sexta-feira, 20 de abril de 2012

o homem das cinco rezas

Os dias e as horas são indiferentes quando caminhar pela avenida maior é ouvir apenas os próprios passos. Pode ser domingo, segunda ou coisa qualquer... pode ser um sábado. Não há luzes nem vozes, não há samba nem boa birita.  Soturno e só, atravessa a rua sem se importar com a chuva rala ou o vento febril. 

Um carro desliza sobre o asfalto laminado, os manequins de vitrine testemunham os hábitos fúnebres de quem vagueia pela alameda sem flores. A noite chegou, enfim, depois de mais uma tarde que demorou anos para acabar. O homem desliga a tevê e reserva seu tempo perdido à espera dos jornais com notícias velhas. 

Submerso na tristeza de uma cidade onde as casas são todas da mesma cor e os rostos pertencem ao mesmo véu, ajoelha-se diante da vida que lhe cabe e espera pelo momento de redenção. Toda a ebulição guardada num copo de chá. Toda a esperança enrolada no pequeno tapete persa. Com o sorriso amargo sempre escondido debaixo do bigode grisalho, agradece pela mulher que não escolheu e pela privação dos prazeres que não vai conhecer jamais.

A mesquita irrompe o silêncio antes de o sol nascer, anunciando num rasgo estridente que é hora de louvar mais um dia. Mais um daqueles que se demoram a passar, mas que rapidamente se apagam porque quase nada é capaz de os tornar inesquecíveis.