segunda-feira, 5 de maio de 2014

A MENINA DO PARANOÁ


Foi um passeio breve. E ainda que fosse um tormento, durou o tempo exato de um sonho bom.

Ela me esperava no carro a poucos metros do hotel, pisca-alerta pulsando no ritmo do meu peito vadio: compassado e um pouco histérico. A chuva se dissipara, mas caminhei ziguezagueando os rastros d'água que o mormaço do cerrado não havia conseguido secar.

Ela abaixou o vidro. O sorriso, mesmo que diante de mim, vibrante e palpável, me deixou com mais saudades. Era o único presente que a boca dela me traria naquela noite - e eu sabia disso muito antes de sorrir de volta.

- Adentre-se!
- Oi...

Resumir nosso reencontro num abraço de quatro segundos foi um pouco triste, um pouco hipócrita, mas foi também o suficiente para que pudéssemos libertar outros sentidos além do tato.

- Hmm, que cheiroso!
- Sou um homem perfumado.
- Você é ridículo... Vem, quero te mostrar Brasília!
- Cheguei hoje cedo, a primeira impressão é boa.
- De noite, isso aqui é outra cidade!

Antes de contemplar as avenidas longas e arborizadas da planície, reparei nos detalhes que desenhavam a silhueta daquela minha amiga. Os olhos de avelã enegrecidos pelo céu escuro da capital. O rosto marcado pelo destino de menina candanga. O cabelo moreno voando agarrado à minha imaginação libertina.

- Aqui a gente pode andar assim... diferente de São Paulo!
- Janelas abertas? Não tem perigo?
- Quase não. Olha a Esplanada, não é bonita?
- Muito.
- Eu gosto da noite aqui, sabia?
- Bonita, mesmo...
- Mas e você? Fala tudo!

Tanto que eu queria falar... De mim, de nós, de todos os nós. Tanto que eu queria fazer como fizemos noutros infinitos momentos debaixo do sereno paulistano. Mas enquanto eu me calava diante dos mistérios do planalto, ela desvendava as margens de uma cidade sem pedestres.

- Vê! Tem o Lago Sul e o Lago Norte, mas tudo é o Paranoá.

Prosseguimos. A cidade da tevê, berço de alguns dos meus heróis e teto de boa parte dos meus inimigos, agora tinha mais vida -- e cheiro de vento gelado. Eu queria descer e aperta-la diante dos traços (im)perfeitos da Catedral; de repente despi-la à sombra de Nossa Senhora e reviver a loucura pela qual tanto prezamos em dias passados. Se foi um golpe de cinismo ou um sopro de pureza, sinceramente não sei, mas ela me sugeriu um filme.

- Chorei demais quando vi.
- Por quê?
- Se eu te contar, estrago tudo.
- Tá bom, vou ver. "Um Dia", né?
- Isso. É lindo.
- Um dia eu vejo.
- Você é ridículo...
- E você? Já assistiu Latitudes?
- Não. Me conta.
- Ele é fotógrafo. Ela é jornalista. Os dois se conheceram em Paris, meio que por acaso...
- Paris? Ahn...Que mais?
- Se eu te contar, estrago tudo.
- Bobo. Será que eu tô no caminho certo?
- De Paris?
- Oi?
- Depois eles se encontram em várias cidades do mundo.
- Ahn.
- E é isso...
- Não. Me conta mais!
- Cada capítulo é uma cidade diferente. Londres, Veneza, Istambul...
- Hmmm.
- Bons diálogos, etc...
- Ai, devia ter entrado ali! Será que esse ônibus me deixa passar?

Ela não prestava atenção - e eu jamais ousaria perguntar de novo se ela já viu Latitudes. Mesmo depois de alguns meses, o mapa da cidade ainda era novo e incerto.

- Ai, não. Acho que entrei errado!
- Olha, não existe caminho errado pra quem...

Ela suspirou e o sinal vermelho um pouco adiante sugeriu que parássemos. O carro freou. A frase ficou pelo meio.

- Pra quem... ?
- Não existe caminho errado.
- Sei.

Fazia frio. Ela fechou as janelas e deixou a liberdade do lado de fora. A música, que até então soava baixinho por causa do vento, irrompeu no prenúncio da madrugada e descortinou nossos desejos e nossos dilemas.

Eu só aceito a condição de ter você só pra mim
Eu sei, não é assim
Mas eu deixa eu fingir... e rir

O dedilhado que marca o fim da canção ainda cortava a noite quando chegamos à rua do hotel.

- Desculpa a pressa, mas é que...
- Eu sei.
- Tô exausta. Plantão amanhã...
- Pois é, que merda. Também acordo cedo.

Quando eu abri a porta e inclinei o corpo em direção à calçada, ela segurou meu braço.

- Deixa eu te dar um beijo.

Voltei o rosto e sorri, tímido e apreensivo. "Finalmente, Winnie..."

Ela se aproximou num abraço leve e tocou os lábios no meu rosto febril. Prometeu que, se desse tempo, a gente poderia fazer qualquer coisa amanhã.

- Por que não? Quem sabe...
- A gente se fala, tá? Fica com Deus.

Agradeci, amém, mas fiquei sozinho. Porque Deus, nem ele haveria de saber coisa alguma sobre nós dois. Nossa história, afinal, jamais foi previsível. E nosso romance, jamais planejado. Diferente daquela cidade que adormecia sem estrela alguma no céu.




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