sexta-feira, 11 de julho de 2014

CRÔNICA DE UM QUARTO DE HOTEL

- Desculpa te receber assim, num quarto de hotel.
- E o que tem?
- Pedi uma pizza, mesmo. Parma, geleia de damasco e tomate caqui.

- Não... O que tem me receber aqui, num quarto de hotel?
- Ah, seria melhor noutro lugar. Você gosta da noite em Brasília.
- Você já viu Latitudes?
- Nossa!
- Que foi?!
- Um amigo distante ficaria feliz... diálogo de crônica, isso, e ele é cronista!
- Tudo se passa num quarto de hotel - e as cidades, bem melhores que a planície, sempre ficam lá fora.

- Tem razão. Escolhi um malbec, também.
- Hmmm... fino! Agora também entende de vinhos?
- Absolutamente nada.
- Um brinde, então!
- A nós!
- Aos quartos de hotel. Ao seu amigo distante!

Assistimos, alto ali do sétimo andar, à cidade que pouco a pouco se escondia debaixo das estrelas e das nossas taças improvisadas. A varanda era uma ilha escondida e solitária, só nossa. Embevecido pela estranheza que é amar de novo, procurei o beijo. Ela resistiu. Um pouco de culpa. Um pouco de charme. 

- Deixa estar. Deus já dormiu também...
- Bobo.
- É verdade. A essa hora, não tem pecado nenhum.
- Não é isso. Mas, sabe...

Pecamos. Quando ela partiu, procurei meu amigo distante. O sol, pra ele, já havia nascido - e ele enxergou com clareza o que eu ainda tentava distinguir no escuro.

- Eu vi tudo com uma luz amarela bonita.
- Amigo, foi quase isso...
- Ela bem vestida, batom vermelho. Bolsa cara. Salto alto. Cheirosa. Cabelo bagunçado...
- A própria!
- Demais.
- O cabelo chegou arrumado. Baguncei quando a gente sentou bem pertinho um do outro. Ela adora, nem disfarça.

- Ela tira o sapato e coloca os pés em cima do sofá?
- Perfeito! E põe a fivela na boca enquanto arruma o cabelo. Só pra eu bagunçar de novo e fazer carinho no rosto de menina. Precisa ver...

- Que coisa linda. Quem é?

Silenciei, perdi o rumo do papo no suspiro trágico e reticente. Simplesmente não soube dizer quem era aquela moça que habitou para sempre o meu quarto de hotel. Mesmo depois que eu fui embora dali.

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