quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Rock in Rio: Eu vi [parte 2]

Sexta-feira, 23 de setembro de 2011. Cidade do Rock, 20h30.



Hora de aliviar a tensão, esquecer – por enquanto – o desconforto a que o público brasileiro é submetido em grandes eventos. Imaginem a Copa, murmuram os transeuntes. As Olimpíadas. Dane-se tudo isso, só quero tomar uma cerveja e encontrar meus amigos.

A estrutura realmente impressiona, mas não demoro a notar que a roda, apesar de gigante, não roda. O fluxo de pessoas é intenso, mas bastante tranqüilo longe do palco. Não tenho dificuldade em chegar ao local combinado, mas, qual não é minha surpresa, a tenda da cerveja que patrocina o festival não vende cerveja. Atônitos e frustrados, percebem meus botões que se trata apenas de um estande cercado de promoters boazudas e convidados vipes.

Partimos para a praça de alimentação a fim de matar a sede e de esquecer que a Cláudia Leitte vai cantar muito em breve. O copo de cerveja custa sete reais. O sanduíche de microondas, doze e cinquenta. Uma hora e meia na fila do fast food. Parte dos clientes pede explicações, clama pela gerência que não aparece. Outra parte, aquela para a qual atitude é apenas uma estampa de camiseta, não se move e não se importa em ser mal tratada.

Os funcionários do pelotão de frente não se constrangem diante da câmera amadora que registra o descaso. Ao contrário, distribuem cinismo, poses, sorrisos e perguntam se “vai para o Facebook” (a única chance de alguém, afinal, curtir sua performance). Longe dali, os ambulantes “oficiais” extrapolam a extorsão: a cerveja sai por nove reais.

- Mas não é sete? Tá escrito no seu macacão!
- Tá bom, pode ser. Sete.

A cerveja está quente. O sanduíche de microondas, congelado por dentro. Mais uma fila para trocá-lo. E quem poderá nos defender? Cláudia Leitte, no palco, aponta o caminho em ritmo de micareta: “segura a pata do caranguejo”. Faz sentido. Ainda dá para regredir.

A “cidade” é um circo publicitário camuflado onde o rock não passa de um produto de mercado tão lucrativo quanto Che Guevara. Subversão é uma etiqueta de grife na vitrine das melhores butiques. A tenda da cerveja não vende cerveja. E os funcionários da operadora de celular, claro, desconhecem informações sobre o chip pré-pago, seu produto mais banal. A multidão, no entanto, se esparrama pelo chão sujo quando os patrocinadores oficiais da contracultura distribuem souvenirs vagabundos de graça. Nossa mesquinhez terceiro-mundista é assustadora e deprimente.

Alguma coisa está errada quando o melhor do festival até aqui é o banheiro masculino. O imenso mictório ao ar livre permite que os pênis não se espremam desesperados, mas a verdade é que ainda estamos de saco cheio ao sair de lá.

A Cláudia Leitte, pelo menos, já foi embora. 

Mas cadê a Rita Lee? Ela não veio?