quinta-feira, 7 de agosto de 2014

MAIS UMA CRÔNICA DE FICÇÃO


Nosso primeiro encontro. Escolho o bar. Ela, a bebida.

- Caipirinha de coco?! É boa mesmo?
- Uma delícia, confia em mim.
- Duas, então, por favor.
- Andei lendo seus textos...
- Olha!
- Adorei, sério.
- Poxa...
- Você escreve muito bem, parabéns!
- Imagina...
- Bem que já tinham falado, hein?
- Bobagem...
- Mas você mentiu, safadinho.
- Oi?!
- Me disse que não conhecia a cidade!
- Ué...
- Eu li uma crônica sua aqui de Brasília.
- Ah...
- Até amor você fez na frente da Catedral!
- Ficção.
- Hum, tem certeza?
- Do quê?
- Era muito real.
- Ficção.
- Então nada daquilo é verdade?
- Não, peraí. Tudo é verdade.
- Aháá! Eu sabia!
- Calma. Ficção não é o mesmo que mentira.
- Espera, fiquei confusa...
- Sério. Tudo é verdade, mas é a verdade daquele mundo.
- Que mundo, mocinho?
- O mundo do papel-e-caneta.
- Hm...
- Escrever é um barato por isso. Tudo pode ser verdade.
- Sei...
- Botei no papel, pronto, aconteceu!
- Mas você não transou com a menina na frente da Catedral?
- Eu?
- O texto é em primeira pessoa.
- Eu-lírico.
- Ah, vá...
- Eu não escrevo sobre mim. Não me dou essa importância toda!
- Tá bom, eu desisto.
- Me fala de você.
- Eu? Eu queria ser uma crônica sua...
- Então podemos beber mais uma caipirinha de coco!
- Podemos!
- E, bêbados, inventarmos qualquer história...
- De mentira?
- Se a gente botar no papel, vira verdade.
- Bobo.

No caminho de volta, ela me ofereceu carona. Fez o contorno à esquerda quando avistou, do outro lado da Esplanada, o campanário dos quatro sinos. Estacionou diante da Catedral e, antes de me tocar, esnobou a Nossa Senhora.

- Eu odeio religião, sabia?

Desabotoou primeiro minha camisa, depois o resto. Antes passeou com as mãos, saracoteou de cima a baixo o meu corpo ereto no banco da frente, e em seguida me beijou inteiro. Roubou cada gota minha de inspiração e colocou um ponto final naquela noite abrasadora da capital.

- Agora você não me engana mais. A ficção acabou. 

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