quinta-feira, 24 de abril de 2014

CRÔNICA DO DIA BOM

São Paulo, 8:30 am.

No hall do elevador social, cruzo dois vizinhos que não conheço. Ainda não acordei, mas faço um esforço pequeno pra sorrir e desejar bom dia. Eles passam depressa e não me respondem, escondidos detrás dos óculos de sol - mesmo que não haja sol nenhum na manhã cinzenta.

No ponto de ônibus, dois minutos depois, sinalizo e o motorista obedece. Aceita me levar ao trabalho, ainda que também esteja com pressa e não queira perder o sinal verde no quarteirão de baixo. Desejo bom dia, extremamente agradecido pelo favor, mas ele também ignora.

Quando entrego os quatro reais ao cobrador, paro diante da catraca e aproveito, com alguma insistência, para sauda-lo à maneira tradicional. Enquanto espero pelo troco, procuro o olhos do sujeito a fim de decifrar o silêncio constrangedor que ele impôs ao nosso breve contato. Ele não me olha, claro, e me devolve a moeda mascarado pelo azedume precoce.

Desço muito próximo à portaria da empresa, passo o crachá e cumprimento os funcionários que nos guardam ali na frente. Duas palavras, apenas. Duas palavras e uma exclamação inútil. Mas elas passeiam sozinhas, sem par. Não fazem sentido.

A despeito da indiferença e da amargura velada, o primeiro aperto de mão me traz alguma esperança. O dia ainda pode ser bom.

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