cheiro, nosso vigor recomposto antes mesmo dos corpos se levantarem. Tudo é você quando sem você.

Valeu de nada fugir às pressas do sonho ruim. Mil vezes fechar os olhos de novo a admitir a sombra da tua ausência.

Acordar sem você é o pior pesadelo.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Mineirim

Mais ou menos. Pela primeira vez perguntei como está e não ouvi dele o emblemático bão dimais, sô, graças a Deus! . Só mais ou menos, me respondeu o bom e velho Mineiro. Mineirim, como tenho por hábito chamá-lo depois da segunda cerveja. Companheiro de estrada e companheiro do mar. O Tiago, do Tiago e Thiaguin. Parceiro das gargalhadas e das cantorias sem fim.

Sujeito guerreiro e alegre como não se costuma encontrar em qualquer batalha ou em qualquer boteco. Da paz. Do bem. Dos raros. Daqueles sobre quem muito se escreveria se poucas palavras já não bastassem.

Pois meu amigo logo explicou o tal mais ou menos. Depois do pagode e do mulherio no último sábado vinte e cinco, o primo arrumou confusão na saída da festa -- e o Mineirim, que já dormia no ônibus à espera da volta pra casa, acordou pronto a encerrar a questão com o diálogo hábil e cordial que sempre lhe esteve à ponta da língua.

Não houve, contudo, tempo de ser humano. Tão logo deu as caras e uma lata atingiu os olhos pacíficos e ainda sonolentos do meu camarada. Sobre sua cabeça, de repente, estilhaçaram uma garrafa. O sangue, o susto e o breu apagaram da sua frente os animais em bando que em seguida apedrejaram o ônibus e fugiram.

Hoje, nove dias e dez pontos depois, Mineirim percebeu que não era o inchaço o que lhe escondia a vista. O inchaço passara, mas não a quase cegueira. Submetido ao enésimo exame do terceiro doutor, ouviu que cinqüenta por cento das células de sua retina ficaram com os cacos daquela maldita garrafa. A busca pelos outros cinqüenta começam neste cinco de julho, cirurgia marcada e preces sinceras.

A briga, lá no começo, enquanto o Mineirim dormia, foi por causa de mulher. Dessas que acontecem a todo minuto no rodeio, no bar, na escola, no estádio, na rua, no mato. Banais como um gole de cachaça, ora fatais e ora despercebidas. A que miserável ponto chegamos nós, reféns da intolerância humana semeada ao léu; subalternos à crueldade gratuita e minimizada pela embriaguez. Escravos do ódio sem razão e dos instintos animalescos que natureza nenhuma explica.

A verdade é que não importa quantos por cento o meu querido Mineirim venha a perder nos olhos, pois sua visão do mundo está mais guardada e bem mais protegida que o seu globo ocular. As tintas mais bonitas e formas mais jeitosas serão discernidas com a clareza de sempre, pois sujeito bom como esse meu amigo enxerga mesmo é com o coração.


sábado, 2 de julho de 2011

Reticências

um ano depois (Brasil 1 X 2 Holanda - Copa do Mundo 2010)

Quanto Brasil ficou pelo caminho naquela sexta-feira de sol e chuva... Quantos gritos de gol, de Galvão, de “burro” e de “hexacampeão!”. Quantos sorrisos de Kaká, pedaladas de Robinho, petardos de Luís Fabuloso... Quantos dias ainda de julho, quantos milagres de Júlio, desarmes de Lúcio, dons de Juan... Quantas botinadas de Felipe Mello, disparadas de Maicon e dedos cruzados pela volta de Elano...

Quantos brindes à seleção mais linda do mundo, quantos dias para sair mais cedo ou para chegar mais tarde ao trabalho... Quantos beijos, braços, abraços... Quanto sofrimento, quantas alegrias e murros na mesa, socos no peito, chutes no ar...

Quanta Paulista faltou parar, Ipanema a sambar, Pelourinho a batucar... Quanto Oiapoque e quanto Chuí em silêncio fúnebre... Quanta bandeira a tremular, poesia a inspirar e corpos atônitos a transpirar...

Quantos encontros, expectativa, quantas lágrimas boas a derramar... quanto orgulho, quanto pagode, piada, peleja, pirraça, cachaça. Quanta torcida, quanta mandinga.... e quanto canto, quanta bola, quanto bolão... Quanto copo, quanta Copa, quanto mundo...

Quantos palavrões... Quanto “porra”, “caralho”, “putaqueopariu”... Quantos refrões... “é taça na raça, Brasil”. Quanto desabafo, pergunta cretina, mal-educada. Quanto Dunga a resmungar, jornalistas a trabalhar... Quanta estrela faltou brilhar, quanta pelota faltou rolar, rojões a estourar, gargantas a berrar, canarinhos a decolar...

Deixemos, pois, de salivar a infinitude das reticências... Elas carregam consigo o gosto amargo do ponto final.




* Artigo publicado originalmente no blog Crônicas da Copa

quinta-feira, 23 de junho de 2011

finitude

Nada é mais verdadeiro do que se sentir sozinho.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

O meu amigo Ernani Lemos

“Eu esperava que os anos me fizessem forte para carregar o peso da vida. Hoje, com 30, vejo que eles me tornaram sábio para enxergar a vida mais leve”

(Ernani Lemos)



Acostumados desde o primeiro instante ao diálogo sem freios, naquela manhã o silêncio nos roubou as palavras e a alegria de sempre. Todas as palavras, toda a alegria. Irrompemos a placidez serena da Charleston Avenue e o que se ouviu então foi somente o ruído das malas que se arrastavam em despedida.

As rodas parcas e gastas no decorrer da estrada provocavam o atrito de quem insiste em ficar e o estrépito áspero de quem não sabe se um dia volta. Depois da agonia antecipada em meses e noites sem dormir, imaginando o mal do momento que não tardaria, foi simplesmente assim: ele uns passos mais adiante, cabeça baixa e quieta; eu ali atrás, chorando manso sem estar certo de que ele me ouvia.

Alcancei-o somente à porta do táxi que me levaria embora. Trocamos um abraço forte, doloroso e reticente. Pela primeira vez vi chorando muito o sujeito que jamais me economizara um sorriso. Ouvi dele palavras lindas e, engasgado, não soube retribui-las. “Bonito ver amizade assim”, emocionou-se o taxista. “Não é meu amigo”, respondi. “É meu irmão”. Assim deixei a Irlanda e o Ernani guardados na memória e no fundo do peito.

Amor à primeira Guinness. Amigo de infância há um ano e meio. Dos lugares que visitei, das pessoas que conheci, de tudo o que vivi no teto no Velho Mundo, nada foi tão intenso e especial quanto o meu amigo Ernani Lemos. Como Roberto e Erasmo. Compartilhamos planos, felicidades, decepções, textos, gargalhadas, angústias, cervejas, paixões. Tanto foi o que dividimos que dividimos nossas vidas entre antes e depois.

O Ernani gosta de ser humano – e como poucos o sabe ser. Estende a mão a quem não conhece, oferece asas a quem não anda e abrigo a quem em troca lhe dê cachaça. Ernani é bom brasileiro, sua casa é lugar de cerveja gelada e caloroso abraço. Sua disposição é contagiante. Sua humildade, intocável: de meninote que já vendeu gelinho na rua ou jornalista global que já cobriu Copa do Mundo.

O Ernani é aquele cara que dorme pouco porque está mais interessado em viver, contar mais histórias, realizar mais sonhos com os olhos abertos. Sujeito tão especial que seu maior defeito é ter muitos amigos – e não abrir mão de viver bons momentos com todos eles.

Eis um pouquinho de Ernani Lemos. O coração é do tamanho do mundo – e o mundo, do tamanho da alegria que ele jamais deixa de carregar consigo.

Parabéns, meu amigo de fé, meu mestre e meu irmão camarada.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

catorze

O rosto faceiro e o balanço pacato das ondas guardam as letras do mesmo nome. Pequena sereia sem cauda, o corpo moreno dança à deriva no meio do mar. Os lábios imaculados à procura, quem sabe, de um gole doce na fortaleza salina. Insegura por que, se dos meus braços faço um porto seguro para atracares os teus desejos? Ir embora pra onde, se nossos caminhos se cruzam em qualquer passo ao acaso?

Exclamo-te minhas vontades ainda que persista a interrogação nos teus olhinhos castos, densos e doces como o puro mel. Esqueça-te da ciranda do sim-e-não, celebra a aurora de tua mocidade, o esplendor dos teus dias brilhosos. Porque quando o tempo levar o frescor do teu corpo, há de amargar também tua alma e o teu charme pueril.

Olha, não te arrepende depois, tampouco guarda minhas palavras como um romance à mercê de teus devaneios. Me beija, Mariana, não deixa essa poesia sem verso final, essa travessia sem vendaval e esse mar inteiro sem litoral. Me beija, que nossas línguas são fonte de toda a água e todo o fogo desse horizonte abissal.


Me beija, Mariana. Me beija.

domingo, 24 de abril de 2011

Meio amargo

O coelhinho da Páscoa não veio. Talvez porque as crianças da família agora sejam outras, talvez porque eu já saiba que ele nunca existiu. A inocência ainda é meu vício e minha virtude, mas hoje navega por mares distantes das ondas da minha infância. Senti falta das pegadas que mamãe forjava pela casa até o balaio de chocolates, mas percebi, soturno, que a Páscoa é um ovo recheado de memórias nostálgicas e pouco sentido.

A mesa vazia e o silêncio quebrado pelo jogo no rádio despertam os cacos de um tempo em que reconhecíamos na brincadeira um ritual de todos os dias. O domingo pascal é uma celebração anacrônica, uma ilusão cristã que insiste na ideia de renovação da vida – quando sabemos que a segunda-feira não tardará a mostrar o contrário. Continuaremos egoístas, intolerantes e incapazes de fazer da alegria um canto constante.

Depois que a noite caiu e a escuridão recolheu os vestígios de uma tarde qualquer, a tristeza passou como um vulto a soprar o destino daqueles que esperam pela ressurreição.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Democracia

Iludimo-nos com qualquer coisa, sobretudo quando nos impõem a ideia de democracia. Passei o final de semana inteiro a imaginar as ruas repletas de alegria e cores na Virada Cultural de São Paulo. De gente, de sons, de vida como a vida deve ou deveria ser. É a democratização da cultura, o encontro de todas as tribos, a festa do povo, proclamam os fanfarrões. Mas aproveite que é um dia só. Vinte e quatro horas contadas. Quando soa a badalada final, sobra vômito pisado e o monte de lixo que se confunde com a maquete da cidade.

Democracia ou pão e circo? Quermesse cosmopolita, fugaz. Sacolejando todos os dias dentro do ônibus e do jornal, receio que democrática, por aqui, seja a violência. Acessível a todos, ela está a qualquer hora em qualquer lugar. À mão de qualquer covarde, sem discriminar um cidadão que seja. No caos sem freio nem fim, ninguém se furta ao direito de matar ou morrer.

Pá-pá. Pá! O barulho é um tiro ou uma nota musical? A chance de ser baleado em São Paulo é um tanto maior que a de assistir ao Erasmo de graça. Neste final de semana, porém, a Paulicéia foi poesia, foi rock’n’roll. Os palcos foram montados sobre as cabeças dos verdadeiros artistas do cotidiano. E para onde foram espanados os viciados em crack, enquanto os grandes nomes da nossa música gritavam versos de subversão? Quantas mortes e quantos shows entre o sábado e o domingo?

A festa acabou, a cultura fechará as portas até o ano que vem. A democracia que nos resta daqui em diante não é nada boa.

Porque democracia da violência, noutras palavras, é a ditadura do medo.

terça-feira, 29 de março de 2011

Menos importa o empresário bem sucedido que veio da roça. Menos importa o político, ex-vice-presidente de um dos maiores governos da República verde-amarela. Guardemos conosco a imagem dócil do ser humano diante da linha tênue entre vida e morte: enquanto as dores e os tumores lhe alfinetavam os órgãos, o sorriso jamais disse adeus. Enquanto o corpo frágil e debilitado sequer se mexia, os olhos grandes e vivos indicavam que o coração ainda batia cheio de amor.


E mesmo sentado sobre a cadeira de rodas, deitado sobre o leito hospitalar, José Alencar, ainda assim, era mais alto que todos nós. Porque agarrava a vida na palma das mãos. Porque fugia da morte na ponta dos pés.


Fomos e voltamos com ele em suas idas e vindas ao hospital. Brotou comoção popular, expectativa, angústia, reza, piada, plantão. Um pouco de tudo. Pipocou o argumento de que, ah, se fosse no SUS ele não tardaria a beijar a tragédia. É só meia verdade. Seriam os privilegiados todos teimosos e vibrantes assim? Pois eu duvido. Acredito, sim, é neste homem de espírito sacrossanto.


E hoje, quando se cumpriu o inevitável, pouco soubemos chorar. Suspiramos aliviados com o alívio de Zé. Ainda que o corpo seja enterrado e finalmente descanse dos dissabores malignos, sua alma batalhadora jamais vai morrer. José Alencar venceu.


Foi companheiro, guerreiro, foi Zé, foi brasileiro.


quarta-feira, 23 de março de 2011

Segundo

Sonhei, é, sonhei que te beijava de novo. Quando eu jamais esperava por isso, me provocaste, me abraçaste e depois percorreste os teus lábios nos meus. Que delícia reviver o teu cheiro, o teu gosto, passear as mãos sobre teus cabelos dourados.

Tudo, pena, não durou mais que um segundo. Acordei contrariado e sorumbático. Percebi, afinal, que é isso que sou para ti: quando muito, mero segundo.

terça-feira, 8 de março de 2011

Presente, passado

O telefone ou a flor?

Ela hesitou. Não soube dizer o que perdera o encanto, se ele ou apenas a própria imaginação. Aprendera a gostar de outras coisas, outras canções, de emoções mais perenes que um botão surrado de rosa.

Mentia a si mesma ao negar o sentido de pétalas frescas, pelejava sem leste e oeste ante uma história à procura de fim. Quem fora, quem era agora, que sentimento jazia no meio do mar? Que beijo doce sobrevivera no meio do sal?

Não era só um presente. Era presente, passado e a pergunta a retumbar sobre seus devaneios líricos e sobre seus pés no chão: o telefone ou a flor?

domingo, 6 de março de 2011

Meu carnaval

Sem confete ou serpentina, sem mulatas, pandeiros ou pandeiros de mulatas. O meu samba é a chuva a batucar nas janelas cerradas, minha avenida é o leito de um quarto vazio e distante de casa. Sem estrada, sem escola, margeio o bloco dos arlequins tristonhos a divagar sobre o refrão sem rimas de minha vida.

Uma fresta de luz no meio da solidão ampara minha sensatez, mas o breu é o recanto espontâneo da serenidade. Passeio pelo escuro a cantarolar uns versos de marchinha sob os olhos taciturnos e atentos de um cachorro velho – que apoia o focinho sobre as patas entesadas e espera a sua morte como eu espero o fim de mais uma festa sem motivo. Sou folião embriagado de rancores e saudades, sonhos e dilemas pueris. Guardo os perfumes da moça na ponta dos dedos, rememoro os salões de minha mocidade e calculo o tempo inestimável que os anos levaram de mim.

Não há dança que se faça alegre ou lágrima que se faça triste. Sou só. Meu carnaval não tem gosto de beijo e seu aroma nem de longe entorpece a quem por acaso passa - se é que passa. Não bebo, não brindo, não trepo. Meu carnaval é um eterno desmanche de alegorias e fantasmas que já não sei se me assombram ou me iluminam. Meu carnaval é um véu que separa o sorriso efêmero da amargura que não me deixa em paz.

Tudo porque não sei sambar.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Duas semanas depois

"Thiago... Thiag, opa! Que coisa feia, Juca, você esquecer o nome dele. Thiago... é o Thiago!".

Irrelevante que não tenha se lembrado do meu sobrenome. Depois de publicadas em seu blog, ter minhas palavras repetidas em seu programa na rede foi honra da qual não me esquecerei tão cedo. E foi emoção também, histórico que se fazia aquele momento.

O mundo inteiro, jornalistas ou não, opinava sobre a despedida de um dos maiores jogadores de todos os tempos. Ocasião do tipo em que todos se atrevem a dar um pitaco - ao que o meu, resumido em breves nove linhas, ganha forma na voz de uma referência profissional.

Pouquíssimo me cabe descrever as qualidades de Juca Kfouri, mas vale dizer que estamos tratando de mosca branca. Raros são os que conciliam imparcialidade e paixão revelada, despindo-se da hipocrisia que impede que o jornalista esportivo revele o time do coração. Raros são os que separam jornalismo e propaganda, combatendo o circo do merchandising com humor e severidade. Raros são os que enxergam o futebol para além das quatro linhas do campo, lutando incansavelmente contra as mazelas políticas e a tirania dos que governam o mundo da bola no Brasil. Juca é isso, é raro.

O convívio com gente insegura e perigosa faz parte do meio, mas, lá em cima, Juca nos dá lição de humildade e caráter ao reconhecer algum mérito na frase de um colega que ele sequer conhece.

Motivador, Juca, muito obrigado.

#O vídeo do programa está aqui.

[citação aos 7 minutos; aos 14min45seg, a confirmação do sobrenome]

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Sobre Deus e o Fenômeno

As ruas vazias. A redação em silêncio fúnebre e apreensivo. A Terra girando mais devagar, a bola rolando desnorteada e murcha. Os olhos estalados, as lágrimas prenunciando o dilúvio. O verde menos amarelo, o amarelo menos azul, nossa bandeira menos Brasil. Parecia morte - e foi. A morte de um paciente que você vê sofrendo e deseja que o quanto antes descanse em paz, mas chora em desatino quando se cumpre o inevitável.

A explosão, o sorriso dentuço, os braços abertos de moleque matreiro, o indicador em riste comemorando a glória ou o joelho bambeando a lhe matar de dor. O cabelo raspadinho, o rrrrrrrrrrrrrrrronaldinho, o seu infinito carinho. Assim como ele, hoje também nós morremos um pouco.

Ali do campo, sem milagre algum, Ronaldo trouxe aquilo que boa parte de nós costuma esperar dos céus: alegria, força, coragem, motivação, humanismo, amor. O menino Nazário, tão longe de Nazaré, nos entorpeceu de amor. Do gol fez uma brincadeira. Da brincadeira, centenas de gols. Dono absoluto do tapete verde e sempre digno do vermelho.

Ronaldo não encerrou apenas a sua carreira ou um capítulo bonito do futebol. Ronaldo pôs fim à dádiva de podermos vê-lo em ação.

NOTA.: O artigo anterior foi generosamente publicado no blog de Juca Kfouri, colega de paixão alvinegra e referência ímpar na profissão. Valeu, Juca.

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Nove linhas sobre Ronaldo

O maior artilheiro de todas as Copas, três vezes o melhor do mundo. Embaixador da ONU, do bem, da bola. Ídolo dos opostos, Real e Barça, Inter e Milan. Corinthians e o restante do Brasil.

Ainda que as novelinhas que permearam sua carreira preencham tablóides inteiros, nove linhas são suficientes para dizer de Ronaldo o que Ronaldo de fato é.

Agora, que ele deixa os gramados, defrontaremo-nos com a resposta do episódio mais discutido nos últimos anos. E não é a balança quem vai revelar o peso de Ronaldo, mas a História. Valeu, Fenômeno.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Confessionário

- Como é, meu filho? Não acreditas em Deus?

- Não acredito, padre. Deposito toda a minha fé nalgo mais complexo e impalpável, mas a verdadeira razão do bem e do mal deste mundo.

- E quem é, senão o nosso Criador, nosso pastor celestial dono de tudo o que há na Terra?!

- O ser humano, padre. Este ser quase invisível que nos ilumina e nos apunhala; que nos abençoa e nos arrasta ao caos. É ele, padre, o ser humano, que nos governa. Sempre.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Menos do mesmo

* Timão eliminado na (Pré-)Libertadores. Mais do mesmo? Menos. Bem menos.

* Baseado na lei que regula a participação do Corinthians na Libertadores da América, continua valendo o artigo do ano passado.

* Não adianta simplesmente massacrar Tite e sentir saudades do Mano. Ainda que o primeiro não seja técnico para a esquadra preta e branca, o hoje técnico da Seleção Brasileira também fracassou no ano passado em grande parte por erros dele próprio.

* Possível - e merecido - que Ramirez nunca mais vista a camisa alvinegra. Se isso acontecer, o meia deixa o clube com uma média de gols que a supera as de Marcelinho Carioca e Neto: 0,5 por jogo. Se desconsiderarmos a participação (?) de ontem, Ramirez atinge a média histórica de UM GOL POR JOGO. É ídolo!

* Por outro lado, sejamos justos se o jogador for mesmo embora do Parque São Jorge. Ninguém representou melhor do que ele o espírito corintiano na Libertadores: desequlíbrio, despreparo e desconforto diante de uma situação que lhe pareça estranha, por menor que ela seja.

* Pior do que não conquistar a Libertadores, Ronaldo encerrará a carreira rejeitado pelas duas maiores nações do Brasil: flamenguistas, bem sabemos por quê, e corintianos - ao que tudo indica.

* Falando nele, crítica aos meus colegas de profissão: um repórter esportivo também mostrou absoluto despreparo ao fim da partida, quando perguntou ao Fenômeno sobre o peso da derrota. Anos depois e ele ainda não aprendeu que Ronaldo se nega a falar sobre peso.

* Quem sofreu ontem não é corintiano. É masoquista. A pessoa que não padece desse distúrbio sequer teve chance de torcer; não viu um time jogando bola, não viu garra, esquema tático, padrão de jogo. Nada. Sofrer, portanto, com quê?

* A torcida já entendeu que time e torneio são incompatíveis. A maioria da Fiel já não tinha esperanças, de verdade, desde o início. Outros, acertadamente, nem assistiram ao jogo.

* Os torcedores protestam, picham as ruas, depredam os carros e ameaçam os jogadores. Querem raça, taça, espetáculo pra massa. Pagam o ingresso (quando não ganham da diretoria), deixam de comer para incentivar o time no estádio. Têm direito de cobrar. Desconfio, porém, que se esses torcedores dispusessem de engajamento similar na esfera política, visto que os impostos são mais caros que os ingressos, José Sarney não estaria onde está, o reajuste de vereadores e deputados não banalizaria o dinheiro público e Brasília seria o estádio do povo.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Perfume

Comercializassem o tempo e eu compraria à vista só um frasquinho de cinco minutos. Encontraria nele o melhor perfume, a duração exata de um beijo gostoso.

É tudo o que me falta agora.
O tempo.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

2011

- Paz?! Coisa mais demodê, pai, eu quero um iPad!

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

enfim

Brotou diante de mim, feito flor pequenina, calçando sapatilhas pretas e vestindo um camisete branco de linho irlandês. Cabelo preso em coque e corpo esbelto de menina jeitosa, uma bailarina a dançar parada diante de minhas memórias. Brotou assim, sem que eu apanhasse as palavras mais lindas ou que recitasse os sentimentos por tanto tempo guardados na velha caixinha de amar.

Tamborilou num segundo sobre meu ombro, reconheci-a dalgum passado fugaz e sorri sem que pudesse dizer o seu nome. Mas lá estava, tão minha, tão nada de mim: toda ela em branco e preto, como o filme de um sonho remoto. Por que abraçá-la, se meu intento era o beijo? Por que dissipá-la entre o certo e o errado, se tanto fazia a palavra de Deus?

Fonte de inquietude e inspiração. De insegurança e insensatez. Ávidos por ins e afins, seus olhos raiavam brilhosos e lacônicos. Dilúcidos e apaixonantes. Doces, mas sempre severos demais. E enquanto eu tateava pistas do caminho que deixamos às nossas costas, sem sequer saber quais passos nos importavam agora, ela se foi – tão de repente quanto chegou e para onde estaria segura de nós. Rubricou em papel machê a incerteza dos dias vindouros, deixou o romance ao léu dos poetas parnasianos.

Ela estava de volta, enfim, mas não estava ali.