quarta-feira, 27 de abril de 2011

catorze

O rosto faceiro e o balanço pacato das ondas guardam as letras do mesmo nome. Pequena sereia sem cauda, o corpo moreno dança à deriva no meio do mar. Os lábios imaculados à procura, quem sabe, de um gole doce na fortaleza salina. Insegura por que, se dos meus braços faço um porto seguro para atracares os teus desejos? Ir embora pra onde, se nossos caminhos se cruzam em qualquer passo ao acaso?

Exclamo-te minhas vontades ainda que persista a interrogação nos teus olhinhos castos, densos e doces como o puro mel. Esqueça-te da ciranda do sim-e-não, celebra a aurora de tua mocidade, o esplendor dos teus dias brilhosos. Porque quando o tempo levar o frescor do teu corpo, há de amargar também tua alma e o teu charme pueril.

Olha, não te arrepende depois, tampouco guarda minhas palavras como um romance à mercê de teus devaneios. Me beija, Mariana, não deixa essa poesia sem verso final, essa travessia sem vendaval e esse mar inteiro sem litoral. Me beija, que nossas línguas são fonte de toda a água e todo o fogo desse horizonte abissal.


Me beija, Mariana. Me beija.

domingo, 24 de abril de 2011

Meio amargo

O coelhinho da Páscoa não veio. Talvez porque as crianças da família agora sejam outras, talvez porque eu já saiba que ele nunca existiu. A inocência ainda é meu vício e minha virtude, mas hoje navega por mares distantes das ondas da minha infância. Senti falta das pegadas que mamãe forjava pela casa até o balaio de chocolates, mas percebi, soturno, que a Páscoa é um ovo recheado de memórias nostálgicas e pouco sentido.

A mesa vazia e o silêncio quebrado pelo jogo no rádio despertam os cacos de um tempo em que reconhecíamos na brincadeira um ritual de todos os dias. O domingo pascal é uma celebração anacrônica, uma ilusão cristã que insiste na ideia de renovação da vida – quando sabemos que a segunda-feira não tardará a mostrar o contrário. Continuaremos egoístas, intolerantes e incapazes de fazer da alegria um canto constante.

Depois que a noite caiu e a escuridão recolheu os vestígios de uma tarde qualquer, a tristeza passou como um vulto a soprar o destino daqueles que esperam pela ressurreição.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Democracia

Iludimo-nos com qualquer coisa, sobretudo quando nos impõem a ideia de democracia. Passei o final de semana inteiro a imaginar as ruas repletas de alegria e cores na Virada Cultural de São Paulo. De gente, de sons, de vida como a vida deve ou deveria ser. É a democratização da cultura, o encontro de todas as tribos, a festa do povo, proclamam os fanfarrões. Mas aproveite que é um dia só. Vinte e quatro horas contadas. Quando soa a badalada final, sobra vômito pisado e o monte de lixo que se confunde com a maquete da cidade.

Democracia ou pão e circo? Quermesse cosmopolita, fugaz. Sacolejando todos os dias dentro do ônibus e do jornal, receio que democrática, por aqui, seja a violência. Acessível a todos, ela está a qualquer hora em qualquer lugar. À mão de qualquer covarde, sem discriminar um cidadão que seja. No caos sem freio nem fim, ninguém se furta ao direito de matar ou morrer.

Pá-pá. Pá! O barulho é um tiro ou uma nota musical? A chance de ser baleado em São Paulo é um tanto maior que a de assistir ao Erasmo de graça. Neste final de semana, porém, a Paulicéia foi poesia, foi rock’n’roll. Os palcos foram montados sobre as cabeças dos verdadeiros artistas do cotidiano. E para onde foram espanados os viciados em crack, enquanto os grandes nomes da nossa música gritavam versos de subversão? Quantas mortes e quantos shows entre o sábado e o domingo?

A festa acabou, a cultura fechará as portas até o ano que vem. A democracia que nos resta daqui em diante não é nada boa.

Porque democracia da violência, noutras palavras, é a ditadura do medo.