segunda-feira, 4 de julho de 2011

Mineirim

Mais ou menos. Pela primeira vez perguntei como está e não ouvi dele o emblemático bão dimais, sô, graças a Deus! . Só mais ou menos, me respondeu o bom e velho Mineiro. Mineirim, como tenho por hábito chamá-lo depois da segunda cerveja. Companheiro de estrada e companheiro do mar. O Tiago, do Tiago e Thiaguin. Parceiro das gargalhadas e das cantorias sem fim.

Sujeito guerreiro e alegre como não se costuma encontrar em qualquer batalha ou em qualquer boteco. Da paz. Do bem. Dos raros. Daqueles sobre quem muito se escreveria se poucas palavras já não bastassem.

Pois meu amigo logo explicou o tal mais ou menos. Depois do pagode e do mulherio no último sábado vinte e cinco, o primo arrumou confusão na saída da festa -- e o Mineirim, que já dormia no ônibus à espera da volta pra casa, acordou pronto a encerrar a questão com o diálogo hábil e cordial que sempre lhe esteve à ponta da língua.

Não houve, contudo, tempo de ser humano. Tão logo deu as caras e uma lata atingiu os olhos pacíficos e ainda sonolentos do meu camarada. Sobre sua cabeça, de repente, estilhaçaram uma garrafa. O sangue, o susto e o breu apagaram da sua frente os animais em bando que em seguida apedrejaram o ônibus e fugiram.

Hoje, nove dias e dez pontos depois, Mineirim percebeu que não era o inchaço o que lhe escondia a vista. O inchaço passara, mas não a quase cegueira. Submetido ao enésimo exame do terceiro doutor, ouviu que cinqüenta por cento das células de sua retina ficaram com os cacos daquela maldita garrafa. A busca pelos outros cinqüenta começam neste cinco de julho, cirurgia marcada e preces sinceras.

A briga, lá no começo, enquanto o Mineirim dormia, foi por causa de mulher. Dessas que acontecem a todo minuto no rodeio, no bar, na escola, no estádio, na rua, no mato. Banais como um gole de cachaça, ora fatais e ora despercebidas. A que miserável ponto chegamos nós, reféns da intolerância humana semeada ao léu; subalternos à crueldade gratuita e minimizada pela embriaguez. Escravos do ódio sem razão e dos instintos animalescos que natureza nenhuma explica.

A verdade é que não importa quantos por cento o meu querido Mineirim venha a perder nos olhos, pois sua visão do mundo está mais guardada e bem mais protegida que o seu globo ocular. As tintas mais bonitas e formas mais jeitosas serão discernidas com a clareza de sempre, pois sujeito bom como esse meu amigo enxerga mesmo é com o coração.


sábado, 2 de julho de 2011

Reticências

um ano depois (Brasil 1 X 2 Holanda - Copa do Mundo 2010)

Quanto Brasil ficou pelo caminho naquela sexta-feira de sol e chuva... Quantos gritos de gol, de Galvão, de “burro” e de “hexacampeão!”. Quantos sorrisos de Kaká, pedaladas de Robinho, petardos de Luís Fabuloso... Quantos dias ainda de julho, quantos milagres de Júlio, desarmes de Lúcio, dons de Juan... Quantas botinadas de Felipe Mello, disparadas de Maicon e dedos cruzados pela volta de Elano...

Quantos brindes à seleção mais linda do mundo, quantos dias para sair mais cedo ou para chegar mais tarde ao trabalho... Quantos beijos, braços, abraços... Quanto sofrimento, quantas alegrias e murros na mesa, socos no peito, chutes no ar...

Quanta Paulista faltou parar, Ipanema a sambar, Pelourinho a batucar... Quanto Oiapoque e quanto Chuí em silêncio fúnebre... Quanta bandeira a tremular, poesia a inspirar e corpos atônitos a transpirar...

Quantos encontros, expectativa, quantas lágrimas boas a derramar... quanto orgulho, quanto pagode, piada, peleja, pirraça, cachaça. Quanta torcida, quanta mandinga.... e quanto canto, quanta bola, quanto bolão... Quanto copo, quanta Copa, quanto mundo...

Quantos palavrões... Quanto “porra”, “caralho”, “putaqueopariu”... Quantos refrões... “é taça na raça, Brasil”. Quanto desabafo, pergunta cretina, mal-educada. Quanto Dunga a resmungar, jornalistas a trabalhar... Quanta estrela faltou brilhar, quanta pelota faltou rolar, rojões a estourar, gargantas a berrar, canarinhos a decolar...

Deixemos, pois, de salivar a infinitude das reticências... Elas carregam consigo o gosto amargo do ponto final.




* Artigo publicado originalmente no blog Crônicas da Copa