segunda-feira, 6 de maio de 2013

nanananá


Sábado, quatro do cinco, recebi uma das ligações mais bonitas dos últimos quase vinte e oito anos. O identificador de chamadas reconheceu o amigo Guido Nunes do outro lado da linha, mas ele não disse uma palavra sequer. Ele estava em Belo Horizonte e eu, distante, em Ribeirão Preto. Ambos a trabalho, cada qual curtindo o seu merecido momento de descanso: enquanto eu bebia uns copos daquele chope clichê e obrigatório, ele assistia ao Paul Mccartney ao vivo no Mineirão.

Quase não foi, é verdade, mas recobrou a sabedoria a tempo... e colocou a emoção alguns degraus acima da razão. Pressupus a intensidade do momento antes mesmo de atende-lo. E quando finalmente o fiz, pude ouvir apenas o "nanananá" mais famoso e mais singelo do mundo. Definir com exatidão o meu sentimento é deixar de lado palavras necessariamente poéticas: foi foda pra caralho!

Naqueles breves instantes, me lembrei da primeira vez em que "encontrei" Paul Mccartney. Me lembrei de Dublin, do choro incontido do começou ao fim. Dos amigos que estavam comigo, das músicas que não consegui cantar e dos poucos metros que me separavam de um Beatle. Me lembrei, então, da segunda vez... e me lembrei do amor, das fotos, das impressões na volta pra casa. Me lembrei do texto que até hoje não escrevi e da sensação de que Paul, depois daquele dia, era como um velho chapa.

Enquanto ouvia o coro e o piano ao fundo, me lembrei dos amigos com quem jamais cumpri o sonho em comum. Eles, mais uma vez, estavam ali na frente cantando (e nalgum segundo, juro, pude ouvir apenas os três); eu, de novo, estava noutro lugar do planeta. Noutro lugar do plantão. Me lembrei dos ingressos perdidos, das histórias que não pude viver ou compartilhar. Só não me lembrei da primeira vez que ouvi Hey Jude porque tenho comigo a ideia de que essa é daquelas músicas que a gente já nasce sabendo, cantando... na-na-na-nanananá.

Viajei feito um louco de pedras e voltei o olhar ao nome do Guido estampado no telefone. Pensei, com satisfação imensurável, que ele estava diante de alguém que fez exatamente o que a gente ainda quer tanto fazer: aquele cara deixou o mundo muito melhor.

E o Guido, naquele par de minutos, conseguiu o mesmo sem que fosse preciso dizer coisa alguma.


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