terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

a menina da poltrona catorze


Como quase sempre, escolhi um assento no meio da última fileira.

Ela chegou quando todas as luzes já estavam apagadas e, quando fiz menção qualquer em oferece-la passagem, ela foi sutil:

- Não se preocupe, moço, não vou passar. Vou sentar aqui ao seu lado, obrigada.

Catorze palavras depois, ela se acomodou em silêncio perturbador. Poltrona catorze. A voz e o perfume assaltaram meus sentidos, quase adormecidos até aquele instante que precedia o início do filme. Pude senti-la intensa e imediatamente, mesmo que só por duas frases impessoais e pelo frescor aldeído que a pele emanava. A voz, mais delicada. O perfume, mais agressivo. Ambos doces e paralisantes.

Não consegui assistir ao primeiro minuto e meio. A silhueta da moça insinuava traços perfeitos, mas o contorno do rosto e o nariz ainda insistiam nalgum mistério. Indiscreto e ressabiado, reclinei o pescoço e desviei os olhos como se o drama estivesse projetado sobre o corpo secreto à minha esquerda.

A Menina que Roubava Livros me pegou pelas mãos e me levou ao passado nazista de uma terra distante que só conheci depois da barbárie. Liesel me encantou, logo me deixou esquecer da menina que habitava a poltrona vizinha. Na verdade, estávamos nós dois passeando por uma Alemanha de ruas cinzentas - povoadas pela suástica e a bola de capotão; a guerra e o futebol. Alemães, judeus, soldados e comunistas. Crianças. Perseguidos e perseguidores. Fogueiras. Sorriso de acordeão. Clandestinidade. Cenas e frases sublimes. "Palavras são vida. Se seus olhos falassem, o que diriam?".

Os olhos dela não falavam, mas, ainda que escondidos no breu do cinema, diziam muito. Lacrimejavam. Tímidos, primeiro. Depois transbordavam, navegando entre a crueldade hitleriana e o amor infantil da literatura. Da poltrona catorze, fez-se mar. A moça cuja beleza eu adivinhava sem pressa agora se desnudava no choro convulsivo feito uma judia a caminho do exílio. Entre um soluço e outro, levou as mãos ao rosto. Sofria mais do que o personagem. Talvez porque fosse descendente daqueles miseráveis condenados ao nada, talvez porque não queria aceitar a advertência de que a morte é inevitável.

Pensei em conforta-la, de repente toca-la nos ombros e manifestar carinho. Não o fiz porque já não sabia medir, àquela altura, a sensatez entre a boa fé e minhas segundas intenções. Retomei o longa-metragem. Impossível não me lembrar da visita a Auschwitz, quatro anos atrás, e em todas as sensações que essas memórias ainda me causam. Chorei - e percebi que ela me olhava pela primeira vez desde aquele par de frases cândidas. Mantive a inércia provocada pelas reminiscências do campo de concentração e não devolvi o olhar, mas tenho certeza que ela se sentiu mais segura ao testemunhar minhas lágrimas.

A voz onisciente da história (ou História?) concluiu que os seres humanos são assombrosos. A trilha sonora ainda ressoava triste e reflexiva quando ela se levantou. Saiu apressada tateando os degraus na ponta dos pés, não sei se para esconder o rosto molhado ou para escrever sobre o nosso breve romance platônico.

Sugeri a mim mesmo alcança-la nos corredores iluminados, coloridos e barulhentos lá fora - mas continuei sentado até que o piano silenciasse depois do último crédito. Caminhei de volta pra casa conformado com a verdade da frase que o filme ecoava: ninguém vive para sempre.

Aquela moça viveu o tempo necessário para que eu a presumisse e a desejasse, mas não a tivesse. A menina da poltrona catorze viveu pouco mais de duas horas e partiu sem rastros. Levou consigo, roubado, o livro que eu gostaria de escrever. Deixou comigo, nesse pedaço tosco de papel, os rabiscos de um romance mudo sem final feliz.

Um comentário:

D.A.Do.Fleming disse...

O menino da poltrona Treze