sexta-feira, 15 de agosto de 2014

JERICOACOARA


Tudo é areia e vento. Areia. Vento.
Tudo se faz descalço, como se tudo fosse à beira do mar. 

Não há relógio nem pressa. O tempo se mede pelo antes e o depois das palmas para o pôr-do-sol. 
Não há sinal. Mas que sinal? Moderno é não deixar que a vida se leve, tão leve, pela rabeira inútil de um esmartefone.  

As dunas que se desmancham, redemoinho de grãos.
Arraias que se despedem, traídas pela maré.
As dunas voltam de vez em quando, revivem noutro lugar. Arraias, nunca. Cuidado só o ferrão, moleque matreiro! 

Ô, marinheiro, marinheiro
(Marinheiro só!)
Ô quem te ensinou a nadar
(Marinheiro só!)
Ou foi o tombo do navio
Ou foi o balanço do mar

Capoeira-i-á! O moço e o berimbau. O vira-lata mais bonito do mundo. Pink Floyd no violino. Rede para dormir com as costas nágua. Gaúcho cor de jambo. Polonesas cor de camarão. Samba de primeira, toda segunda. Na quarta, é forró com a Dona Amélia -- e, toda hora, prosa fiada com a Dona Delmira. 

Caipirinha de seriguela. Filé de robalo no forno a lenha. Bolo de macaxeira, molho de tamarindo. Tapioca de cocada mole com queijo coalho. Ravioli preto, de massa fresca, e lagosta de Icapuí. Sacanagem. Sacanagem é xoxota. Mas calma lá! É só cachaça com frutas batidas. Seis reais, meu amigo, posso bater kiwi também? Tem xoxota de todo jeito.

O que tem mais?
Praia, areia e vento.

Praia de dia, para alcançar de bugue o paraíso escondido. 
Praia de tarde, para aplaudir o último facho de luz. 
Praia de noite, para, sem culpa, soprar uma nuvem debaixo do céu. 

E quando penso nela (de dia, de tarde, de noite), percebo que os sonhos, passageiros, poeirentos, pueris, os sonhos também são feitos de areia e vento. Jericoacoara é um sonho só.




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