terça-feira, 29 de março de 2011

Menos importa o empresário bem sucedido que veio da roça. Menos importa o político, ex-vice-presidente de um dos maiores governos da República verde-amarela. Guardemos conosco a imagem dócil do ser humano diante da linha tênue entre vida e morte: enquanto as dores e os tumores lhe alfinetavam os órgãos, o sorriso jamais disse adeus. Enquanto o corpo frágil e debilitado sequer se mexia, os olhos grandes e vivos indicavam que o coração ainda batia cheio de amor.


E mesmo sentado sobre a cadeira de rodas, deitado sobre o leito hospitalar, José Alencar, ainda assim, era mais alto que todos nós. Porque agarrava a vida na palma das mãos. Porque fugia da morte na ponta dos pés.


Fomos e voltamos com ele em suas idas e vindas ao hospital. Brotou comoção popular, expectativa, angústia, reza, piada, plantão. Um pouco de tudo. Pipocou o argumento de que, ah, se fosse no SUS ele não tardaria a beijar a tragédia. É só meia verdade. Seriam os privilegiados todos teimosos e vibrantes assim? Pois eu duvido. Acredito, sim, é neste homem de espírito sacrossanto.


E hoje, quando se cumpriu o inevitável, pouco soubemos chorar. Suspiramos aliviados com o alívio de Zé. Ainda que o corpo seja enterrado e finalmente descanse dos dissabores malignos, sua alma batalhadora jamais vai morrer. José Alencar venceu.


Foi companheiro, guerreiro, foi Zé, foi brasileiro.


quarta-feira, 23 de março de 2011

Segundo

Sonhei, é, sonhei que te beijava de novo. Quando eu jamais esperava por isso, me provocaste, me abraçaste e depois percorreste os teus lábios nos meus. Que delícia reviver o teu cheiro, o teu gosto, passear as mãos sobre teus cabelos dourados.

Tudo, pena, não durou mais que um segundo. Acordei contrariado e sorumbático. Percebi, afinal, que é isso que sou para ti: quando muito, mero segundo.

terça-feira, 8 de março de 2011

Presente, passado

O telefone ou a flor?

Ela hesitou. Não soube dizer o que perdera o encanto, se ele ou apenas a própria imaginação. Aprendera a gostar de outras coisas, outras canções, de emoções mais perenes que um botão surrado de rosa.

Mentia a si mesma ao negar o sentido de pétalas frescas, pelejava sem leste e oeste ante uma história à procura de fim. Quem fora, quem era agora, que sentimento jazia no meio do mar? Que beijo doce sobrevivera no meio do sal?

Não era só um presente. Era presente, passado e a pergunta a retumbar sobre seus devaneios líricos e sobre seus pés no chão: o telefone ou a flor?

domingo, 6 de março de 2011

Meu carnaval

Sem confete ou serpentina, sem mulatas, pandeiros ou pandeiros de mulatas. O meu samba é a chuva a batucar nas janelas cerradas, minha avenida é o leito de um quarto vazio e distante de casa. Sem estrada, sem escola, margeio o bloco dos arlequins tristonhos a divagar sobre o refrão sem rimas de minha vida.

Uma fresta de luz no meio da solidão ampara minha sensatez, mas o breu é o recanto espontâneo da serenidade. Passeio pelo escuro a cantarolar uns versos de marchinha sob os olhos taciturnos e atentos de um cachorro velho – que apoia o focinho sobre as patas entesadas e espera a sua morte como eu espero o fim de mais uma festa sem motivo. Sou folião embriagado de rancores e saudades, sonhos e dilemas pueris. Guardo os perfumes da moça na ponta dos dedos, rememoro os salões de minha mocidade e calculo o tempo inestimável que os anos levaram de mim.

Não há dança que se faça alegre ou lágrima que se faça triste. Sou só. Meu carnaval não tem gosto de beijo e seu aroma nem de longe entorpece a quem por acaso passa - se é que passa. Não bebo, não brindo, não trepo. Meu carnaval é um eterno desmanche de alegorias e fantasmas que já não sei se me assombram ou me iluminam. Meu carnaval é um véu que separa o sorriso efêmero da amargura que não me deixa em paz.

Tudo porque não sei sambar.