segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

dez a zero


Amigos corintianos, amigas solteiras, 

Diziam que ele não tem "a cara" do Corinthians. Diziam. Mas qual é "a cara" do Corinthians de hoje senão o sorriso e a vitória? Senão a estrela? 

Diziam, aliás, que ele é "estrelinha". Antes do início do jogo, foi o protagonista em pleno banco de reservas.  Atendeu a todos com a timidez de quem ainda está se acostumando a voltar pra casa. No intervalo,  procurei por ele para perguntar sobre as reações, a ansiedade, o estranho hábito de amarrar e desamarrar as chuteiras a todo minuto. Mas ele se esquivou, exatamente por não ser "estrelinha"... Depois de três gols e tantos nomes em evidência no primeiro tempo, não seria justo aceitar os holofotes sobre si mesmo.

Diziam também que, depois de tantas lesões, ele estava morto. Diziam. Para as mulheres, é o rosto de menino prodígio... Para os homens, é o número estampado sobre suas costas: ele tem sete vidas. 

Deixemos que digam. Digamos que deixa estar... A beleza de Alexandre Pato está na genuína alegria de quem vive, tão cedo, os primeiros passos do recomeço.



domingo, 3 de fevereiro de 2013

sinceras saudades



"Oh for a life of sensations rather than thoughts.”
(John  Keats)


Amigos,

Assim que cheguei ao terminal e ouvi os alto-falantes anunciando o sem-número de chegadas e partidas, recobrei a indescritível sensação de estar lhes visitando de novo. À medida que o homem pronunciava seu inglês polido e sem vícios, ecoando sobre o vai-vem de passageiros de todos os cantos, pensei no quanto os próximos dias seriam pequenos demais para dividirmos  tudo o que vivemos desde a última vez. 

Sentir frio em janeiro, observar tantos rostos distintos num só vagão, passear por tantos caminhos sem ser notado. Onde mais senão margeados pela serenidade do Tâmisa? E a despeito de carregar apenas a mochila nas costas, nalgum momento de introspecção e delírio presumi que poderia ficar para sempre. Revivi, apoiado sobre qualquer pilar do saguão, minhas memórias embaçadas daquele junho de aniversário... O bolo-surpresa, o riso fácil, os omeletes de quinze ovos, a torcida em silêncio no meio da madrugada. As garrafas em volta do meu travesseiro. O churrasco improvisado debaixo da chuva rala. A varanda larga diante do céu cinzento. Fotografias vivas, irrequietas. 

Antes de pegar o próximo trem, preferi ouvir um pouco mais do inglês que norteava milhares de passos e relembrava minuto a minuto que é proibido fumar dentro daquela estação. Hesitei, talvez vocês sequer estivessem em casa àquela hora do dia. Pretexto perfeito para comprar os eme-emes das meninas e depois buscar umas cervejas artesanais no Borough Market. Ideal seria mesmo chegar mais tarde, quando fosse a hora do jogo e o rapaz do quarto ao lado já estivesse a trabalhar. 

As palavras do alto-falante me surpreendiam e inebriavam feito versos de Keats. Eu estava de volta, enfim, e nem eu próprio fora avisado. Escolhi ir ao balcão de informações, menos por não saber onde eu estava e mais pelo prazer de vaguear pelo sotaque britânico. Perguntei pelo jeito mais demorado de alcançar as artérias de Old Kent Road, mas a rapariga não entendeu. Repeti, insinuante, que não tinha pressa alguma -- o inglês ensaiado dos tempos de escola, a fluência malemolente das tardes na O'Connell Street. A pobre criatura me olhava cheia de pavor, eu falava grego, eu falava a língua do belzebu, até que ela puxou pelo braço o infeliz ao lado. Me fez repetir, em mímicas, e o bastardo arrastou um par de palavras: 

- Jabaquara Station! Ali, Jabaquara Station!!

O inglês a ressoar do alto-falante desordenou meu destino. Passagem febril, amigos, mentira, preparativos para a merda da Copa do Mundo. Tietê, São Paulo, Jabaquara Station. Senti sinceras saudades de vocês... mas o reencontro, ainda que turvo, foi inesquecível.