quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

CRÔNICA DE NATAL




Não tenho ambições nem desejos
Ser poeta não é uma ambição minha
É a minha maneira de estar sozinho.

(Fernando Pessoa)



O vizinho de baixo anuncia o amigo-secreto entre gargalhadas e aplausos. O vizinho de cima, bem mais honesto, fuma maconha deitado na rede. Briga com a namorada pelo telefone. Pede mais amor, por favor.

O prédio ao lado pisca do primeiro ao último andar. Luzes diferentes, cada qual com a sua. Espio pelas janelinhas miúdas, procuro desvendar a hipocrisia que habita aquela gente fantasiada e faminta.

As redes sociais piscam mais rápido que as luzes do prédio ao lado. Todo mundo compartilha a mesa posta, a montanha de presentes, o mar de selfies com o gorrinho vermelho. Evito curtir fotos posadas ao lado da ceia. Não suporto guardanapos dourados, presépio, peru com pêssego em calda, papai noel e árvore de plástico. Mais do que isso, me permito o direito de questionar o aniversariante ilustre.

As pessoas vão dizer que sou triste, como se felizes fossem elas. Vão dizer que sou estranho, como se algum dia eu tivesse dito que quero ser normal. Vão dizer que sou egoísta, como se o altruísmo passageiro daquela noite as fizesse dormir em paz para sempre.

Minha felicidade é prosaica. Quero viver uma noite comum, sem pressa ou horário pra nada. Apreciar o silêncio da rua e o vazio da cidade grande. Sentir saudade apertada, pequena melancolia. Ficar de cueca na sala. Recitar poemas. Falar comigo mesmo em voz alta. Pensar em tudo. Não pensar em nada.

Uma amiga me manda mensagem, pergunta se é verdade "MESMO" que eu tô sozinho. É tempo de solidão, respondo. Mais tarde, quem sabe, saio pra tomar cerveja com os amigos. A vida jorra na madrugada que celebra o menino Jesus.

Minha mãe me liga, pergunta se é verdade "MESMO" que eu só comi bolacha água-e-sal no jantar. Era tudo o que eu tinha, minha velha querida, mas eu tô ótimo! Ela finge que se conforma, deus-te-abençoe, seu pai também quer falar.

- Filhão, tudo bem? Tínhamos certeza que você estava a caminho, rapaz! Achei que você nos faria mais essa surpresa!

Me sinto um merda. Sem argumentos. Sem vergonha nenhuma na cara.

- Estrada cheia, né, pai? Rodoviária apinhada, não dava. Semana que vem tô aí!

O telefone não para. Os amigos também me escrevem. Querem me buscar, fazem questão que eu me junte à família deles. Agradeço o convite, mas garanto que eu tô bem desse jeito. É tempo de solidão. Eles reagem quase todos da mesma forma, bastante polidos e compreensivos:

- Você é um merda arrombado.
- Idiota.
- Puta de um trouxa!
- Você é ridículo, cara. 
- Tá cultuando a babaquice, agora? Parabéns. 
- Mártir do "não-comemoro-natal". Grande babaca!


Retribuo a gentileza com palavras semelhantes, desejo uma noite feliz a todos eles e volto a escrever minha crônica solitária. Fiquei puto, perdi o fio da meada.

De repente, todos os cachorros do bairro se assustam com os fogos. Fazem mais barulho que os próprios rojões. O vizinho de baixo estoura o champanhe. Mais aplausos e mais gargalhadas. O vizinho de cima faz as pazes com a namorada, apaga o baseado no ralo da varanda e diz que, sim, ela é a mulher com a qual ele sempre sonhou.

É meia-noite, afinal.

Me sinto um merda. Arrombado. Idiota. Babaca. Ridículo. Triste. Estranho. Egoísta. Mas fico tranquilo: essa sensação ruim vai acabar em poucos minutos, tão logo se apaguem as luzes de natal.

domingo, 21 de dezembro de 2014

MEMÓRIAS 2014 - MARÇO


MEMÓRIAS 2014
MARÇO

Terça-feira, o dia exato eu não sei.  
Sei, sim, das grades. Dos cadeados.  

Câmera sem foco. Todos são menores de idade. 
Desde muito cedo desamparados pela vida, eles não têm rosto nem sobrenome. 

Música. Versos improvisados nas paredes da reclusão. 
A liberdade é a bola. A bola é a quase-liberdade. 

Reportagem. Memória viva na alma. O ranger estridente dos portões de ferro ainda machuca. Portões de ferro ou de solidão.

- O senhor é famoso?
- Famoso, que nada. Muito menos senhor!
- Mas cê conhece o Ronaldo, moço?
- Já falei com ele uma vez.
- Então o senhor é rico!

Menino bobo, de tão puro. Não sabe que minha riqueza, mesmo, foi aquela tarde abrasadora de terça-feira. Quanto eu imaginei escrever sobre tudo aquilo. Quanto eu imaginei!
Escreveria um livro, se toda a história já não estivesse ali escrita - na palma de cada mão. O facho de luz me interrompeu as ideias e a professora me convidou para entrar. Oficina de caligrafia. "Olha aí, Antônio, é o moço da tevê! Mostra pra ele a cartinha que você escreveu pra sua família. Ficou tão linda, mostra pra ele".  

O Antônio, que Antônio não deve ser, me olhou ressabiado, inseguro, e arrastou o pedacinho de papel colorido até bem perto de mim. Era a letra dele. Era a vida dele em poucas palavras. 

Tenho apenas duas mãos
E o sentimento do mundo
Mas estou cheio de escravos
Minhas lembranças escorrem
e o corpo  transige
na confluência do amor

Era Drummond.