sábado, 26 de abril de 2014

CRÔNICA DE UMA NOITE EM CLARO


- Posso te fazer uma confissão?
- Faça.
- É íntimo.
- Lá vem.
- É mais íntimo do que encontrar sua calcinha pendurada no meu banheiro depois da nossa primeira noite...
- Meu Deus!
- Pois é. Muito, muito íntimo...
- Conta.
- Tá preparada?
- Só tem uma coisa.
- Fala.
- Eu não deixo a calcinha pendurada no banheiro.
- Duvido.
- E como você sabe que vai ter "nossa primeira noite"?
- Você prefere que seja de dia?
- Idiota. Conta logo.
- Sabe por que eu tô aqui escrevendo bobagens pseudo-literárias ao invés de dormir?
- É mesmo! Você não precisa acordar cedo amanhã?
- Nossa, vou madrugar.
- E qual é a confissão, afinal?
- Gosto mais de escrever meus contos solitários do que fazer boa parte do meu trabalho.
- Mas você não é o tal apaixonado pela profissão?
- Sou, mas...
- E ainda bem, né?
- Uhum, é isso. Só que mil vezes minhas croniquetas de amor.
- Você é um lindo, sabia?
- ...
- Não muda isso nunca. Quando achar que tá cansado demais, me fala que eu faço um café e te acordo.
- E me ensina a tomar a café?
- Não faz sentido você não gostar...
- Não gosto.
- Tá bom. Eu te faço acordar.


quinta-feira, 24 de abril de 2014

CRÔNICA DO DIA BOM

São Paulo, 8:30 am.

No hall do elevador social, cruzo dois vizinhos que não conheço. Ainda não acordei, mas faço um esforço pequeno pra sorrir e desejar bom dia. Eles passam depressa e não me respondem, escondidos detrás dos óculos de sol - mesmo que não haja sol nenhum na manhã cinzenta.

No ponto de ônibus, dois minutos depois, sinalizo e o motorista obedece. Aceita me levar ao trabalho, ainda que também esteja com pressa e não queira perder o sinal verde no quarteirão de baixo. Desejo bom dia, extremamente agradecido pelo favor, mas ele também ignora.

Quando entrego os quatro reais ao cobrador, paro diante da catraca e aproveito, com alguma insistência, para sauda-lo à maneira tradicional. Enquanto espero pelo troco, procuro o olhos do sujeito a fim de decifrar o silêncio constrangedor que ele impôs ao nosso breve contato. Ele não me olha, claro, e me devolve a moeda mascarado pelo azedume precoce.

Desço muito próximo à portaria da empresa, passo o crachá e cumprimento os funcionários que nos guardam ali na frente. Duas palavras, apenas. Duas palavras e uma exclamação inútil. Mas elas passeiam sozinhas, sem par. Não fazem sentido.

A despeito da indiferença e da amargura velada, o primeiro aperto de mão me traz alguma esperança. O dia ainda pode ser bom.