domingo, 25 de maio de 2014

O DIA EM QUE MEU AVIÃO (NÃO) CAIU

Dizem que dinheiro não aceita desaforo - mas como eu não tenho, não sei. No meu caso, quem não aceita desaforo é a inspiração. E naquela tarde ela chegou assim, sôfrega e repentina. Situações banais e detalhes prosaicos pareciam crônicas. Boas crônicas. Assim que pude me sentar, no saguão do aeroporto, abri o caderno e rascunhei uma coisa em cima da outra -- com papel e caneta, como eu acho que fazem os escritores de verdade.

Letras confusas, rabiscadas, sobrepostas... um puta garrancho que eu sei que não vou entender depois. À medida que eu apostava nalguma ideia, logo vinha outra que me parecia tão boa quanto ou ainda melhor. Tudo me parecia genial. Pensei no título do livro, nas dedicatórias e na consagração diante da crítica. Presumi os idiomas para os quais todo esse brilhantismo seria traduzido. Naquela tarde, no saguão do aeroporto, eu me tornaria definitivamente um homem das palavras. 

Escrevia rápido por medo de esquecer alguma coisa. Corpo e mente libertos e sufocados; euforia juvenil, ansiedade e ebulição daqueles hormônios todos que eu esqueci o nome - mas que despertam o popular tesão. Escrever, pra mim, é um orgasmo. E naquele momento, no meio de tantas ideias efervescentes, eu me sentia como se estivesse transando com várias mulheres ao mesmo tempo. Viril, criativo e incansável.

Chovia muito no Rio de Janeiro. Chovia muito em São Paulo. São Pedro, como eu, parecia envolto em orgasmos múltiplos. A diferença é que ele provavelmente estava gozando tranquilo - e eu estava dentro de um avião. No aguardo de uma viagem entre o Rio e São Paulo, onde chovia muito. 

Procurei esquecer os perigos da rota nebulosa e as imperfeições da malha aérea brasileira. Voltei minha atenção às crônicas. Já podia vê-las prontas e publicadas. Deduzia o sucesso, contabilizava os "likes" no Facebook; aguardava o comentário de moças bonitas - que, se dependessem de mim, também seriam personagens dos meus contos piegas de amor. Buscava, desde aquele momento, a aprovação de um amigo distante, cronista dos bons que ainda não pensou em escrever um livro. Ele diria algo como "Boa, xará!" - e isso me bastaria. 

O avião partiu. De repente, aquelas nuvens pretas e infinitas que eu via lá de baixo agora estampavam as janelinhas ao meu lado. Em poucos segundos, pipocavam luzes e avisos de atar cintos de segurança. "Senhoras e senhores, estamos atravessando uma área de turBRRRRrr....ZZZzzzZZ....VVvVVVvv....XxxXxX". As aeromoças caíram no corredor. As máscaras de oxigênio caíram do compartimento acima das poltronas. Bebês e crianças de colo se descompunham no choro estridente e ardido. Mulheres arregalavam os olhões nos gritos suspensos pelo sobe-e-desce da altitude. A cabine sacolejava e as asas, dançantes e trêmulas, pareciam papel celofane no vento. "Por favor, eu não quero morrer! Alguém me escuta?!? Eu não quero morrer!!!!", suplicava um jovem marombado, suando em bicas. Ao lado, um homem de terno e gravata ajustava os óculos com placidez enquanto lia "O Monge e o Executivo". Nessas horas de pânico e turbulência, sempre haverá alguém lendo um livro e ajustando os óculos com placidez, como se nada lá fora estivesse acontecendo. Beatas e ateus repetiam o sinal da cruz desesperadamente -- às vezes invertendo a ordem entre o Pai e o Espírito Santo. 

O piloto, num ato de bravura e sinceridade, solicitou dois procedimentos básicos a todos os passageiros: mantenham os cintos afivelados, por pura formalidade -- e qualquer que seja a sua religião, por favor, reze muito. Explicou que a visibilidade era quase nula e as condições de pouso no aeroporto de Congonhas não eram favoráveis. Mas que, apesar disso, o pouso estava autorizado. Na pior das hipóteses, ele explicou, arremeteríamos. Mesmo que uma das turbinas estivesse comprometida pelo granizo. Ahn?! 

Eu estava tranquilo, até meio blasé. Deus jamais derrubaria o meu avião antes que eu terminasse meus rascunhos e publicasse minhas crônicas. Se ele não existisse e fôssemos destroçados no ar, pelo menos eu havia descoberto naquele instante que é exatamente assim que eu quero morrer: inspirado e cheio de ideias pelo caminho, sem saber ao certo o que é realidade e o que é ficção.






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