terça-feira, 21 de outubro de 2014

meia garrafa de vinho

Depois de um beijo proibido, mas inevitável, ela despertou a lembrança de beijos passados. Menos cheios de culpa. Mais longos, mais livres. Ainda era junho, dia vinte e pouco - e presumiam, ambos, que aquela noite não seria a última. Mais uma vez escondidos num quarto de hotel, aquela era só mais uma dentre as infinitas a serem vividas. Talvez por isso se permitiram deixar a garrafa de vinho pela metade.
- Ei, olha aqui.
- Oi...
- E depois, quando você for embora de novo?
- Eu volto. Eu sempre volto.
- E depois vai de novo.
- Vou. Eu sempre vou.
- E por que é tão difícil?
- Porque a gente é assim.
- Difícil?
- Fácil. Mas de lugar nenhum.
- Pra sempre?
- Não, nada é.
- Ah, até parece...
- O quê?
- A gente não é pra sempre?
- A gente quem? Seres humanos?!
- Bobo. A gente eu e você.
- Não, ninguém é.
- É até quando, então?
- Dessa vez, até 14 de julho.
- Pois é, mas e depois?
- Você não tá sozinha.
- É diferente.
- Por quê?
- Porque ele pode simplesmente passar.
- Como eu.
- Não. Você fica.
- Eu vou.
- Você fica pra sempre.
- Não, ninguém fica.
- Então tá. Eu preciso ir.
- Pra sempre?
- Porra, desisto.
- E o resto do vinho?
- Terminamos essa semana?
- Eu e você?
- O vinho, cacete.
- Então! O vinho, ué... eu e você!
- Ah, entendi. Pode ser, sei lá.
- Tchau, boa noite.
- Até logo mais.
Pela primeira vez naqueles dias, ele não foi à varanda para acompanha-la de longe e, depois de um aceno no escuro, vê-la partir. Pela primeira vez naqueles dias, ela também não olhou pra cima; não disse baixinho, só pra ela, que também o amava.
Morreram assim, pela metade. Feito a garrafa de vinho.

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