terça-feira, 5 de agosto de 2014

CRÔNICA DE UM VIRA-LATA EM BOTUCATU

Dizem, e concordo, que a grandeza do cotidiano está na satisfação dos prazeres prosaicos. Um desses prazeres, para mim, é chegar à casa dos meus pais e abrir o jornal. Eles vivem em Botucatu, no interior de São Paulo, e não consigo visita-los com a frequência que gostaria - mas quando vou, jamais deixo de procurar pelo noticiário impresso da cidade. 

Não se trata necessariamente de estar bem informado. Tampouco é (mais) um indício de que não consigo me desligar da profissão nos momentos de folga. Ao contrário; é apenas um exercício de alívio e lazer. Começou quando os meus velhos se mudaram, há mais ou menos três anos, e eu me preocupei com a segurança de ambos. Meu pai garantiu que se tratava de um lugar tranquilo, "a gente não vê nem morador de rua pedindo esmola", mas eu queria ter certeza de que ele me dizia a verdade. E quando fui vê-los pela primeira vez na casa nova, abri, desconfiado, a página policial da gazeta botucatuense. A manchete mais violenta anunciava a história de um homem que fora detido na agência bancária porque a botina tinha sola de metal. A porta giratória foi bloqueada e os seguranças, impiedosos e eficazes, não permitiram que o caboclo pagasse as contas ou sacasse o dinheiro da cachaça naquele dia.  

Noutra oportunidade, meses depois, percebi que as coisas haviam piorado. Li a notícia de um assalto a residência e anotei, inclusive, o trecho que considero um marco do jornalismo e da segurança pública mundial: "Quando [o dono da casa] entrou, ele se deparou com aquela situação. Nesse momento o suspeito pediu cerveja e Gatorade, que colocou embaixo do braço, e depois fez ameaças ao morador que foi chamado de otário pelo bandido folgadão". 

Ontem, depois de chegar de viagem, estava a caminho do quarto quando vi o jornal velho estendido num pedacinho de chão. Território da Mel, nossa poodle toy de estimação que manda na casa e é tratada como gente da família real britânica - mas ainda não aprendeu a fazer xixi no vaso do toalete. Corri os olhos pelo campo minado e úmido de letrinhas miúdas, não demorei a me satisfazer com a manchete devastadora e pitoresca: 

"CACHORRO DE RUA PERTURBA E ASSUSTA MORADORES". 

Sério. Segundo a reportagem, "os moradores da Vila Real alegam que o animal é hostil e que a melhor solução seria levá-lo a um lugar, onde o cachorro poderá receber tratamento adequado". A foto ao lado expunha sem qualquer cerimônia o maior criminoso das ruas de Botucatu. Um vira-lata magro, feio e provavelmente pulguento. Provavelmente fedido. Um pobre-diabo das ruas plácidas do interior. Indefeso. Inofensivo. Focinho carcomido pelos mosquitos e varejeiras do mato. Pelagem escura, mal tratada; um rastro branco disforme abaixo da goela que denuncia a falta de raça ou identidade. Um coitado sobre quatro patas que, naquela foto, esboça um uivo esganiçado e sofrido.  

A reportagem ouve os moradores do bairro. Os relatos são assustadores: "Esse cão não é de ninguém, ele fica na rua, mas começaram a dar ração para ele e acabou ficando por aqui. Eu já ouvi várias pessoas reclamando dele". Mais impressionante é o depoimento de uma moça de 36 anos: "Muita gente esquece que ele fica na calçada dormindo e passa por ali, mas quando vê, ele já está em cima, latindo e rosnando. Eu acho que ele pensa que vamos mexer na ração e acaba ficando agressivo. Em mim ele nunca avançou, mas já vi em outras pessoas". 

Não há registro de ataques. Não há, pelo menos, quem diga que foi atacado. O cachorro sem nome jamais engoliu uma criança indefesa. Sequer mordeu algum velhinho que sofre de Alzheimer e passou por ali para comer a ração-esmola. Todavia, o final da investigação é brilhante: "Segundo informações do Canil Municipal, a primeira vez em que os funcionários foram até o bairro pra verificar o problema, o cão não foi encontrado, mas eles afirmaram que pretendem voltar ao lugar para averiguar a situação". 

A Vila Real não parece real. Mais uma vez, me divirto. Só que passa - e, quando passa, fico triste. Queria que os moradores de São Paulo também fossem perturbados e assustados por um cachorro de rua. Ou que as autoridades cariocas prometessem voltar à Rocinha para verificar o problema do quadrúpede que rosna. Que o Hamas aceitasse a proposta de cessar-fogo e deixasse a ração do nosso bandido em paz. Se eu pudesse, queria que o mundo fosse uma grande Botucatu. 

Escrevo a crônica e dispenso o jornal amarelo no lixo. Tenho medo que a Mel também se transforme em notícia nas páginas policiais da cidade. O que diriam de um cachorro que urina sobre o trabalho suado dos jornalistas?  







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