quarta-feira, 17 de setembro de 2014

MINHA NAMORADA E O RAULZITO


Semana passada, num dia de folga, resolvi arrumar as gavetas do armário. Mas não me refiro a quaisquer gavetas, tampouco a um armário comum. Eram as gavetas do armário daquele quartinho dos fundos. Não, também não era um quartinho qualquer. Era o quartinho dos fundos da casa onde moram meus pais. E se você também já fez isso, sabe que eu encontrei algo muito além dos ácaros e do álbum de figurinhas do Rei Leão. 

Dentre tantas pérolas que renderiam um livro de crônicas ou, quem sabe, uma sacola imensa de papel para reciclagem, achei um caderno velho onde eu escrevia meus textos e meus primeiros poemas de amor. Coisas de quando eu tinha, sei lá, 16 anos. Os textos me fizeram rir ou quase me emocionar. Todos falam sobre tristeza e melancolia de um forma tosca e adolescente. Os poemas, de tão ruins, foram os primeiros e últimos.

Mas o caderno, cheio de garranchos ilegíveis e páginas rasgadas, também guardava outras preciosidades que só ganham valor depois de muitos anos: o registro de momentos prosaicos das nossas férias na praia. Argumentos que minha mãe usava para encerrar uma discussão política na hora do almoço, por exemplo, ou frases com as quais minha namorada pretendia me atingir quando questionada sobre os hábitos consumistas. Foi uma dessas frases, aliás, que valeram cada espirro por causa dos ácaros e cada lágrima nostálgica por causa do álbum de figurinhas do Rei Leão. Dizia assim:

"Você acha que vai mudar o mundo com esse seu jeitinho idiota, né? Você é louco, isso sim".

 O filme rodou na cabeça. Lembrei daquele dia - e daquela briga - com perfeição. Tudo por causa de um Nike Shox. Eu só queria que ela me explicasse a obsessão pela nova modinha da época. Impossível que alguém achasse bonito aquele modelo de tênis com as molas todas pra fora (eu achava, mas nunca disse isso a ela). Importante era provoca-la; discutia horas a fio se fosse preciso. O capitalismo! A subserviência ao império do consumo!! A colonização dos costumes tupiniquins, a imposição das necessidades fúteis e o fetichismo das logomarcas!!! Se minha namorada optasse por levar o papo adiante, eu citava Adorno e Horkheimer. Tudo é fruto da indústria cultural, da massificação da arte. Papo de frankfurtianos, enfim. 

Naqueles tempos, eu trocava a praia pela edição especial da Caros Amigos sobre os sem-terra. E quando todo mundo voltava pra casa, depois de um revigorante banho de mar e uma iluminada manhã de sol, eu estava pronto para discutir a desproporção dos latifúndios brasileiros. Você me entende, eu era um jovem de esquerda no primeiro ano da faculdade de jornalismo. Ou, pra encurtar a definição, um puta de um chato. Queria - e podia - mudar o mundo! Ostentava as hawaianas, populares e nem tão baratas, mas não cederia jamais ao preço absurdo de um Nike Shox.  

Naqueles tempos, eu só ouvia Raul - e, claro, também tocava Raul. Minha namorada fazia beiço, cara feia, ignorava meus hinos poéticos e anarquistas. Só muitos anos depois ela admitiu que adorava me ver dedilhando "How Could I Know?". Mas, enfim, isso é outra história. 

Aquele cara no quartinho dos fundos não é mais o mesmo. Hoje talvez eu não queira mudar o mundo. Pior do que isso, ainda não soube atingir nenhum grau de loucura que me permita ser um louco de verdade. Eu e minha namorada terminamos há mais de dez anos. Raramente leio a Caros Amigos, prefiro uma boa praia. Fui submetido à perversão do sistema e à manutenção do status quo. Mas, aliviado, penso que nem tudo está perdido: eu ainda toco Raul. 

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