sexta-feira, 13 de maio de 2011

O meu amigo Ernani Lemos

“Eu esperava que os anos me fizessem forte para carregar o peso da vida. Hoje, com 30, vejo que eles me tornaram sábio para enxergar a vida mais leve”

(Ernani Lemos)



Acostumados desde o primeiro instante ao diálogo sem freios, naquela manhã o silêncio nos roubou as palavras e a alegria de sempre. Todas as palavras, toda a alegria. Irrompemos a placidez serena da Charleston Avenue e o que se ouviu então foi somente o ruído das malas que se arrastavam em despedida.

As rodas parcas e gastas no decorrer da estrada provocavam o atrito de quem insiste em ficar e o estrépito áspero de quem não sabe se um dia volta. Depois da agonia antecipada em meses e noites sem dormir, imaginando o mal do momento que não tardaria, foi simplesmente assim: ele uns passos mais adiante, cabeça baixa e quieta; eu ali atrás, chorando manso sem estar certo de que ele me ouvia.

Alcancei-o somente à porta do táxi que me levaria embora. Trocamos um abraço forte, doloroso e reticente. Pela primeira vez vi chorando muito o sujeito que jamais me economizara um sorriso. Ouvi dele palavras lindas e, engasgado, não soube retribui-las. “Bonito ver amizade assim”, emocionou-se o taxista. “Não é meu amigo”, respondi. “É meu irmão”. Assim deixei a Irlanda e o Ernani guardados na memória e no fundo do peito.

Amor à primeira Guinness. Amigo de infância há um ano e meio. Dos lugares que visitei, das pessoas que conheci, de tudo o que vivi no teto no Velho Mundo, nada foi tão intenso e especial quanto o meu amigo Ernani Lemos. Como Roberto e Erasmo. Compartilhamos planos, felicidades, decepções, textos, gargalhadas, angústias, cervejas, paixões. Tanto foi o que dividimos que dividimos nossas vidas entre antes e depois.

O Ernani gosta de ser humano – e como poucos o sabe ser. Estende a mão a quem não conhece, oferece asas a quem não anda e abrigo a quem em troca lhe dê cachaça. Ernani é bom brasileiro, sua casa é lugar de cerveja gelada e caloroso abraço. Sua disposição é contagiante. Sua humildade, intocável: de meninote que já vendeu gelinho na rua ou jornalista global que já cobriu Copa do Mundo.

O Ernani é aquele cara que dorme pouco porque está mais interessado em viver, contar mais histórias, realizar mais sonhos com os olhos abertos. Sujeito tão especial que seu maior defeito é ter muitos amigos – e não abrir mão de viver bons momentos com todos eles.

Eis um pouquinho de Ernani Lemos. O coração é do tamanho do mundo – e o mundo, do tamanho da alegria que ele jamais deixa de carregar consigo.

Parabéns, meu amigo de fé, meu mestre e meu irmão camarada.