segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

o caminho dos cegos

Foi hoje cedo em São Paulo. Pode ser a qualquer dia, a qualquer momento que nos passa despercebido. Sem salvação ou surpresa, o fim. Apenas mais uma crônica da perplexidade na terra desesperada de mãos e olhos estranh
os. 



O cego tateava a faixa-guia à beira da plataforma de uma estação de metrô. Sua batuta não conseguia reger mais do que dois passos tímidos antes de esbarrar na confusão orquestrada da mobilidade urbana.

Olhava para a frente mesmo sem enxergar coisa alguma. Talvez imaginasse cores, desvendasse a origem de tantos sons. Caminhava em singela harmonia com o toque de sua bengala, mas de repente parava nos sapatos alheios. Muitos, ao contrário dele, olhavam para baixo -- para a palma das mãos, para o mundo de infinitas possibilidades do esmartefone.

Quando o homem percebeu, estava preso no trânsito de gente que, sem delicadeza alguma, ocupava a única passarela que lhe cabia na cidade grande. Ele não transitava por ruas e avenidas, jamais havia surfado no tsunami de aplicativos. Só queria chegar ao trem e, quem sabe, deduzir a vida debaixo da terra. Será que também tinha cores? Por que os vagões eram bem mais rápidos que ele se também estavam no escuro? Antes de seguir viagem, contudo, desistiu de perguntas assim enquanto se desculpava por mais um esbarrão.

Havia tanta gente em seu caminho que o homem dos olhos turvos, sem saber se por isso era mais feliz ou mais triste, pensou: quem são, afinal, os verdadeiros cegos por aqui?

Um brinde a José Saramago.