domingo, 6 de março de 2011

Meu carnaval

Sem confete ou serpentina, sem mulatas, pandeiros ou pandeiros de mulatas. O meu samba é a chuva a batucar nas janelas cerradas, minha avenida é o leito de um quarto vazio e distante de casa. Sem estrada, sem escola, margeio o bloco dos arlequins tristonhos a divagar sobre o refrão sem rimas de minha vida.

Uma fresta de luz no meio da solidão ampara minha sensatez, mas o breu é o recanto espontâneo da serenidade. Passeio pelo escuro a cantarolar uns versos de marchinha sob os olhos taciturnos e atentos de um cachorro velho – que apoia o focinho sobre as patas entesadas e espera a sua morte como eu espero o fim de mais uma festa sem motivo. Sou folião embriagado de rancores e saudades, sonhos e dilemas pueris. Guardo os perfumes da moça na ponta dos dedos, rememoro os salões de minha mocidade e calculo o tempo inestimável que os anos levaram de mim.

Não há dança que se faça alegre ou lágrima que se faça triste. Sou só. Meu carnaval não tem gosto de beijo e seu aroma nem de longe entorpece a quem por acaso passa - se é que passa. Não bebo, não brindo, não trepo. Meu carnaval é um eterno desmanche de alegorias e fantasmas que já não sei se me assombram ou me iluminam. Meu carnaval é um véu que separa o sorriso efêmero da amargura que não me deixa em paz.

Tudo porque não sei sambar.

4 comentários:

Thais disse...

Quanta melancolia, moço!

Thiago Crespo disse...

Thais, mas ela não é minha... é do moço!

O daqui é só alegria =D

Suzina disse...

Uau!

Ana Claudia disse...

"melancolia: senti saudades do Carnaval que a gente fazia dentro de mim."

Manda o moço aprender a sambar ou sair sem vergonha de ser feliz e dançar.