segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

o caminho dos cegos

Foi hoje cedo em São Paulo. Pode ser a qualquer dia, a qualquer momento que nos passa despercebido. Sem salvação ou surpresa, o fim. Apenas mais uma crônica da perplexidade na terra desesperada de mãos e olhos estranh
os. 



O cego tateava a faixa-guia à beira da plataforma de uma estação de metrô. Sua batuta não conseguia reger mais do que dois passos tímidos antes de esbarrar na confusão orquestrada da mobilidade urbana.

Olhava para a frente mesmo sem enxergar coisa alguma. Talvez imaginasse cores, desvendasse a origem de tantos sons. Caminhava em singela harmonia com o toque de sua bengala, mas de repente parava nos sapatos alheios. Muitos, ao contrário dele, olhavam para baixo -- para a palma das mãos, para o mundo de infinitas possibilidades do esmartefone.

Quando o homem percebeu, estava preso no trânsito de gente que, sem delicadeza alguma, ocupava a única passarela que lhe cabia na cidade grande. Ele não transitava por ruas e avenidas, jamais havia surfado no tsunami de aplicativos. Só queria chegar ao trem e, quem sabe, deduzir a vida debaixo da terra. Será que também tinha cores? Por que os vagões eram bem mais rápidos que ele se também estavam no escuro? Antes de seguir viagem, contudo, desistiu de perguntas assim enquanto se desculpava por mais um esbarrão.

Havia tanta gente em seu caminho que o homem dos olhos turvos, sem saber se por isso era mais feliz ou mais triste, pensou: quem são, afinal, os verdadeiros cegos por aqui?

Um brinde a José Saramago.






sexta-feira, 2 de novembro de 2012

o gol de barcos


Amigos boleiros, amigos e amigas que detestam o futebol,

O gol de Barcos envolve todos vocês. O simples gol de Barcos, personagem da semana, evidencia o óbvio que só os profetas enxergam: estamos emburrecendo. O inválido gol de Barcos escancara nossa fragilidade moderna e expõe nossa desafeição ao épico.

Sinceramente? De agora em diante, pouquíssimo importa a decisão do nosso tribunal desportivo. A impugnação da partida, a contagem dos pontos, o depoimento de fulanos e beltranos... tudo isso é detalhe. O gol de Barcos, qualquer que seja o resultado do escrutínio, não volta mais. Os escravos voluntários da tecnologia e os idiotas da objetividade venceram. 

O empate, àquela altura, valeria um precioso ponto ao time de verde e branco. E quão belo seria ainda se este único ponto, exatamente este conquistado pelo gol de mão, salvasse o Palmeiras do rebaixamento! Eis a verdade: não haverá beleza qualquer se a partida for remarcada, os paulistas vencerem e escaparem do pesadelo por causa dos três pontos. Os trombeteiros profissionais e amadores desde já preparam o grito: Tapetão!

Pior do que isso, amigos. O carnaval a que assistimos nos últimos dias é a sobreposição dos androides sobre nós mesmos. Reduziram as tragédias gregas de nossos gramados a julgamentos que servem para rechear jornal. Sacrificaram a beleza da imperfeição, enalteceram a lamentável estupidez dos pragmáticos. Vamos e venhamos: deixemos a razão para as partidas de xadrez. O futebol é drama, imprevisão, epopeia... o futebol é emoção que admite equívocos e inglórias. Suspense que deve se resolver em noventa minutos -- e nada mais.  

Errar, verbo intrínseco à condição humana e componente indissociável do romantismo ludopédico, hoje se transformou em risco de vida. Aos olhos dos torcedores, jogadores, treinadores e colegas de imprensa, o árbitro é o único dos terráqueos que não pode agir como tal. Somente por isso, digo, pela pressão e pelo compreensível pavor de ser execrado, é que o árbitro do último final de semana recorreu à televisão para se redimir. Piorou tudo: substituiu o erro folclórico e humano que tanto enche de graça o futebol pelo erro dos pusilânimes. 

O gol de Barcos reflete nossos medos, nossas fraquezas e nossa obediência à burocracia e ao dito inovador.

Amigos, encomendemos as flores mais bonitas. Neste feriado que se propõe a celebrar aqueles que já se foram, oremos pelo nosso futebol que morre todos os dias.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

os cabeludos

Ainda que tenhamos nos conhecido na faculdade de jornalismo, foi principalmente por causa da música que nos tornamos grandes amigos. No último sábado, presenteados por uma série de acasos, reencontramo-nos exatamente como uma banda que volta a se reunir depois de longo hiato. Cheios de outras estradas, novidades e histórias paralelas, mas cumplicidade inabalável.

Quase dez anos atrás, éramos os "Beatles do Jornalismo". Não, nunca ensaiamos juntos ou compusemos qualquer coisa que fosse música. Criamos, sim, bordões e piadas que muitas vezes só faziam sentido entre nós. Mais do que isso, criamos nossa maneira de rir (dos outros, das coisas, de tudo). Eis nossa maior composição e nosso maior legado a nós mesmos: o riso fácil, exagerado e incômodo aos olhos de um estranho.

Parecíamos uma banda talvez apenas porque éramos todos cabeludos. Depois de chegarmos carecas à faculdade, cada um de nós espontaneamente deixou o cabelo crescer -- por relaxo, trauma da cabeça raspada ou qualquer motivo que seja. E os estranhos, aqueles de quem a gente ria diariamente, tinham certeza que havíamos combinado tudo em nome do estilo.

Depois de tantos anos e muitas aulas em vão, o que nós combinamos foi o encontro num show do Paul Mccartney. Algo que não aconteceu - ainda - exclusivamente por minha causa. E, vejam vocês, o acaso riu de nós cinco como nós sempre rimos dos outros: acabamos por nos encontrar num show de João Carreiro & Capataz. Celebramos nossa amizade e nossas boas memórias ao som de Munhoz & Mariano. Deixamos de lado o submarino pelo Camaro.

Quase dez anos depois, descobrimos que nem o rock e tampouco o jornalismo são capazes de mudar o mundo. Mas quando foi que algum de nós se propôs a tanto? Dane-se o mundo. Conseguimos nos emocionar e nos divertimos da mesma forma como sempre fizemos. Revivemos nossa embriaguez juvenil e nossa arrogância inofensiva. Brindamos à genuína alegria de estarmos juntos.

O reencontro, meus amigos, foi prova incontestável de que as coisas não mudam - e de que o mundo, afinal, sempre será um gibi.




quarta-feira, 25 de julho de 2012

alsácia

Havia alguma coisa de triste em mim. Não sei se foi o violino ou as cores foscas do centre ville. De repente cansei de brincar. Enjoei de tanto rodopiar sobre fantasias e cavalos mudos. Contigo, afinal, vislumbrei cavalgadas bem menos infantis. Mas, feito criança, recortei um pedaço do mar a fim de colar minha mão na sua. 

Havia alguma coisa de triste em mim. Não sei se foi o beijo na mesa ao lado ou o sol que figurava ao longe sem aquecer. Percebi que estava perdido e condenado a andar em círculos - sem saber se meu coração batia em Alsácia ou Lorena. 

Cessem as badaladas, segurem os ponteiros deste inimigo nefasto que não volta jamais. Quero descer do nosso amor-carrossel.


domingo, 8 de julho de 2012

descaminho



Só me procure se quiser saber de mim. Procure-me só, sem armas ou sem espinhos.

Só me procure se ainda sabe o meu lugar no mundo, o meu endereço. Se um dia soube. Se um dia tive. 

Não apareça assim, nem tão de repente, porque pode não me ver mais em mim. Ando cá bastante distinto do que fui um dia, colhendo um pouco do melhor e do pior de nós. De tantos nós. Cabelos mais ralos e olhos de vez em quando menos transbordantes. Bem menos, de vez em quando. 

Deixa estar, os médicos dizem que não há remédios para essa estranha doença que é ser normal. Loucura? Eu só quero a estrada vazia e o peito cheio de sonhos. Eu só quero mais vinho, mais poesia e virtude. 

Jamais volte a bater em minha porta sem me dizer oi, tudo bem, eu vou indo e você como vai. Jamais volte a simplesmente bater sem porquê. Sem dizer à estrela, ao relógio e ao vento que me ama também. 

sábado, 9 de junho de 2012

zarpão


Dias atrás você disse que tem saudades de nós e daqueles tempos que não voltam mais. Quantos meses ficamos sem nos ver? Quantos anos, às vezes? Pouco importa. Aqueles tempos não voltam mais simplesmente porque não se foram. Nossa infância é atemporal - e de alguma forma estaremos sempre jogando bola na praça, trepando nos galhos da magnólia amarela e atravessando madrugadas a conversar sobre a vida.

Chacoteamos, lembra, quando você propôs que marcássemos um dia no ano para a reunião dos amigos. Deixaríamos o trabalho e a rotina para compartilhar as novidades e celebrar as histórias de sempre. Um feriado, um final de semana, uma data qualquer. Àquela altura, só você percebia que nossas vidas teriam rumos distintos, distantes. E hoje, ao ser o primeiro de nós a se casar, você nos dá a chance de nos reunirmos e de compreendermos o que você quis dizer há tantos anos.

Por essas e outras, muitas outras, você é e sempre foi o nosso precursor. Só o futuro distante vai dizer se é um homem à frente do seu tempo, mas importante é que o  passado já mostrou que sempre foi um menino à frente dos seus amigos.  Privilégio nosso. E neste momento que se propõe a festejar o amor, festejamos sua amizade buscando quaisquer palavras que, em vão, definam a sua grandeza.

O Zarpão? Dono de si, dono do mundo.

Mas a despeito de qualquer distância e do tempo que não consegue levar embora a nossa cumplicidade, esteja sempre conosco. Porque nós estaremos sempre contigo -- seja em Rio Claro, nas ruas da nossa infância, seja nas músicas da Legião Urbana, seja no Marrocos -- onde agora há quem te dê um abraço do tamanho do seu coração.

Seja muito feliz.
Com amor e admiração eternos
(como eternos somos uns para os outros).

Seus amigos


sexta-feira, 20 de abril de 2012

o homem das cinco rezas

Os dias e as horas são indiferentes quando caminhar pela avenida maior é ouvir apenas os próprios passos. Pode ser domingo, segunda ou coisa qualquer... pode ser um sábado. Não há luzes nem vozes, não há samba nem boa birita.  Soturno e só, atravessa a rua sem se importar com a chuva rala ou o vento febril. 

Um carro desliza sobre o asfalto laminado, os manequins de vitrine testemunham os hábitos fúnebres de quem vagueia pela alameda sem flores. A noite chegou, enfim, depois de mais uma tarde que demorou anos para acabar. O homem desliga a tevê e reserva seu tempo perdido à espera dos jornais com notícias velhas. 

Submerso na tristeza de uma cidade onde as casas são todas da mesma cor e os rostos pertencem ao mesmo véu, ajoelha-se diante da vida que lhe cabe e espera pelo momento de redenção. Toda a ebulição guardada num copo de chá. Toda a esperança enrolada no pequeno tapete persa. Com o sorriso amargo sempre escondido debaixo do bigode grisalho, agradece pela mulher que não escolheu e pela privação dos prazeres que não vai conhecer jamais.

A mesquita irrompe o silêncio antes de o sol nascer, anunciando num rasgo estridente que é hora de louvar mais um dia. Mais um daqueles que se demoram a passar, mas que rapidamente se apagam porque quase nada é capaz de os tornar inesquecíveis. 

sexta-feira, 16 de março de 2012

o homem que não sonhava

Por sempre andar com os pés no chão, fatigou-se muito antes do fim do caminho. 

quarta-feira, 14 de março de 2012

o homem de um caminho só

"Entender é sempre limitado
(Clarice Lispector)


Nasceu doente, ninguém percebeu. Nem ele.

Arrastou todos os seus dias em busca inconsolável pelas mesmas respostas - e diante da finitude, muitos e muitos anos depois, consternou-se: deveria ter buscado novas perguntas.

Tarde demais.

Morreu assim, previsível, monótono. Doente.






sábado, 18 de fevereiro de 2012

só de solidão


Que poeta, que nada.

Escrevo apenas porque estou só e porque me inspira a solidão de todos os dias.

Queria nunca mais escrever coisa alguma.


quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

seu rosto no céu

Arrumei a casa como se fosse lhe receber agora. Deixei flores e delícias para lhe encantar. Luzes acesas a retribuir a alegria da sua chegada e velas dispersas a testemunhar o calor do nosso beijo lépido. 

Preparei o jantar e o seu banho quente. Tudo como se fosse lhe receber agora. O vinho da safra mais velha e o perfume do frasco menor. Desenhei quadros novos na parede e pintei escadas prontas a nortear seus passos quando quiser descansar. Improvisei uns versinhos e os guardei debaixo do seu travesseiro.

Refutei a barba rala, desarrumei o cabelo para lhe parecer o seu menino de sempre. Dentre as novidades que há tanto guardo comigo, escolhi para lhe contar somente as mais breves. Para lhe ouvir mais e lhe saber melhor. 

Ensaiei meu abraço. Pressupus, em lágrimas, minha emoção. Combinei com os passarinhos que só parem de gorjear depois do amanhecer. 

E a despeito de toda a loucura, brindarei, contente que só, a mais uma noite na casa vazia. 





domingo, 5 de fevereiro de 2012

neymar


Vê! O menino sabe sorrir com os pés. E enquanto todos os outros pelejam, Neymar se diverte como quem leva aos gramados o ditado que vem das ruas: atrás da bola sempre vem uma criança. Seu futebol atordoa, confunde... e enquanto ele passa, ficamos pelo caminho a perguntar se está driblando ou se está dançando.

Moleque mulato, matreiro, malvado, magrelo, moicano. Por vezes mimado, por vezes metido a maduro. Dribla aqui e acolá em seu inefável dom de rodopiar a bola como se só a bola seu mundo fosse. Nos pés de Neymar, sofrimento e futebol não combinam. Testemunhamos, nestes mesmos pés, o casamento entre ousadia e alegria. Que ousadia! Que alegria!

Neymar encanta as meninas, entorta os marmanjos, entoa o hino santista no fundo de cada gol. Neymar não é Arantes do Nascimento, mas é sim da ressurreição. Quem foi que despertou em gramados nossos o futebol-arte das lendas adormecidas? Neymar não é Pelé também nem precisa... personalidade jamais lhe faltou da cabeça aos pés.

Dança aqui e acolá a ensaiar rabiscos tortos no quadrilátero verde e branco. Dribla aqui e acolá a conjugar seu nome em todos os tempos e todos os campos.

Domingo último, porém, Neymar mostrou que não é perfeito. Ainda bem. O clássico, o centésimo tento e o vigésimo natalicio... tudo seria festa não fosse a derrota. Abençoada seja! A perfeição não teria a simplicidade e a picardia deste camisa onze. Porque Neymar dribla e dança, aqui e acolá.

Não gostam do esporte bretão aqueles que não reverenciam este formidável prodígio. Festejemos Neymar, fino retrato do futebol mais brasileiro.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

poema no bilhete


Não danço, amor
Não sei dançar
Se o soubesse
Então o faria contigo
Meu único par

Não danço, amor
Não sei dançar
Mas amo
Alegre e profundamente
Amo e sei amar
Se meu coração arrisca um compasso
É somente por ti
Meu único par

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

barcos de papel

Em vão, como os poemas e as promessas. Em vão como sonhos, surpresas, silêncio e solidão. Como as agruras e as pelejas, em vão como os santos de bronze e o filho pregado na cruz.

Em vão como o seu mural sem retratos, de estrelas vazadas a iluminar o nosso vazio.  Como o seu nome gravado na minha mão. Como os nossos destinos todos espremidos na mala que não desfiz. 

Em vão como o sim e o não. Como o dó e a dor. A eternidade, afinal, é um delírio fugaz. E a verdade? A maior das mentiras.

Simplesmente em vão, como vêm e vão os homens e seus amores...

Feito barcos de papel. 

murphy e a tormenta

- Aqui. Meus últimos cruzados no melhor guarda-chuva da loja.
- Já era tempo, amigo, finalmente vai se proteger desse pé d'água...
- A chuva é que vai parar.


domingo, 15 de janeiro de 2012

todo passo

Seu rosto debaixo de cada véu, seu corpo escondido detrás da cidade velha. Sete sem ti. Dois olhos passeiam por uma casa que não é minha, confusos e vagarosos. Errantes, melancólicos. 

Surpreende-me reviver sozinho o nosso beijo às escondidas. Somente o mar em comum, mas águas distintas, distantes. Sete sem ti. A muralha e os labirintos, a chuva que não vem do céu. Sua poesia marginal num verso apenas, numa palavra que não se repete porque já passou. Pretérito. Perfeito.

Sete sem ti. E mesmo sem estar à vista, és dona de todo passo meu. 

E todo beijo.