segunda-feira, 16 de setembro de 2013

visto americano

(escrito e publicado em 7/08/13)

Essa foi agora há pouco, durante o processo de solicitação do visto americano. Dois ônibus e alguma correria depois, chega a minha vez de ser atendido... descubro que está faltando o comprovante de agendamento. Na tela do esmartefone, claro, não pode. Tem de ser algo palpável, que traga a sensação de indispensável documento. Tipo no papel. À beira da calçada, três passos dali, está o oportunista disfarçado de salva-vidas:

- Foto, amigô? Scanner? Impressão?!
- Preciso imprimir um e-mail.
- Aqui do lado, ó... no 288. Um minutinho e o menino faz isso pra você!
- Valeu!

(...)

- Opa, tudo bem? Só preciso imprimir um e-mail.
- A confirmação do agendamento?
- Essa!
- Pra já, amigô! Vinte reais.
- Hã?
- Vinte.
- Vinte reais?
- Isso.
- VINTE? V... VINTE REAIS? UMA FOLHA?
- Isso.
- São três linhas de e-mail, amigô. Preto e branco.
- Vinte reais.
- Mas... como assim?! Isso não existe!
- O dono é que põe o preço, amigô, a gente só obedece.
- Existe algum lugar aqui perto que não pratique a extorsão a céu aberto?
- O mais próximo fica a um quilômetro e meio.
- Obrigado.
- Se tá marcado pras duas e meia, não vai dar tempo.
- Posso perder a entrevista, mas não perco meus vinte reais contigo.

Corri. Atravessei um parque passando por cima dos velhinhos e dos cachorros. Estrepei o joelho. A primeira coisa que vi depois das árvores foi uma escola de informática. Suado e ofegante, implorei:

- Moça, preciso de um baita favor...
- Sim?
- Imprimir um e-mail. Só uma folha, prometo.
- Desculpa. Não somos uma lan house, somos uma escola de informática.
- Eu sei, eu sei... Mas, moça, não tô te pedindo um serviço. É só um favor!
- Infelizmente n...

Da mesa da sala ao lado, o diretor pede que a secretária imprima a folha. Só uma folha, aquela que vai me garantir a entrada nos Estados Unidos da América. Por favor. Por um simples favor. Ele sugere, brincando, que eu indique dez amigos à escola. Manifesto meu alívio num sorriso genuinamente grato. É tudo o que posso pagar naquele momento.

De novo, corri. Atravessei o parque passando por cima dos velhinhos e dos cachorros. Estrepei o joelho. Deu tudo certo, por fim. Pude retomar a frequência cardíaca adequada e a normalidade no ritmo dos passos.

Voltei pra casa dividido entre o alento e o absurdo. O que leva um canalha a cobrar VINTE REAIS pela impressão de UMA FOLHA? Amargurado, desejei que ele passe fome na vida se depender desse tipo de negócio. Melhor pensar no respingo de humanidade e gentileza que encontrei depois.

Não perguntei o nome do jovem diretor. Confesso, tampouco me lembro o nome da escola. No entanto, não esquecerei jamais da lição que aprendi ali dentro: certos favores não custam nada, mas podem valer demais. 

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