quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

CRÔNICA DE NATAL




Não tenho ambições nem desejos
Ser poeta não é uma ambição minha
É a minha maneira de estar sozinho.

(Fernando Pessoa)



O vizinho de baixo anuncia o amigo-secreto entre gargalhadas e aplausos. O vizinho de cima, bem mais honesto, fuma maconha deitado na rede. Briga com a namorada pelo telefone. Pede mais amor, por favor.

O prédio ao lado pisca do primeiro ao último andar. Luzes diferentes, cada qual com a sua. Espio pelas janelinhas miúdas, procuro desvendar a hipocrisia que habita aquela gente fantasiada e faminta.

As redes sociais piscam mais rápido que as luzes do prédio ao lado. Todo mundo compartilha a mesa posta, a montanha de presentes, o mar de selfies com o gorrinho vermelho. Evito curtir fotos posadas ao lado da ceia. Não suporto guardanapos dourados, presépio, peru com pêssego em calda, papai noel e árvore de plástico. Mais do que isso, me permito o direito de questionar o aniversariante ilustre.

As pessoas vão dizer que sou triste, como se felizes fossem elas. Vão dizer que sou estranho, como se algum dia eu tivesse dito que quero ser normal. Vão dizer que sou egoísta, como se o altruísmo passageiro daquela noite as fizesse dormir em paz para sempre.

Minha felicidade é prosaica. Quero viver uma noite comum, sem pressa ou horário pra nada. Apreciar o silêncio da rua e o vazio da cidade grande. Sentir saudade apertada, pequena melancolia. Ficar de cueca na sala. Recitar poemas. Falar comigo mesmo em voz alta. Pensar em tudo. Não pensar em nada.

Uma amiga me manda mensagem, pergunta se é verdade "MESMO" que eu tô sozinho. É tempo de solidão, respondo. Mais tarde, quem sabe, saio pra tomar cerveja com os amigos. A vida jorra na madrugada que celebra o menino Jesus.

Minha mãe me liga, pergunta se é verdade "MESMO" que eu só comi bolacha água-e-sal no jantar. Era tudo o que eu tinha, minha velha querida, mas eu tô ótimo! Ela finge que se conforma, deus-te-abençoe, seu pai também quer falar.

- Filhão, tudo bem? Tínhamos certeza que você estava a caminho, rapaz! Achei que você nos faria mais essa surpresa!

Me sinto um merda. Sem argumentos. Sem vergonha nenhuma na cara.

- Estrada cheia, né, pai? Rodoviária apinhada, não dava. Semana que vem tô aí!

O telefone não para. Os amigos também me escrevem. Querem me buscar, fazem questão que eu me junte à família deles. Agradeço o convite, mas garanto que eu tô bem desse jeito. É tempo de solidão. Eles reagem quase todos da mesma forma, bastante polidos e compreensivos:

- Você é um merda arrombado.
- Idiota.
- Puta de um trouxa!
- Você é ridículo, cara. 
- Tá cultuando a babaquice, agora? Parabéns. 
- Mártir do "não-comemoro-natal". Grande babaca!


Retribuo a gentileza com palavras semelhantes, desejo uma noite feliz a todos eles e volto a escrever minha crônica solitária. Fiquei puto, perdi o fio da meada.

De repente, todos os cachorros do bairro se assustam com os fogos. Fazem mais barulho que os próprios rojões. O vizinho de baixo estoura o champanhe. Mais aplausos e mais gargalhadas. O vizinho de cima faz as pazes com a namorada, apaga o baseado no ralo da varanda e diz que, sim, ela é a mulher com a qual ele sempre sonhou.

É meia-noite, afinal.

Me sinto um merda. Arrombado. Idiota. Babaca. Ridículo. Triste. Estranho. Egoísta. Mas fico tranquilo: essa sensação ruim vai acabar em poucos minutos, tão logo se apaguem as luzes de natal.

domingo, 21 de dezembro de 2014

MEMÓRIAS 2014 - MARÇO


MEMÓRIAS 2014
MARÇO

Terça-feira, o dia exato eu não sei.  
Sei, sim, das grades. Dos cadeados.  

Câmera sem foco. Todos são menores de idade. 
Desde muito cedo desamparados pela vida, eles não têm rosto nem sobrenome. 

Música. Versos improvisados nas paredes da reclusão. 
A liberdade é a bola. A bola é a quase-liberdade. 

Reportagem. Memória viva na alma. O ranger estridente dos portões de ferro ainda machuca. Portões de ferro ou de solidão.

- O senhor é famoso?
- Famoso, que nada. Muito menos senhor!
- Mas cê conhece o Ronaldo, moço?
- Já falei com ele uma vez.
- Então o senhor é rico!

Menino bobo, de tão puro. Não sabe que minha riqueza, mesmo, foi aquela tarde abrasadora de terça-feira. Quanto eu imaginei escrever sobre tudo aquilo. Quanto eu imaginei!
Escreveria um livro, se toda a história já não estivesse ali escrita - na palma de cada mão. O facho de luz me interrompeu as ideias e a professora me convidou para entrar. Oficina de caligrafia. "Olha aí, Antônio, é o moço da tevê! Mostra pra ele a cartinha que você escreveu pra sua família. Ficou tão linda, mostra pra ele".  

O Antônio, que Antônio não deve ser, me olhou ressabiado, inseguro, e arrastou o pedacinho de papel colorido até bem perto de mim. Era a letra dele. Era a vida dele em poucas palavras. 

Tenho apenas duas mãos
E o sentimento do mundo
Mas estou cheio de escravos
Minhas lembranças escorrem
e o corpo  transige
na confluência do amor

Era Drummond.

terça-feira, 21 de outubro de 2014

meia garrafa de vinho

Depois de um beijo proibido, mas inevitável, ela despertou a lembrança de beijos passados. Menos cheios de culpa. Mais longos, mais livres. Ainda era junho, dia vinte e pouco - e presumiam, ambos, que aquela noite não seria a última. Mais uma vez escondidos num quarto de hotel, aquela era só mais uma dentre as infinitas a serem vividas. Talvez por isso se permitiram deixar a garrafa de vinho pela metade.
- Ei, olha aqui.
- Oi...
- E depois, quando você for embora de novo?
- Eu volto. Eu sempre volto.
- E depois vai de novo.
- Vou. Eu sempre vou.
- E por que é tão difícil?
- Porque a gente é assim.
- Difícil?
- Fácil. Mas de lugar nenhum.
- Pra sempre?
- Não, nada é.
- Ah, até parece...
- O quê?
- A gente não é pra sempre?
- A gente quem? Seres humanos?!
- Bobo. A gente eu e você.
- Não, ninguém é.
- É até quando, então?
- Dessa vez, até 14 de julho.
- Pois é, mas e depois?
- Você não tá sozinha.
- É diferente.
- Por quê?
- Porque ele pode simplesmente passar.
- Como eu.
- Não. Você fica.
- Eu vou.
- Você fica pra sempre.
- Não, ninguém fica.
- Então tá. Eu preciso ir.
- Pra sempre?
- Porra, desisto.
- E o resto do vinho?
- Terminamos essa semana?
- Eu e você?
- O vinho, cacete.
- Então! O vinho, ué... eu e você!
- Ah, entendi. Pode ser, sei lá.
- Tchau, boa noite.
- Até logo mais.
Pela primeira vez naqueles dias, ele não foi à varanda para acompanha-la de longe e, depois de um aceno no escuro, vê-la partir. Pela primeira vez naqueles dias, ela também não olhou pra cima; não disse baixinho, só pra ela, que também o amava.
Morreram assim, pela metade. Feito a garrafa de vinho.

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

MINHA NAMORADA E O RAULZITO


Semana passada, num dia de folga, resolvi arrumar as gavetas do armário. Mas não me refiro a quaisquer gavetas, tampouco a um armário comum. Eram as gavetas do armário daquele quartinho dos fundos. Não, também não era um quartinho qualquer. Era o quartinho dos fundos da casa onde moram meus pais. E se você também já fez isso, sabe que eu encontrei algo muito além dos ácaros e do álbum de figurinhas do Rei Leão. 

Dentre tantas pérolas que renderiam um livro de crônicas ou, quem sabe, uma sacola imensa de papel para reciclagem, achei um caderno velho onde eu escrevia meus textos e meus primeiros poemas de amor. Coisas de quando eu tinha, sei lá, 16 anos. Os textos me fizeram rir ou quase me emocionar. Todos falam sobre tristeza e melancolia de um forma tosca e adolescente. Os poemas, de tão ruins, foram os primeiros e últimos.

Mas o caderno, cheio de garranchos ilegíveis e páginas rasgadas, também guardava outras preciosidades que só ganham valor depois de muitos anos: o registro de momentos prosaicos das nossas férias na praia. Argumentos que minha mãe usava para encerrar uma discussão política na hora do almoço, por exemplo, ou frases com as quais minha namorada pretendia me atingir quando questionada sobre os hábitos consumistas. Foi uma dessas frases, aliás, que valeram cada espirro por causa dos ácaros e cada lágrima nostálgica por causa do álbum de figurinhas do Rei Leão. Dizia assim:

"Você acha que vai mudar o mundo com esse seu jeitinho idiota, né? Você é louco, isso sim".

 O filme rodou na cabeça. Lembrei daquele dia - e daquela briga - com perfeição. Tudo por causa de um Nike Shox. Eu só queria que ela me explicasse a obsessão pela nova modinha da época. Impossível que alguém achasse bonito aquele modelo de tênis com as molas todas pra fora (eu achava, mas nunca disse isso a ela). Importante era provoca-la; discutia horas a fio se fosse preciso. O capitalismo! A subserviência ao império do consumo!! A colonização dos costumes tupiniquins, a imposição das necessidades fúteis e o fetichismo das logomarcas!!! Se minha namorada optasse por levar o papo adiante, eu citava Adorno e Horkheimer. Tudo é fruto da indústria cultural, da massificação da arte. Papo de frankfurtianos, enfim. 

Naqueles tempos, eu trocava a praia pela edição especial da Caros Amigos sobre os sem-terra. E quando todo mundo voltava pra casa, depois de um revigorante banho de mar e uma iluminada manhã de sol, eu estava pronto para discutir a desproporção dos latifúndios brasileiros. Você me entende, eu era um jovem de esquerda no primeiro ano da faculdade de jornalismo. Ou, pra encurtar a definição, um puta de um chato. Queria - e podia - mudar o mundo! Ostentava as hawaianas, populares e nem tão baratas, mas não cederia jamais ao preço absurdo de um Nike Shox.  

Naqueles tempos, eu só ouvia Raul - e, claro, também tocava Raul. Minha namorada fazia beiço, cara feia, ignorava meus hinos poéticos e anarquistas. Só muitos anos depois ela admitiu que adorava me ver dedilhando "How Could I Know?". Mas, enfim, isso é outra história. 

Aquele cara no quartinho dos fundos não é mais o mesmo. Hoje talvez eu não queira mudar o mundo. Pior do que isso, ainda não soube atingir nenhum grau de loucura que me permita ser um louco de verdade. Eu e minha namorada terminamos há mais de dez anos. Raramente leio a Caros Amigos, prefiro uma boa praia. Fui submetido à perversão do sistema e à manutenção do status quo. Mas, aliviado, penso que nem tudo está perdido: eu ainda toco Raul. 

sábado, 23 de agosto de 2014

LOUCA DE PEDRA II

Quando ela foi embora, ano passado, eu sabia, lá no fundo, que um dia ela ia voltar. Ela voltou.

Depois de tudo o que me causou, do tanto que me fez sofrer, ela de repente achou que a nossa história não deveria mesmo acabar feito um trauma daqueles. Quis voltar - mas, orgulhosa, não me dirigiu a palavra. Simplesmente voltou. Sempre tive esse medo. Se eventualmente dormia abraçado a uma mulher, receava acordar na manhã seguinte com ela, de repente, me batendo à porta.

Em 2013, difícil falar sobre isso, eu não soube lidar com a situação. Senti uma dor que jamais havia sentido. Chorei como jamais havia chorado. Em 2014, mais maduro e mais frio, imaginei que estivesse preparado para o possível reencontro. Mas não estava. Ao primeiro sinal que dela partiu, rastejei pela casa e miei feito um gatinho de rua com fome; me curvei diante da força arrasadora que ela ainda tem sobre mim. Pequenininha, menor do que eu, mas altiva e dona do nosso destino.

Me levou pra cama. De dia. De noite. Cama a toda hora. Enquanto ela passeava pelo meu corpo com prazer e maldade, eu transpirava e experimentava todas as posições possíveis. Eu suplicava por um copo dágua, água, água, por favor, eu preciso de muita água. Mas ela queria meu sangue. E conseguiu. Eu sangrei por dentro e por fora, à mercê daquela rocha impiedosa e imune aos sentimentos alheios - que depois foi embora mais uma vez, tomara que para nunca mais voltar.

Maldita pedra no rim. De novo ela.

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

JERICOACOARA


Tudo é areia e vento. Areia. Vento.
Tudo se faz descalço, como se tudo fosse à beira do mar. 

Não há relógio nem pressa. O tempo se mede pelo antes e o depois das palmas para o pôr-do-sol. 
Não há sinal. Mas que sinal? Moderno é não deixar que a vida se leve, tão leve, pela rabeira inútil de um esmartefone.  

As dunas que se desmancham, redemoinho de grãos.
Arraias que se despedem, traídas pela maré.
As dunas voltam de vez em quando, revivem noutro lugar. Arraias, nunca. Cuidado só o ferrão, moleque matreiro! 

Ô, marinheiro, marinheiro
(Marinheiro só!)
Ô quem te ensinou a nadar
(Marinheiro só!)
Ou foi o tombo do navio
Ou foi o balanço do mar

Capoeira-i-á! O moço e o berimbau. O vira-lata mais bonito do mundo. Pink Floyd no violino. Rede para dormir com as costas nágua. Gaúcho cor de jambo. Polonesas cor de camarão. Samba de primeira, toda segunda. Na quarta, é forró com a Dona Amélia -- e, toda hora, prosa fiada com a Dona Delmira. 

Caipirinha de seriguela. Filé de robalo no forno a lenha. Bolo de macaxeira, molho de tamarindo. Tapioca de cocada mole com queijo coalho. Ravioli preto, de massa fresca, e lagosta de Icapuí. Sacanagem. Sacanagem é xoxota. Mas calma lá! É só cachaça com frutas batidas. Seis reais, meu amigo, posso bater kiwi também? Tem xoxota de todo jeito.

O que tem mais?
Praia, areia e vento.

Praia de dia, para alcançar de bugue o paraíso escondido. 
Praia de tarde, para aplaudir o último facho de luz. 
Praia de noite, para, sem culpa, soprar uma nuvem debaixo do céu. 

E quando penso nela (de dia, de tarde, de noite), percebo que os sonhos, passageiros, poeirentos, pueris, os sonhos também são feitos de areia e vento. Jericoacoara é um sonho só.




quinta-feira, 7 de agosto de 2014

MAIS UMA CRÔNICA DE FICÇÃO


Nosso primeiro encontro. Escolho o bar. Ela, a bebida.

- Caipirinha de coco?! É boa mesmo?
- Uma delícia, confia em mim.
- Duas, então, por favor.
- Andei lendo seus textos...
- Olha!
- Adorei, sério.
- Poxa...
- Você escreve muito bem, parabéns!
- Imagina...
- Bem que já tinham falado, hein?
- Bobagem...
- Mas você mentiu, safadinho.
- Oi?!
- Me disse que não conhecia a cidade!
- Ué...
- Eu li uma crônica sua aqui de Brasília.
- Ah...
- Até amor você fez na frente da Catedral!
- Ficção.
- Hum, tem certeza?
- Do quê?
- Era muito real.
- Ficção.
- Então nada daquilo é verdade?
- Não, peraí. Tudo é verdade.
- Aháá! Eu sabia!
- Calma. Ficção não é o mesmo que mentira.
- Espera, fiquei confusa...
- Sério. Tudo é verdade, mas é a verdade daquele mundo.
- Que mundo, mocinho?
- O mundo do papel-e-caneta.
- Hm...
- Escrever é um barato por isso. Tudo pode ser verdade.
- Sei...
- Botei no papel, pronto, aconteceu!
- Mas você não transou com a menina na frente da Catedral?
- Eu?
- O texto é em primeira pessoa.
- Eu-lírico.
- Ah, vá...
- Eu não escrevo sobre mim. Não me dou essa importância toda!
- Tá bom, eu desisto.
- Me fala de você.
- Eu? Eu queria ser uma crônica sua...
- Então podemos beber mais uma caipirinha de coco!
- Podemos!
- E, bêbados, inventarmos qualquer história...
- De mentira?
- Se a gente botar no papel, vira verdade.
- Bobo.

No caminho de volta, ela me ofereceu carona. Fez o contorno à esquerda quando avistou, do outro lado da Esplanada, o campanário dos quatro sinos. Estacionou diante da Catedral e, antes de me tocar, esnobou a Nossa Senhora.

- Eu odeio religião, sabia?

Desabotoou primeiro minha camisa, depois o resto. Antes passeou com as mãos, saracoteou de cima a baixo o meu corpo ereto no banco da frente, e em seguida me beijou inteiro. Roubou cada gota minha de inspiração e colocou um ponto final naquela noite abrasadora da capital.

- Agora você não me engana mais. A ficção acabou. 

terça-feira, 5 de agosto de 2014

CRÔNICA DE UM VIRA-LATA EM BOTUCATU

Dizem, e concordo, que a grandeza do cotidiano está na satisfação dos prazeres prosaicos. Um desses prazeres, para mim, é chegar à casa dos meus pais e abrir o jornal. Eles vivem em Botucatu, no interior de São Paulo, e não consigo visita-los com a frequência que gostaria - mas quando vou, jamais deixo de procurar pelo noticiário impresso da cidade. 

Não se trata necessariamente de estar bem informado. Tampouco é (mais) um indício de que não consigo me desligar da profissão nos momentos de folga. Ao contrário; é apenas um exercício de alívio e lazer. Começou quando os meus velhos se mudaram, há mais ou menos três anos, e eu me preocupei com a segurança de ambos. Meu pai garantiu que se tratava de um lugar tranquilo, "a gente não vê nem morador de rua pedindo esmola", mas eu queria ter certeza de que ele me dizia a verdade. E quando fui vê-los pela primeira vez na casa nova, abri, desconfiado, a página policial da gazeta botucatuense. A manchete mais violenta anunciava a história de um homem que fora detido na agência bancária porque a botina tinha sola de metal. A porta giratória foi bloqueada e os seguranças, impiedosos e eficazes, não permitiram que o caboclo pagasse as contas ou sacasse o dinheiro da cachaça naquele dia.  

Noutra oportunidade, meses depois, percebi que as coisas haviam piorado. Li a notícia de um assalto a residência e anotei, inclusive, o trecho que considero um marco do jornalismo e da segurança pública mundial: "Quando [o dono da casa] entrou, ele se deparou com aquela situação. Nesse momento o suspeito pediu cerveja e Gatorade, que colocou embaixo do braço, e depois fez ameaças ao morador que foi chamado de otário pelo bandido folgadão". 

Ontem, depois de chegar de viagem, estava a caminho do quarto quando vi o jornal velho estendido num pedacinho de chão. Território da Mel, nossa poodle toy de estimação que manda na casa e é tratada como gente da família real britânica - mas ainda não aprendeu a fazer xixi no vaso do toalete. Corri os olhos pelo campo minado e úmido de letrinhas miúdas, não demorei a me satisfazer com a manchete devastadora e pitoresca: 

"CACHORRO DE RUA PERTURBA E ASSUSTA MORADORES". 

Sério. Segundo a reportagem, "os moradores da Vila Real alegam que o animal é hostil e que a melhor solução seria levá-lo a um lugar, onde o cachorro poderá receber tratamento adequado". A foto ao lado expunha sem qualquer cerimônia o maior criminoso das ruas de Botucatu. Um vira-lata magro, feio e provavelmente pulguento. Provavelmente fedido. Um pobre-diabo das ruas plácidas do interior. Indefeso. Inofensivo. Focinho carcomido pelos mosquitos e varejeiras do mato. Pelagem escura, mal tratada; um rastro branco disforme abaixo da goela que denuncia a falta de raça ou identidade. Um coitado sobre quatro patas que, naquela foto, esboça um uivo esganiçado e sofrido.  

A reportagem ouve os moradores do bairro. Os relatos são assustadores: "Esse cão não é de ninguém, ele fica na rua, mas começaram a dar ração para ele e acabou ficando por aqui. Eu já ouvi várias pessoas reclamando dele". Mais impressionante é o depoimento de uma moça de 36 anos: "Muita gente esquece que ele fica na calçada dormindo e passa por ali, mas quando vê, ele já está em cima, latindo e rosnando. Eu acho que ele pensa que vamos mexer na ração e acaba ficando agressivo. Em mim ele nunca avançou, mas já vi em outras pessoas". 

Não há registro de ataques. Não há, pelo menos, quem diga que foi atacado. O cachorro sem nome jamais engoliu uma criança indefesa. Sequer mordeu algum velhinho que sofre de Alzheimer e passou por ali para comer a ração-esmola. Todavia, o final da investigação é brilhante: "Segundo informações do Canil Municipal, a primeira vez em que os funcionários foram até o bairro pra verificar o problema, o cão não foi encontrado, mas eles afirmaram que pretendem voltar ao lugar para averiguar a situação". 

A Vila Real não parece real. Mais uma vez, me divirto. Só que passa - e, quando passa, fico triste. Queria que os moradores de São Paulo também fossem perturbados e assustados por um cachorro de rua. Ou que as autoridades cariocas prometessem voltar à Rocinha para verificar o problema do quadrúpede que rosna. Que o Hamas aceitasse a proposta de cessar-fogo e deixasse a ração do nosso bandido em paz. Se eu pudesse, queria que o mundo fosse uma grande Botucatu. 

Escrevo a crônica e dispenso o jornal amarelo no lixo. Tenho medo que a Mel também se transforme em notícia nas páginas policiais da cidade. O que diriam de um cachorro que urina sobre o trabalho suado dos jornalistas?  







sexta-feira, 11 de julho de 2014

CRÔNICA DE UM QUARTO DE HOTEL

- Desculpa te receber assim, num quarto de hotel.
- E o que tem?
- Pedi uma pizza, mesmo. Parma, geleia de damasco e tomate caqui.

- Não... O que tem me receber aqui, num quarto de hotel?
- Ah, seria melhor noutro lugar. Você gosta da noite em Brasília.
- Você já viu Latitudes?
- Nossa!
- Que foi?!
- Um amigo distante ficaria feliz... diálogo de crônica, isso, e ele é cronista!
- Tudo se passa num quarto de hotel - e as cidades, bem melhores que a planície, sempre ficam lá fora.

- Tem razão. Escolhi um malbec, também.
- Hmmm... fino! Agora também entende de vinhos?
- Absolutamente nada.
- Um brinde, então!
- A nós!
- Aos quartos de hotel. Ao seu amigo distante!

Assistimos, alto ali do sétimo andar, à cidade que pouco a pouco se escondia debaixo das estrelas e das nossas taças improvisadas. A varanda era uma ilha escondida e solitária, só nossa. Embevecido pela estranheza que é amar de novo, procurei o beijo. Ela resistiu. Um pouco de culpa. Um pouco de charme. 

- Deixa estar. Deus já dormiu também...
- Bobo.
- É verdade. A essa hora, não tem pecado nenhum.
- Não é isso. Mas, sabe...

Pecamos. Quando ela partiu, procurei meu amigo distante. O sol, pra ele, já havia nascido - e ele enxergou com clareza o que eu ainda tentava distinguir no escuro.

- Eu vi tudo com uma luz amarela bonita.
- Amigo, foi quase isso...
- Ela bem vestida, batom vermelho. Bolsa cara. Salto alto. Cheirosa. Cabelo bagunçado...
- A própria!
- Demais.
- O cabelo chegou arrumado. Baguncei quando a gente sentou bem pertinho um do outro. Ela adora, nem disfarça.

- Ela tira o sapato e coloca os pés em cima do sofá?
- Perfeito! E põe a fivela na boca enquanto arruma o cabelo. Só pra eu bagunçar de novo e fazer carinho no rosto de menina. Precisa ver...

- Que coisa linda. Quem é?

Silenciei, perdi o rumo do papo no suspiro trágico e reticente. Simplesmente não soube dizer quem era aquela moça que habitou para sempre o meu quarto de hotel. Mesmo depois que eu fui embora dali.

domingo, 25 de maio de 2014

O DIA EM QUE MEU AVIÃO (NÃO) CAIU

Dizem que dinheiro não aceita desaforo - mas como eu não tenho, não sei. No meu caso, quem não aceita desaforo é a inspiração. E naquela tarde ela chegou assim, sôfrega e repentina. Situações banais e detalhes prosaicos pareciam crônicas. Boas crônicas. Assim que pude me sentar, no saguão do aeroporto, abri o caderno e rascunhei uma coisa em cima da outra -- com papel e caneta, como eu acho que fazem os escritores de verdade.

Letras confusas, rabiscadas, sobrepostas... um puta garrancho que eu sei que não vou entender depois. À medida que eu apostava nalguma ideia, logo vinha outra que me parecia tão boa quanto ou ainda melhor. Tudo me parecia genial. Pensei no título do livro, nas dedicatórias e na consagração diante da crítica. Presumi os idiomas para os quais todo esse brilhantismo seria traduzido. Naquela tarde, no saguão do aeroporto, eu me tornaria definitivamente um homem das palavras. 

Escrevia rápido por medo de esquecer alguma coisa. Corpo e mente libertos e sufocados; euforia juvenil, ansiedade e ebulição daqueles hormônios todos que eu esqueci o nome - mas que despertam o popular tesão. Escrever, pra mim, é um orgasmo. E naquele momento, no meio de tantas ideias efervescentes, eu me sentia como se estivesse transando com várias mulheres ao mesmo tempo. Viril, criativo e incansável.

Chovia muito no Rio de Janeiro. Chovia muito em São Paulo. São Pedro, como eu, parecia envolto em orgasmos múltiplos. A diferença é que ele provavelmente estava gozando tranquilo - e eu estava dentro de um avião. No aguardo de uma viagem entre o Rio e São Paulo, onde chovia muito. 

Procurei esquecer os perigos da rota nebulosa e as imperfeições da malha aérea brasileira. Voltei minha atenção às crônicas. Já podia vê-las prontas e publicadas. Deduzia o sucesso, contabilizava os "likes" no Facebook; aguardava o comentário de moças bonitas - que, se dependessem de mim, também seriam personagens dos meus contos piegas de amor. Buscava, desde aquele momento, a aprovação de um amigo distante, cronista dos bons que ainda não pensou em escrever um livro. Ele diria algo como "Boa, xará!" - e isso me bastaria. 

O avião partiu. De repente, aquelas nuvens pretas e infinitas que eu via lá de baixo agora estampavam as janelinhas ao meu lado. Em poucos segundos, pipocavam luzes e avisos de atar cintos de segurança. "Senhoras e senhores, estamos atravessando uma área de turBRRRRrr....ZZZzzzZZ....VVvVVVvv....XxxXxX". As aeromoças caíram no corredor. As máscaras de oxigênio caíram do compartimento acima das poltronas. Bebês e crianças de colo se descompunham no choro estridente e ardido. Mulheres arregalavam os olhões nos gritos suspensos pelo sobe-e-desce da altitude. A cabine sacolejava e as asas, dançantes e trêmulas, pareciam papel celofane no vento. "Por favor, eu não quero morrer! Alguém me escuta?!? Eu não quero morrer!!!!", suplicava um jovem marombado, suando em bicas. Ao lado, um homem de terno e gravata ajustava os óculos com placidez enquanto lia "O Monge e o Executivo". Nessas horas de pânico e turbulência, sempre haverá alguém lendo um livro e ajustando os óculos com placidez, como se nada lá fora estivesse acontecendo. Beatas e ateus repetiam o sinal da cruz desesperadamente -- às vezes invertendo a ordem entre o Pai e o Espírito Santo. 

O piloto, num ato de bravura e sinceridade, solicitou dois procedimentos básicos a todos os passageiros: mantenham os cintos afivelados, por pura formalidade -- e qualquer que seja a sua religião, por favor, reze muito. Explicou que a visibilidade era quase nula e as condições de pouso no aeroporto de Congonhas não eram favoráveis. Mas que, apesar disso, o pouso estava autorizado. Na pior das hipóteses, ele explicou, arremeteríamos. Mesmo que uma das turbinas estivesse comprometida pelo granizo. Ahn?! 

Eu estava tranquilo, até meio blasé. Deus jamais derrubaria o meu avião antes que eu terminasse meus rascunhos e publicasse minhas crônicas. Se ele não existisse e fôssemos destroçados no ar, pelo menos eu havia descoberto naquele instante que é exatamente assim que eu quero morrer: inspirado e cheio de ideias pelo caminho, sem saber ao certo o que é realidade e o que é ficção.






segunda-feira, 5 de maio de 2014

A MENINA DO PARANOÁ


Foi um passeio breve. E ainda que fosse um tormento, durou o tempo exato de um sonho bom.

Ela me esperava no carro a poucos metros do hotel, pisca-alerta pulsando no ritmo do meu peito vadio: compassado e um pouco histérico. A chuva se dissipara, mas caminhei ziguezagueando os rastros d'água que o mormaço do cerrado não havia conseguido secar.

Ela abaixou o vidro. O sorriso, mesmo que diante de mim, vibrante e palpável, me deixou com mais saudades. Era o único presente que a boca dela me traria naquela noite - e eu sabia disso muito antes de sorrir de volta.

- Adentre-se!
- Oi...

Resumir nosso reencontro num abraço de quatro segundos foi um pouco triste, um pouco hipócrita, mas foi também o suficiente para que pudéssemos libertar outros sentidos além do tato.

- Hmm, que cheiroso!
- Sou um homem perfumado.
- Você é ridículo... Vem, quero te mostrar Brasília!
- Cheguei hoje cedo, a primeira impressão é boa.
- De noite, isso aqui é outra cidade!

Antes de contemplar as avenidas longas e arborizadas da planície, reparei nos detalhes que desenhavam a silhueta daquela minha amiga. Os olhos de avelã enegrecidos pelo céu escuro da capital. O rosto marcado pelo destino de menina candanga. O cabelo moreno voando agarrado à minha imaginação libertina.

- Aqui a gente pode andar assim... diferente de São Paulo!
- Janelas abertas? Não tem perigo?
- Quase não. Olha a Esplanada, não é bonita?
- Muito.
- Eu gosto da noite aqui, sabia?
- Bonita, mesmo...
- Mas e você? Fala tudo!

Tanto que eu queria falar... De mim, de nós, de todos os nós. Tanto que eu queria fazer como fizemos noutros infinitos momentos debaixo do sereno paulistano. Mas enquanto eu me calava diante dos mistérios do planalto, ela desvendava as margens de uma cidade sem pedestres.

- Vê! Tem o Lago Sul e o Lago Norte, mas tudo é o Paranoá.

Prosseguimos. A cidade da tevê, berço de alguns dos meus heróis e teto de boa parte dos meus inimigos, agora tinha mais vida -- e cheiro de vento gelado. Eu queria descer e aperta-la diante dos traços (im)perfeitos da Catedral; de repente despi-la à sombra de Nossa Senhora e reviver a loucura pela qual tanto prezamos em dias passados. Se foi um golpe de cinismo ou um sopro de pureza, sinceramente não sei, mas ela me sugeriu um filme.

- Chorei demais quando vi.
- Por quê?
- Se eu te contar, estrago tudo.
- Tá bom, vou ver. "Um Dia", né?
- Isso. É lindo.
- Um dia eu vejo.
- Você é ridículo...
- E você? Já assistiu Latitudes?
- Não. Me conta.
- Ele é fotógrafo. Ela é jornalista. Os dois se conheceram em Paris, meio que por acaso...
- Paris? Ahn...Que mais?
- Se eu te contar, estrago tudo.
- Bobo. Será que eu tô no caminho certo?
- De Paris?
- Oi?
- Depois eles se encontram em várias cidades do mundo.
- Ahn.
- E é isso...
- Não. Me conta mais!
- Cada capítulo é uma cidade diferente. Londres, Veneza, Istambul...
- Hmmm.
- Bons diálogos, etc...
- Ai, devia ter entrado ali! Será que esse ônibus me deixa passar?

Ela não prestava atenção - e eu jamais ousaria perguntar de novo se ela já viu Latitudes. Mesmo depois de alguns meses, o mapa da cidade ainda era novo e incerto.

- Ai, não. Acho que entrei errado!
- Olha, não existe caminho errado pra quem...

Ela suspirou e o sinal vermelho um pouco adiante sugeriu que parássemos. O carro freou. A frase ficou pelo meio.

- Pra quem... ?
- Não existe caminho errado.
- Sei.

Fazia frio. Ela fechou as janelas e deixou a liberdade do lado de fora. A música, que até então soava baixinho por causa do vento, irrompeu no prenúncio da madrugada e descortinou nossos desejos e nossos dilemas.

Eu só aceito a condição de ter você só pra mim
Eu sei, não é assim
Mas eu deixa eu fingir... e rir

O dedilhado que marca o fim da canção ainda cortava a noite quando chegamos à rua do hotel.

- Desculpa a pressa, mas é que...
- Eu sei.
- Tô exausta. Plantão amanhã...
- Pois é, que merda. Também acordo cedo.

Quando eu abri a porta e inclinei o corpo em direção à calçada, ela segurou meu braço.

- Deixa eu te dar um beijo.

Voltei o rosto e sorri, tímido e apreensivo. "Finalmente, Winnie..."

Ela se aproximou num abraço leve e tocou os lábios no meu rosto febril. Prometeu que, se desse tempo, a gente poderia fazer qualquer coisa amanhã.

- Por que não? Quem sabe...
- A gente se fala, tá? Fica com Deus.

Agradeci, amém, mas fiquei sozinho. Porque Deus, nem ele haveria de saber coisa alguma sobre nós dois. Nossa história, afinal, jamais foi previsível. E nosso romance, jamais planejado. Diferente daquela cidade que adormecia sem estrela alguma no céu.




sábado, 26 de abril de 2014

CRÔNICA DE UMA NOITE EM CLARO


- Posso te fazer uma confissão?
- Faça.
- É íntimo.
- Lá vem.
- É mais íntimo do que encontrar sua calcinha pendurada no meu banheiro depois da nossa primeira noite...
- Meu Deus!
- Pois é. Muito, muito íntimo...
- Conta.
- Tá preparada?
- Só tem uma coisa.
- Fala.
- Eu não deixo a calcinha pendurada no banheiro.
- Duvido.
- E como você sabe que vai ter "nossa primeira noite"?
- Você prefere que seja de dia?
- Idiota. Conta logo.
- Sabe por que eu tô aqui escrevendo bobagens pseudo-literárias ao invés de dormir?
- É mesmo! Você não precisa acordar cedo amanhã?
- Nossa, vou madrugar.
- E qual é a confissão, afinal?
- Gosto mais de escrever meus contos solitários do que fazer boa parte do meu trabalho.
- Mas você não é o tal apaixonado pela profissão?
- Sou, mas...
- E ainda bem, né?
- Uhum, é isso. Só que mil vezes minhas croniquetas de amor.
- Você é um lindo, sabia?
- ...
- Não muda isso nunca. Quando achar que tá cansado demais, me fala que eu faço um café e te acordo.
- E me ensina a tomar a café?
- Não faz sentido você não gostar...
- Não gosto.
- Tá bom. Eu te faço acordar.


quinta-feira, 24 de abril de 2014

CRÔNICA DO DIA BOM

São Paulo, 8:30 am.

No hall do elevador social, cruzo dois vizinhos que não conheço. Ainda não acordei, mas faço um esforço pequeno pra sorrir e desejar bom dia. Eles passam depressa e não me respondem, escondidos detrás dos óculos de sol - mesmo que não haja sol nenhum na manhã cinzenta.

No ponto de ônibus, dois minutos depois, sinalizo e o motorista obedece. Aceita me levar ao trabalho, ainda que também esteja com pressa e não queira perder o sinal verde no quarteirão de baixo. Desejo bom dia, extremamente agradecido pelo favor, mas ele também ignora.

Quando entrego os quatro reais ao cobrador, paro diante da catraca e aproveito, com alguma insistência, para sauda-lo à maneira tradicional. Enquanto espero pelo troco, procuro o olhos do sujeito a fim de decifrar o silêncio constrangedor que ele impôs ao nosso breve contato. Ele não me olha, claro, e me devolve a moeda mascarado pelo azedume precoce.

Desço muito próximo à portaria da empresa, passo o crachá e cumprimento os funcionários que nos guardam ali na frente. Duas palavras, apenas. Duas palavras e uma exclamação inútil. Mas elas passeiam sozinhas, sem par. Não fazem sentido.

A despeito da indiferença e da amargura velada, o primeiro aperto de mão me traz alguma esperança. O dia ainda pode ser bom.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

a menina da poltrona catorze


Como quase sempre, escolhi um assento no meio da última fileira.

Ela chegou quando todas as luzes já estavam apagadas e, quando fiz menção qualquer em oferece-la passagem, ela foi sutil:

- Não se preocupe, moço, não vou passar. Vou sentar aqui ao seu lado, obrigada.

Catorze palavras depois, ela se acomodou em silêncio perturbador. Poltrona catorze. A voz e o perfume assaltaram meus sentidos, quase adormecidos até aquele instante que precedia o início do filme. Pude senti-la intensa e imediatamente, mesmo que só por duas frases impessoais e pelo frescor aldeído que a pele emanava. A voz, mais delicada. O perfume, mais agressivo. Ambos doces e paralisantes.

Não consegui assistir ao primeiro minuto e meio. A silhueta da moça insinuava traços perfeitos, mas o contorno do rosto e o nariz ainda insistiam nalgum mistério. Indiscreto e ressabiado, reclinei o pescoço e desviei os olhos como se o drama estivesse projetado sobre o corpo secreto à minha esquerda.

A Menina que Roubava Livros me pegou pelas mãos e me levou ao passado nazista de uma terra distante que só conheci depois da barbárie. Liesel me encantou, logo me deixou esquecer da menina que habitava a poltrona vizinha. Na verdade, estávamos nós dois passeando por uma Alemanha de ruas cinzentas - povoadas pela suástica e a bola de capotão; a guerra e o futebol. Alemães, judeus, soldados e comunistas. Crianças. Perseguidos e perseguidores. Fogueiras. Sorriso de acordeão. Clandestinidade. Cenas e frases sublimes. "Palavras são vida. Se seus olhos falassem, o que diriam?".

Os olhos dela não falavam, mas, ainda que escondidos no breu do cinema, diziam muito. Lacrimejavam. Tímidos, primeiro. Depois transbordavam, navegando entre a crueldade hitleriana e o amor infantil da literatura. Da poltrona catorze, fez-se mar. A moça cuja beleza eu adivinhava sem pressa agora se desnudava no choro convulsivo feito uma judia a caminho do exílio. Entre um soluço e outro, levou as mãos ao rosto. Sofria mais do que o personagem. Talvez porque fosse descendente daqueles miseráveis condenados ao nada, talvez porque não quisesse aceitar que a morte é inevitável.

Pensei em conforta-la, de repente toca-la nos ombros e manifestar carinho. Não o fiz porque já não sabia medir, àquela altura, a sensatez entre a boa fé e minhas segundas intenções. Retomei o longa-metragem. Impossível não me lembrar da visita a Auschwitz, quatro anos atrás, e em todas as sensações que essas memórias ainda me causam. Chorei - e percebi que ela me olhava pela primeira vez desde aquele par de frases cândidas. Mantive a inércia provocada pelas reminiscências do campo de concentração e não devolvi o olhar, mas tenho certeza que ela se sentiu mais segura ao testemunhar minhas lágrimas.

A voz onisciente da História concluiu que os seres humanos são assombrosos. A trilha sonora ainda ressoava triste e reflexiva quando ela se levantou. Saiu apressada tateando os degraus na ponta dos pés, não sei se para esconder o rosto molhado ou para escrever sobre o nosso breve romance platônico.

Sugeri a mim mesmo alcança-la nos corredores iluminados, coloridos e barulhentos lá fora - mas continuei sentado até que o piano silenciasse depois do último crédito. Caminhei de volta pra casa conformado com a verdade da frase que o filme ecoava: ninguém vive para sempre.

Aquela moça viveu o tempo necessário para que eu a presumisse e a desejasse, mas não a tivesse. A menina da poltrona catorze viveu pouco mais de duas horas e partiu sem rastros. Levou consigo, roubado, o livro que eu gostaria de escrever. Deixou comigo, nesse pedaço tosco de papel, os rabiscos de um romance mudo sem final feliz.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

crônica de uma sexta-feira


- Alguma carta perdida, Seu Edmar?
- Chegou nada, não. Quer dizer... carta nenhuma. Chegou, sim, foi a menina bonita! Ê, sexta-feira!

O sotaque debochado do porteiro apressou meus passos cansados. Minha viagem cotidiana ao oitavo andar demorou a eternidade do nosso último beijo (na menina bonita, não no Seu Edmar). E quando eu abri a porta de casa, ela já me esperava toda sorriso.

Chegara não havia cinco minutos, me abraçou com cuidado e mostrou as unhas recém esmaltadas. A amargura de mais um dia exaustivo tão logo se dissipou quando mergulhei naqueles olhos de avelã. Minha pele ardia em brasa por causa do sol paulistano, mas o atrito ainda tímido dos nossos corpos amaciava os ombros e os braços castigados pelo calor.

Estávamos com fome, tesão e saudades. Transamos na pia do banheiro feito adolescentes famintos. Depois, recompostos, partilhamos uramakis à meia-luz enquanto passeávamos por nossos fantasmas e nossos futuros. Ela pediu saquê com frutas vermelhas. Para mim, por favor, apenas uma água com gelo e limão. Tanto fazia a bebida: estávamos embriagados de poesia e virtude. Ambos. 

Olhos em chamas, ela descreveu as primeiras impressões da cidade nova - e assumiu tamanha doçura na voz que pude visitar as ruas da planície enquanto ela falava. Perguntei sobre os costumeiros versos muito além da minissaia, mas ela me contou que morre depois de cada rascunho. Explicou que o texto machuca por dentro, desata em vômito e demora a cicatrizar. Eu, não. Eu gozo, renasço. Vivo mais do que nunca depois de cada palavra escrita. Brindamos. Discorremos sobre nossas paixões e nossas clarices. Somos um rabisco, afinal, de Falcão e Lispector. De ingenuidade ensaiada e sentimentos herméticos. 

Mais tarde, dedilhei o violão abafado pelo silêncio da madrugada. Li, baixinho, uma crônica manauara quando nos deitamos. Ela alcançou minha estante e retribuiu. Buscou o presente que me deixara na última vez e recitou a dedicatória: "Eis aqui uma lembrança, um recado, um socorro, se preciso. Pra que não lhe falte inspiração na vida, nem sorrisos, nem amor. Pra que você tenha mais um motivo pra não se esquecer da menina que mais te quer bem e, então, nunca se sinta só".

Acordamos no dia seguinte, satisfeitos e apressados. Com tesão e saudades, de novo. Cada qual, de novo, no seu próprio caminho. Abotoei o uniforme conformado com a ideia de que meu sábado mais uma vez estaria de luto, roubado, vestido de azul. Quando ela também se vestiu e foi embora, percebi que ela não deixaria apenas a lembrança de uma única noite. Parecia uma vida inteira. Uma história a ser repetida quantas vezes permitissem nossos destinos quase sempre incongruentes.