terça-feira, 27 de setembro de 2011

Rock in Rio: Eu vi [parte 1]


Sexta-feira, 23 de setembro de 2011. Jardim Botânico, 16h.

Uma hora esperando o ônibus. Os dois primeiros passaram lotados, sem parar. O terceiro, tão cheio quanto os outros, parou para que duas ou três pessoas descessem - e fechou a porta da frente para que ninguém mais entrasse. Entrei pela porta de trás, esmagado e clandestino. Quem ia ao Rock in Rio já estava cansado. Quem não ia, amaldiçoava o tumulto causado pelo festival.

A cidade parada. Zona Sul e Barra da Tijuca se difundiam num inferno inesgotável de carros, ônibus e gente sem paciência. O Rio de Janeiro perdeu suas paisagens pelo caminho e foi atingido por ondas de caos na tarde cinza que em nada parecia maravilhosa.

O motorista errou o caminho do terminal. Os passageiros gritaram. Ele parou. Cometeu infração gravíssima e voltou de marcha-ré na avenida de maior movimento da região. Os passageiros, em risco, acenaram da janela para que não viesse o pior.

No terminal não havia luz. Blecaute e multidão de todos os cantos em busca de um ônibus que chegasse, enfim, ao pressuposto paraíso. À Cidade do Rock, linda e mítica pela televisão. Na vida real, pequenas barbies maquiadas e intocáveis se espremiam com nojo e debutavam nos corredores estreitos e sujos do transporte público carioca. Novidade que elas decerto não querem provar jamais.

Quatro horas e meia depois, sem qualquer esperança em um mundo melhor, cheguei ao destino que poderia aliviar meu desgosto. Perdi a abertura, os fogos e o emblemático show dos ídolos que nasceram comigo na metade dos anos 80. Eu, no interior de São Paulo. Eles, no palco do primeiro Rock in Rio. Resignei-me, Paralamas eu vejo em casa. Num outro dia.

Camiseta. Latão. Ingressos, ingressos! Cachaça com mel. Vai chover, capa de chuva. Lá dentro é vinte, aqui é dez. Ingressos, ingressos! Latão, dois por cinco. Olha a água, o chaveiro, amendoim torrado. Ingressos?

Os ambulantes, atordoados e cínicos, revelam no grito de sobrevivência que os arredores da cidade artificial são pobres e fedem esgoto. A multidão corre às margens da realidade e atravessa os cordões de segurança sem revista qualquer.

Estão todos cansados demais e o show não pode parar. 

sábado, 10 de setembro de 2011

pepê

São duas ilhas solitárias, como nós, separadas por uma fresta ingrata de água salgada. Próximas o bastante para que se vejam a todo tempo, distantes o suficiente para que não se toquem jamais.

As ondas quebram nas rochas feito lágrimas que persistem em dissolver corações de pedra. Em vão como o vão que as deixa distantes. A silhueta das ilhas ao entardecer é triste e descolorido – e elas adormecem cobertas pelo silêncio que indaga se é mesmo impossível se amarem.

Imóveis, resignadas, fugidias, permitem que a distância seja apenas o belo cenário de um porta-retrato a estampar somente o sorriso alheio.

Por que são duas, e não uma só, as ilhas que batem à nossa janela?