domingo, 12 de maio de 2013

a minha melhor do mundo


Você já se acostumou com o meu discurso pronto a respeito do Dias das Mães. Serve para que os comerciantes vendam mais bolsas, mais flores, mais perfumes e telefones inteligentes. Serve para que os jornais tenham matérias alegres no meio de tanto sangue e tristeza. Para que o sistema se reproduza e para que muitos hipócritas celebrem a falsa união. Nos tempos modernos, serve para que todo mundo manifeste seu amor incondicional nas redes sociais -- ainda que boa parte de suas progenitoras sequer saiba quem é o tal facebook. 

Dizem que sou chato, rabugento, insensível. Mas... A dor no peito dos últimos meses me ensinou que a opção mais serena é tentar ser alguém melhor (o que quer que seja isso). Percebi, então, que se você por  acaso não estivesse mais entre nós, eu certamente ia chorar muito a sua ausência no Dias das Mães. 

Você também já se acostumou com a nossa distância e a frequente impossibilidade de almoçarmos juntos nesses domingos. Talvez seja por isso mesmo que você deixa a novela, a comida no fogo e o que mais precisar quando sabe que vai me ver na tevê. Mesmo que sejam só uns segundos durante uma transmissão, aquele é o nosso encontro que eu não posso te proporcionar pessoalmente. Mesmo que você nunca tenha se interessado por um programa esportivo, hoje você não deixa de acompanhar o Lino, o Bruno, a Aurora e o Rizek à espera de que eles chamem meu nome. Gosto quando apareço por ali e, claro, não é por vaidade alguma. É apenas para que você me veja e saiba que eu estou bem. Acho até que às vezes você nem ouve tudo o que eu disse na reportagem... mas você curte, comenta, compartilha.

Também gosto de te ligar quase todos os dias, mesmo quando não tenho nada de interessante a dizer. Sei que você espera por isso e está aflita para me perguntar: "hoje tem matéria?". Quando eu ainda sonhava em ser astronauta ou lixeiro, você foi a primeira a dizer que eu seria jornalista. Eu queria sair do planeta ou passear pelas ruas da cidade inteira, mas você soube enxergar que meu plano mesmo era o meio do caminho... e hoje eu estou aqui, pretensiosamente querendo ganhar o mundo. Vivendo na cidade do seu coração. 

Ninguém sofreu mais do que você com as minhas partidas. Ainda assim, jamais me pediu que eu ficasse. Não sei quantas vezes isso vai acontecer de novo, mas tenho certeza que em todas elas você vai me levar chorando até o portão de embarque e depois vai contar os dias para me buscar sorrindo e me levar de volta pra casa. Só que, mãe, nossa casa é apenas o meu refúgio passageiro. Sequer posso desfazer as malas.


Eu tenho saudades da minha infância mais remota, quando você cantava Roberto Carlos para eu conseguir dormir. Ainda hoje é impossível ouvir "O Calhambeque" e não ouvir sua voz risonha naquele trecho do bi bidum bidubidum bidubi...  . Tenho saudades de tantos e infinitos detalhes de nós dois, pequenos ou não. De abrir o portão quando você voltava da escola, de dormir tarde pra te fazer mais companhia. Sua comida, seus defeitos, sua prontidão em me agradar de qualquer maneira. Sinto falta, principalmente, dos momentos sublimes e prosaicos que hoje podemos viver tão pouco.  

Dizem que sou a sua cara, mas acho que sou mesmo o seu coração. Dentro da nossa história, você vai sempre ser a protagonista - e no difícil papel de ser minha mãe, você é simplesmente a minha pessoa mais amada do mundo. 

Feliz Dias das Mães. 

segunda-feira, 6 de maio de 2013

nanananá


Sábado, quatro do cinco, recebi uma das ligações mais bonitas dos últimos quase vinte e oito anos. O identificador de chamadas reconheceu o amigo Guido Nunes do outro lado da linha, mas ele não disse uma palavra sequer. Ele estava em Belo Horizonte e eu, distante, em Ribeirão Preto. Ambos a trabalho, cada qual curtindo o seu merecido momento de descanso: enquanto eu bebia uns copos daquele chope clichê e obrigatório, ele assistia ao Paul Mccartney ao vivo no Mineirão.

Quase não foi, é verdade, mas recobrou a sabedoria a tempo... e colocou a emoção alguns degraus acima da razão. Pressupus a intensidade do momento antes mesmo de atende-lo. E quando finalmente o fiz, pude ouvir apenas o "nanananá" mais famoso e mais singelo do mundo. Definir com exatidão o meu sentimento é deixar de lado palavras necessariamente poéticas: foi foda pra caralho!

Naqueles breves instantes, me lembrei da primeira vez em que "encontrei" Paul Mccartney. Me lembrei de Dublin, do choro incontido do começou ao fim. Dos amigos que estavam comigo, das músicas que não consegui cantar e dos poucos metros que me separavam de um Beatle. Me lembrei, então, da segunda vez... e me lembrei do amor, das fotos, das impressões na volta pra casa. Me lembrei do texto que até hoje não escrevi e da sensação de que Paul, depois daquele dia, era como um velho chapa.

Enquanto ouvia o coro e o piano ao fundo, me lembrei dos amigos com quem jamais cumpri o sonho em comum. Eles, mais uma vez, estavam ali na frente cantando (e nalgum segundo, juro, pude ouvir apenas os três); eu, de novo, estava noutro lugar do planeta. Noutro lugar do plantão. Me lembrei dos ingressos perdidos, das histórias que não pude viver ou compartilhar. Só não me lembrei da primeira vez que ouvi Hey Jude porque tenho comigo a ideia de que essa é daquelas músicas que a gente já nasce sabendo, cantando... na-na-na-nanananá.

Viajei feito um louco de pedras e voltei o olhar ao nome do Guido estampado no telefone. Pensei, com satisfação imensurável, que ele estava diante de alguém que fez exatamente o que a gente ainda quer tanto fazer: aquele cara deixou o mundo muito melhor.

E o Guido, naquele par de minutos, conseguiu o mesmo sem que fosse preciso dizer coisa alguma.