sexta-feira, 2 de novembro de 2012

o gol de barcos


Amigos boleiros, amigos e amigas que detestam o futebol,

O gol de Barcos envolve todos vocês. O simples gol de Barcos, personagem da semana, evidencia o óbvio que só os profetas enxergam: estamos emburrecendo. O inválido gol de Barcos escancara nossa fragilidade moderna e expõe nossa desafeição ao épico.

Sinceramente? De agora em diante, pouquíssimo importa a decisão do nosso tribunal desportivo. A impugnação da partida, a contagem dos pontos, o depoimento de fulanos e beltranos... tudo isso é detalhe. O gol de Barcos, qualquer que seja o resultado do escrutínio, não volta mais. Os escravos voluntários da tecnologia e os idiotas da objetividade venceram. 

O empate, àquela altura, valeria um precioso ponto ao time de verde e branco. E quão belo seria ainda se este único ponto, exatamente este conquistado pelo gol de mão, salvasse o Palmeiras do rebaixamento! Eis a verdade: não haverá beleza qualquer se a partida for remarcada, os paulistas vencerem e escaparem do pesadelo por causa dos três pontos. Os trombeteiros profissionais e amadores desde já preparam o grito: Tapetão!

Pior do que isso, amigos. O carnaval a que assistimos nos últimos dias é a sobreposição dos androides sobre nós mesmos. Reduziram as tragédias gregas de nossos gramados a julgamentos que servem para rechear jornal. Sacrificaram a beleza da imperfeição, enalteceram a lamentável estupidez dos pragmáticos. Vamos e venhamos: deixemos a razão para as partidas de xadrez. O futebol é drama, imprevisão, epopeia... o futebol é emoção que admite equívocos e inglórias. Suspense que deve se resolver em noventa minutos -- e nada mais.  

Errar, verbo intrínseco à condição humana e componente indissociável do romantismo ludopédico, hoje se transformou em risco de vida. Aos olhos dos torcedores, jogadores, treinadores e colegas de imprensa, o árbitro é o único dos terráqueos que não pode agir como tal. Somente por isso, digo, pela pressão e pelo compreensível pavor de ser execrado, é que o árbitro do último final de semana recorreu à televisão para se redimir. Piorou tudo: substituiu o erro folclórico e humano que tanto enche de graça o futebol pelo erro dos pusilânimes. 

O gol de Barcos reflete nossos medos, nossas fraquezas e nossa obediência à burocracia e ao dito inovador.

Amigos, encomendemos as flores mais bonitas. Neste feriado que se propõe a celebrar aqueles que já se foram, oremos pelo nosso futebol que morre todos os dias.