Sexta-feira, 23 de setembro de 2011. Jardim Botânico, 16h.
Uma hora esperando o ônibus. Os dois primeiros passaram
lotados, sem parar. O terceiro, tão cheio quanto os outros, parou para que duas
ou três pessoas descessem - e fechou a porta da frente para que ninguém mais
entrasse. Entrei pela porta de trás, esmagado e clandestino. Quem ia ao Rock in
Rio já estava cansado. Quem não ia, amaldiçoava o tumulto causado pelo
festival.
A cidade parada. Zona Sul e Barra da Tijuca se difundiam num
inferno inesgotável de carros, ônibus e gente sem paciência. O Rio de Janeiro
perdeu suas paisagens pelo caminho e foi atingido por ondas de caos na tarde
cinza que em nada parecia maravilhosa.
O motorista errou o caminho do terminal. Os passageiros gritaram.
Ele parou. Cometeu infração gravíssima e voltou de marcha-ré na avenida de
maior movimento da região. Os passageiros, em risco, acenaram da janela para
que não viesse o pior.
No terminal não havia luz. Blecaute e multidão de todos os
cantos em busca de um ônibus que chegasse, enfim, ao pressuposto paraíso. À
Cidade do Rock, linda e mítica pela televisão. Na vida real, pequenas barbies
maquiadas e intocáveis se espremiam com nojo e debutavam nos corredores
estreitos e sujos do transporte público carioca. Novidade que elas decerto não
querem provar jamais.
Quatro horas e meia depois, sem qualquer esperança em um
mundo melhor, cheguei ao destino que poderia aliviar meu desgosto. Perdi a
abertura, os fogos e o emblemático show dos ídolos que nasceram comigo na
metade dos anos 80. Eu, no interior de São Paulo. Eles, no palco do primeiro
Rock in Rio. Resignei-me, Paralamas eu vejo em casa. Num outro dia.
Camiseta. Latão. Ingressos, ingressos! Cachaça com mel. Vai
chover, capa de chuva. Lá dentro é vinte, aqui é dez. Ingressos, ingressos!
Latão, dois por cinco. Olha a água, o chaveiro, amendoim torrado. Ingressos?
Os ambulantes, atordoados e cínicos, revelam no grito de
sobrevivência que os arredores da cidade artificial são pobres e fedem esgoto. A multidão corre às margens da realidade e atravessa os cordões de
segurança sem revista qualquer.
Estão todos cansados demais e o show não pode parar.

4 comentários:
Que pesadelo Thi!! Os show que vc conseguiu ver valeram a pena, pelo menos??
Quero estar bem longe do Rio na Copa e nas Olimpiadas...
Fiquei tensa de ver a multidão pela TV e agora, lendo seu relato, fiquei tensa de imaginar tudo isso...
É o nosso Brasilsilsil!
Caracas! E como então será a parte 2, Thiaguinho? Medo!!
Saudade da O2 Arena, parceiro?? Sabe que tem uma aqui em London também, né? Tenho certeza que vc será bem tratado aqui... ;)
Cara, bumba zuado e multidão assim eu só enfrento pra ver um show: o do Corinthians!!!!
Abraco e conta logo o resto
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