sábado, 23 de agosto de 2014

LOUCA DE PEDRA II

Quando ela foi embora, ano passado, eu sabia, lá no fundo, que um dia ela ia voltar. Ela voltou.

Depois de tudo o que me causou, do tanto que me fez sofrer, ela de repente achou que a nossa história não deveria mesmo acabar feito um trauma daqueles. Quis voltar - mas, orgulhosa, não me dirigiu a palavra. Simplesmente voltou. Sempre tive esse medo. Se eventualmente dormia abraçado a uma mulher, receava acordar na manhã seguinte com ela, de repente, me batendo à porta.

Em 2013, difícil falar sobre isso, eu não soube lidar com a situação. Senti uma dor que jamais havia sentido. Chorei como jamais havia chorado. Em 2014, mais maduro e mais frio, imaginei que estivesse preparado para o possível reencontro. Mas não estava. Ao primeiro sinal que dela partiu, rastejei pela casa e miei feito um gatinho de rua com fome; me curvei diante da força arrasadora que ela ainda tem sobre mim. Pequenininha, menor do que eu, mas altiva e dona do nosso destino.

Me levou pra cama. De dia. De noite. Cama a toda hora. Enquanto ela passeava pelo meu corpo com prazer e maldade, eu transpirava e experimentava todas as posições possíveis. Eu suplicava por um copo dágua, água, água, por favor, eu preciso de muita água. Mas ela queria meu sangue. E conseguiu. Eu sangrei por dentro e por fora, à mercê daquela rocha impiedosa e imune aos sentimentos alheios - que depois foi embora mais uma vez, tomara que para nunca mais voltar.

Maldita pedra no rim. De novo ela.

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

JERICOACOARA


Tudo é areia e vento. Areia. Vento.
Tudo se faz descalço, como se tudo fosse à beira do mar. 

Não há relógio nem pressa. O tempo se mede pelo antes e o depois das palmas para o pôr-do-sol. 
Não há sinal. Mas que sinal? Moderno é não deixar que a vida se leve, tão leve, pela rabeira inútil de um esmartefone.  

As dunas que se desmancham, redemoinho de grãos.
Arraias que se despedem, traídas pela maré.
As dunas voltam de vez em quando, revivem noutro lugar. Arraias, nunca. Cuidado só o ferrão, moleque matreiro! 

Ô, marinheiro, marinheiro
(Marinheiro só!)
Ô quem te ensinou a nadar
(Marinheiro só!)
Ou foi o tombo do navio
Ou foi o balanço do mar

Capoeira-i-á! O moço e o berimbau. O vira-lata mais bonito do mundo. Pink Floyd no violino. Rede para dormir com as costas nágua. Gaúcho cor de jambo. Polonesas cor de camarão. Samba de primeira, toda segunda. Na quarta, é forró com a Dona Amélia -- e, toda hora, prosa fiada com a Dona Delmira. 

Caipirinha de seriguela. Filé de robalo no forno a lenha. Bolo de macaxeira, molho de tamarindo. Tapioca de cocada mole com queijo coalho. Ravioli preto, de massa fresca, e lagosta de Icapuí. Sacanagem. Sacanagem é xoxota. Mas calma lá! É só cachaça com frutas batidas. Seis reais, meu amigo, posso bater kiwi também? Tem xoxota de todo jeito.

O que tem mais?
Praia, areia e vento.

Praia de dia, para alcançar de bugue o paraíso escondido. 
Praia de tarde, para aplaudir o último facho de luz. 
Praia de noite, para, sem culpa, soprar uma nuvem debaixo do céu. 

E quando penso nela (de dia, de tarde, de noite), percebo que os sonhos, passageiros, poeirentos, pueris, os sonhos também são feitos de areia e vento. Jericoacoara é um sonho só.




quinta-feira, 7 de agosto de 2014

MAIS UMA CRÔNICA DE FICÇÃO


Nosso primeiro encontro. Escolho o bar. Ela, a bebida.

- Caipirinha de coco?! É boa mesmo?
- Uma delícia, confia em mim.
- Duas, então, por favor.
- Andei lendo seus textos...
- Olha!
- Adorei, sério.
- Poxa...
- Você escreve muito bem, parabéns!
- Imagina...
- Bem que já tinham falado, hein?
- Bobagem...
- Mas você mentiu, safadinho.
- Oi?!
- Me disse que não conhecia a cidade!
- Ué...
- Eu li uma crônica sua aqui de Brasília.
- Ah...
- Até amor você fez na frente da Catedral!
- Ficção.
- Hum, tem certeza?
- Do quê?
- Era muito real.
- Ficção.
- Então nada daquilo é verdade?
- Não, peraí. Tudo é verdade.
- Aháá! Eu sabia!
- Calma. Ficção não é o mesmo que mentira.
- Espera, fiquei confusa...
- Sério. Tudo é verdade, mas é a verdade daquele mundo.
- Que mundo, mocinho?
- O mundo do papel-e-caneta.
- Hm...
- Escrever é um barato por isso. Tudo pode ser verdade.
- Sei...
- Botei no papel, pronto, aconteceu!
- Mas você não transou com a menina na frente da Catedral?
- Eu?
- O texto é em primeira pessoa.
- Eu-lírico.
- Ah, vá...
- Eu não escrevo sobre mim. Não me dou essa importância toda!
- Tá bom, eu desisto.
- Me fala de você.
- Eu? Eu queria ser uma crônica sua...
- Então podemos beber mais uma caipirinha de coco!
- Podemos!
- E, bêbados, inventarmos qualquer história...
- De mentira?
- Se a gente botar no papel, vira verdade.
- Bobo.

No caminho de volta, ela me ofereceu carona. Fez o contorno à esquerda quando avistou, do outro lado da Esplanada, o campanário dos quatro sinos. Estacionou diante da Catedral e, antes de me tocar, esnobou a Nossa Senhora.

- Eu odeio religião, sabia?

Desabotoou primeiro minha camisa, depois o resto. Antes passeou com as mãos, saracoteou de cima a baixo o meu corpo ereto no banco da frente, e em seguida me beijou inteiro. Roubou cada gota minha de inspiração e colocou um ponto final naquela noite abrasadora da capital.

- Agora você não me engana mais. A ficção acabou. 

terça-feira, 5 de agosto de 2014

CRÔNICA DE UM VIRA-LATA EM BOTUCATU

Dizem, e concordo, que a grandeza do cotidiano está na satisfação dos prazeres prosaicos. Um desses prazeres, para mim, é chegar à casa dos meus pais e abrir o jornal. Eles vivem em Botucatu, no interior de São Paulo, e não consigo visita-los com a frequência que gostaria - mas quando vou, jamais deixo de procurar pelo noticiário impresso da cidade. 

Não se trata necessariamente de estar bem informado. Tampouco é (mais) um indício de que não consigo me desligar da profissão nos momentos de folga. Ao contrário; é apenas um exercício de alívio e lazer. Começou quando os meus velhos se mudaram, há mais ou menos três anos, e eu me preocupei com a segurança de ambos. Meu pai garantiu que se tratava de um lugar tranquilo, "a gente não vê nem morador de rua pedindo esmola", mas eu queria ter certeza de que ele me dizia a verdade. E quando fui vê-los pela primeira vez na casa nova, abri, desconfiado, a página policial da gazeta botucatuense. A manchete mais violenta anunciava a história de um homem que fora detido na agência bancária porque a botina tinha sola de metal. A porta giratória foi bloqueada e os seguranças, impiedosos e eficazes, não permitiram que o caboclo pagasse as contas ou sacasse o dinheiro da cachaça naquele dia.  

Noutra oportunidade, meses depois, percebi que as coisas haviam piorado. Li a notícia de um assalto a residência e anotei, inclusive, o trecho que considero um marco do jornalismo e da segurança pública mundial: "Quando [o dono da casa] entrou, ele se deparou com aquela situação. Nesse momento o suspeito pediu cerveja e Gatorade, que colocou embaixo do braço, e depois fez ameaças ao morador que foi chamado de otário pelo bandido folgadão". 

Ontem, depois de chegar de viagem, estava a caminho do quarto quando vi o jornal velho estendido num pedacinho de chão. Território da Mel, nossa poodle toy de estimação que manda na casa e é tratada como gente da família real britânica - mas ainda não aprendeu a fazer xixi no vaso do toalete. Corri os olhos pelo campo minado e úmido de letrinhas miúdas, não demorei a me satisfazer com a manchete devastadora e pitoresca: 

"CACHORRO DE RUA PERTURBA E ASSUSTA MORADORES". 

Sério. Segundo a reportagem, "os moradores da Vila Real alegam que o animal é hostil e que a melhor solução seria levá-lo a um lugar, onde o cachorro poderá receber tratamento adequado". A foto ao lado expunha sem qualquer cerimônia o maior criminoso das ruas de Botucatu. Um vira-lata magro, feio e provavelmente pulguento. Provavelmente fedido. Um pobre-diabo das ruas plácidas do interior. Indefeso. Inofensivo. Focinho carcomido pelos mosquitos e varejeiras do mato. Pelagem escura, mal tratada; um rastro branco disforme abaixo da goela que denuncia a falta de raça ou identidade. Um coitado sobre quatro patas que, naquela foto, esboça um uivo esganiçado e sofrido.  

A reportagem ouve os moradores do bairro. Os relatos são assustadores: "Esse cão não é de ninguém, ele fica na rua, mas começaram a dar ração para ele e acabou ficando por aqui. Eu já ouvi várias pessoas reclamando dele". Mais impressionante é o depoimento de uma moça de 36 anos: "Muita gente esquece que ele fica na calçada dormindo e passa por ali, mas quando vê, ele já está em cima, latindo e rosnando. Eu acho que ele pensa que vamos mexer na ração e acaba ficando agressivo. Em mim ele nunca avançou, mas já vi em outras pessoas". 

Não há registro de ataques. Não há, pelo menos, quem diga que foi atacado. O cachorro sem nome jamais engoliu uma criança indefesa. Sequer mordeu algum velhinho que sofre de Alzheimer e passou por ali para comer a ração-esmola. Todavia, o final da investigação é brilhante: "Segundo informações do Canil Municipal, a primeira vez em que os funcionários foram até o bairro pra verificar o problema, o cão não foi encontrado, mas eles afirmaram que pretendem voltar ao lugar para averiguar a situação". 

A Vila Real não parece real. Mais uma vez, me divirto. Só que passa - e, quando passa, fico triste. Queria que os moradores de São Paulo também fossem perturbados e assustados por um cachorro de rua. Ou que as autoridades cariocas prometessem voltar à Rocinha para verificar o problema do quadrúpede que rosna. Que o Hamas aceitasse a proposta de cessar-fogo e deixasse a ração do nosso bandido em paz. Se eu pudesse, queria que o mundo fosse uma grande Botucatu. 

Escrevo a crônica e dispenso o jornal amarelo no lixo. Tenho medo que a Mel também se transforme em notícia nas páginas policiais da cidade. O que diriam de um cachorro que urina sobre o trabalho suado dos jornalistas?