segunda-feira, 18 de abril de 2011

Democracia

Iludimo-nos com qualquer coisa, sobretudo quando nos impõem a ideia de democracia. Passei o final de semana inteiro a imaginar as ruas repletas de alegria e cores na Virada Cultural de São Paulo. De gente, de sons, de vida como a vida deve ou deveria ser. É a democratização da cultura, o encontro de todas as tribos, a festa do povo, proclamam os fanfarrões. Mas aproveite que é um dia só. Vinte e quatro horas contadas. Quando soa a badalada final, sobra vômito pisado e o monte de lixo que se confunde com a maquete da cidade.

Democracia ou pão e circo? Quermesse cosmopolita, fugaz. Sacolejando todos os dias dentro do ônibus e do jornal, receio que democrática, por aqui, seja a violência. Acessível a todos, ela está a qualquer hora em qualquer lugar. À mão de qualquer covarde, sem discriminar um cidadão que seja. No caos sem freio nem fim, ninguém se furta ao direito de matar ou morrer.

Pá-pá. Pá! O barulho é um tiro ou uma nota musical? A chance de ser baleado em São Paulo é um tanto maior que a de assistir ao Erasmo de graça. Neste final de semana, porém, a Paulicéia foi poesia, foi rock’n’roll. Os palcos foram montados sobre as cabeças dos verdadeiros artistas do cotidiano. E para onde foram espanados os viciados em crack, enquanto os grandes nomes da nossa música gritavam versos de subversão? Quantas mortes e quantos shows entre o sábado e o domingo?

A festa acabou, a cultura fechará as portas até o ano que vem. A democracia que nos resta daqui em diante não é nada boa.

Porque democracia da violência, noutras palavras, é a ditadura do medo.

3 comentários:

Anônimo disse...

Escreva, escreva, escreva.

Apenas, isso basta.


Caroline F.

Mr. Lemos disse...

Sensacional, parceiro!
Conversei sobre isso com a patroa aqui no fim de semana, mas, lendo agora em palavras tão sábias, entendo até melhor o que eu mesmo pensava. Gênio, mestre!!

Thiago Crespo disse...

Que é isso, irmão, eu por aqui sou apenas pupilo. Se vc pensa igual, isso já elogio.

Caroline, bem-vinda e super obrigado pelo incentivo. É mesmo o que eu quero sempre fazer: escrever, escrever, escrever.

Beijo!