sábado, 10 de agosto de 2013

meu querido, meu velho, meu amigo

Pai,

Não temos do que reclamar: a distância que hoje nos separa é a mesma que um dia nos aproximou. Depois que eu fui embora de casa, dez anos atrás, ficamos muito mais "pai e filho". Reconheci todo o seu valor ao custo de muitas saudades, mesmo que em momento algum você tenha faltado comigo. 

A distância que hoje nos separa é o preço do bem mais valioso que você já me permitiu: a liberdade. De tudo o que me proporcionou até aqui (e não foi pouco), nada é mais importante que ela. Escolhi minha profissão, minha faculdade, meus lugares no mundo de quando em quando. Não importa se perto de casa ou do outro lado do mar, você deixou que eu procurasse pelo meu destino e abençoou todas as minhas partidas; confiou nas minhas decisões juvenis com a serenidade de quem percebe o dever cumprido. 

Antes que eu pudesse discernir, ainda criança, as minhas preferências, você me pegou pela mão. Cultivou em mim o hábito de ler jornal todos os dias (começamos pelo caderno de esportes!). Depois, me levou ao estádio de futebol pela primeira vez... assistimos ao nosso Rio Claro na última divisão; me levou também ao ginásio de basquete...  comemoramos o nosso Rio Claro tantas vezes campeão! Você me acordou cedo aos domingos para vibrarmos juntos com o Ayrton Senna... e mais tarde me colocou pra dormir depois da última mesa redonda. 

Mas, quando eu era pequeno, o meu herói era o Batman. Hoje, Crespão, é você. Hoje, sempre foi você. Porque não fraquejou nos momentos difíceis. Porque no saudável desejo de buscar sempre mais, soube se reinventar aos sessenta e realizar uma porção de sonhos que estavam cheios de pó. Sua alegria de menino ao me trazer as novidades no dia a dia me inspiram, no mínimo, a lhe retribuir boas notícias. 

Pai, espero que o seu domingo seja especial sem que você precise fugir da sua simplicidade. Basta que o nosso time vença e você acompanhe os gols com o seu radinho de pilhas colado no ouvido; basta que você consiga cochilar no sofá com saúde e a tranquilidade de quem, pelo menos hoje, não tem compromisso algum. Se passar pelo violão, não se esqueça de dedilhar aquela música do Roberto que você me ensinou ("Já nem sei dizer se sou feliz ou não...").

Se você esquecer o resto da letra, como sempre, tudo bem... Basta que saiba dizer que sim, você é feliz. 

Eu te amo. 


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